Discografia

O som das Minas Gerais

Em 1972, chegava às lojas o disco Clube da Esquina, creditado a Milton Nascimento e Lô Borges. Com cara de manifesto, o disco revelava o som que vinha das Minas Gerais e trouxe na ficha técnica uma série de nomes que viriam a se tornar grandes no decorrer do tempo. Entre esses nomes estavam os de Beto Guedes e Toninho Horta, que recentemente colocaram novos títulos nas lojas. Beto volta, cinco anos depois do revisionista 50 Anos Ao Vivo, com Outros Clássicos, onde reapresenta (ao vivo, mais uma vez) uma série de canções obscuras de sua carreira. Já Toninho faz uma ode à paz e ao amor, ao lado de muitos convidados em Harmonia & Vozes. Com resultados diferentes, ambos mostram que, mesmo passados quase 30 anos, não dá pra se separar da sonoridade daquele disco que os revelou.

Clássicos escondidos

Não é segredo pra ninguém a importância de um certo quarteto de Liverpool na música que se fez em Minas naqueles anos 70. Quem decidiu tocar guitarra embalado por John e Paul, acabou ganhando um acento pop em suas cordas. Esse foi o caso de Beto Guedes e isso fica bem claro ao longo das 17 faixas de Outros Clássicos (Biscoito Fino). Gravado ao vivo no Palácio das Artes de Belo Horizonte (MG), o disco deixa de lado Sol da Primavera, O sal da terra e Feira moderna e centra fogo na porção menos conhecida da obra do mineiro, com escolha feita pelo público via internet. De mais conhecido, a abertura com O medo de amar é o medo de ser livre, já gravada por Elis Regina em 1980, A página do relâmpago elétrico (que chegou a ganhar versão do RPM, em 1989) e Luz e Mistério. Esta última, talvez a mais conhecida do repertório, ganha a voz de Daniela Mercury que, por dificuldade de descer do trio, acaba derrapando na interpretação. A baiana se sai melhor na sequencia com Meu ninho, um acalanto emocionado com o piano luxuoso de Wagner Tiso e o acordeom do mineiro Célio Balona. Conhecido pela timidez doentia que o levava a cantar de costas para a plateia, Beto Guedes acabou ganhando um tremido característico em sua voz metalizada. Se, nos anos 80, fazia uso da voz duplicada para dar mais robustez ao seu registro, aqui ele prefere um coral que faz lembrar o grande Boca Livre. Assim, destaca-se a poética Só primavera e o roquinho Veveco, panelas e canelas, que ganhou uma citação de O que foi feito de vera.

With a little help from my friends

Dono de uma virtuose discreta, Toninho Horta é dono de uma obra que merece ser ouvida com muito respeito. O guitarrista já acompanhou artistas que compõem a nata da MPB e já assinou discos que ganharam público no exterior. Não por acaso, já foi apontado como um dos dez maiores guitarristas do mundo e é considerado um mestre pelas gerações que o sucederam. Apesar de toda a pompa que o cerca, em Harmonia & Vozes, seu novo disco disco, lançado pelo selo próprio Terra dos Pássaros, ele se cerca de um grande time de músicos para celebrar coisas simples e às vezes esquecidas como a família e a paz. Se isso pode parecer piegas para muitos, ele prefere fazer isso sem medo. Se as primeiras notas de O amor é pra se amar parecem comprometer o que vem pela frente, vale a pena seguir ouvindo. O primeiro a entrar é o o pernambucano D’Black com a pouco inspirada Luz que vem do céu. A seguinte, Você me trouxe o sol, parece uma continuação da anterior e, ao lado de Ivan Lins, ele dedica os versos “Você me trouxe o sorriso, o olhar tão verdadeiro” a Ivete Sangalo. A baiana aparece mais na frente num bom registro de Diana, sucesso do Boca Livre. Antes, Djavan canta Canto da Fada, em homenagem a Luísa, filha de Toninho. Manuel, o audaz, um dos clássicos da curta obra autoral do guitarrista, agora em homenagem ao filho que dá nome à música, ganha a voz e o violão de Frejat (que, quando começa, parece o Belchior). Não pense que a longa lista de cantores afasta Toninho do microfone. Pelo contrário. Com voz pequena, o anfitrião imprime sinceridade nos duetos, se permitindo até alguns rasgos de coragem, como quando divide a bela Meu nome é que diz com o velho parceiro Beto Guedes. Dois dos melhores momentos do disco vêm colados. Trata-se do sambinha Agora amor, é com você e do mezzo-rock Serenade. Na primeira, Toninho assume a guitarra e traz o piano tipo exportação do mestre Sérgio Mendes pra deixar a voz malandra do Seu Jorge brincar sozinha. A seguinte traz Erasmo Carlos que, em ótima fase, faz um registro digno dos seus melhores momentos dos anos 80. Ao fim das 16 faixas de Harmonia & Vozes, que ainda traz duas homenagens aos pais de Toninho Horta, fica mesmo a sensação de que é preciso se falar mais em paz e amor, sem medo de parecer piegas.

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