Discografia

O lobo mau do rock

Prólogo: Numa das primeiras edições do Ceará Music, a banda paulistana Ira! Subiu ao palco cercada pelos gritos efusivos de um público pequeno que insistia no refrão “Ira! Ira! Ira!”. Pouco antes, uma briga com uma banda local, tomou conta dos bastidores. O motivo: Nasi estava incomodado com o atraso que o segundo palco traria para sua banda. Panos quentes em ação, e o quarteto pode repetir a mesma energia recentemente captada no projeto MTV Ao Vivo (2000).

Adiante. Por vários motivos, o Ira! deve ter sua importância reconhecida. Em primeiro lugar, eles sempre colocaram a própria identidade à frente do comércio. Por isso mesmo, nunca foram bons vendedores de disco nem se tornaram tão populares como outros companheiros de época. O que não os impediu de cravar alguns sucessos na história do rock oitentista. Em segundo lugar, eles sobreviveram a dezenas de reveses, brigas e períodos difíceis, sempre com a mesma formação. Por fim, nessa formação está uma cozinha eficiente, André Jung (bateria) e Ricardo Gaspa (baixo), e um dos nossos maiores guitar heroes, Edgard Scandurra.

Completando essa formação dourada, está o cantor Marcos Valadão, o Nasi. Homem de voz rouca e poderosa, ele é um autêntico rocker, de pavio curto, que levou uma vida tão errática quanto as vendas da sua banda. Drogas, confusões, amores desfeitos, sua vida teve direito aos mesmos clichês que outros heróis do rock. O ápice desse sangue calabrês que ele carrega nas veias foi uma briga com seu irmão Júnior, também empresário do Ira!, selando assim o fim ao quarteto em 2007. A discussão midiática teve direito a cabeçada na cara, ameaças de morte e interdição.

Cinco anos depois, enquanto prepara o lançamento do seu terceiro disco solo, Nasi avaliza o lançamento da biografia A Ira de Nasi, escrita pelos jornalistas Mauro Betting e Alexandre Petillo. A ideia do livro partiu da editora Belas Letras para Mauro, que convidou Alexandre por saber que este tinha uma biografia encaminhada sobre o Ira!, abortada junto com a separação dos músicos. Escorada em uma longa entrevista com o próprio biografado, A Ira de Nasi tem méritos e deméritos bem pontuais.

Assumidamente fã do quarteto paulista, Betting exagera no desejo de agradar seu objeto de estudo. O início em tom quase poético já deixa claro que as 317 páginas a seguir serão escritas por alguém que perdoa todos os pecados do seu ídolo. Um exemplo é quando ele fala sobre a música Pobre São Paulo, sucesso dos primeiros anos da banda. Com versos que dizem “Não quero ver mais essa gente feia/Não quero ver mais os ignorantes/ Eu quero ver gente da minha terra/Eu quero ver gente do meu sangue”, eles foram acusados de apontar seu bairrismo contra os nordestinos que viviam (e vivem) em São Paulo e chamados de fascistas. Para encerrar questão, o livro traz a frase lapidar: “Um clássico. Polêmico como o rock precisar ser. Mas não com o preconceito que nada merece ter”. Ponto.

A propósito, nenhum outro ex-Ira!, além de Nasi, tem espaço no livro. Nem mesmo Gaspa, que, segundo ao autor, foi o único que ficou ao lado do cantor durante as brigas mais recentes. Embora fique claro que boa parte da pendenga foi mesmo entre o cantor e o irmão empresário, nenhum deles dá sua visão atual sobre os fatos. Claro, trata-se de uma biografia de Nasi, mas não faria mal nenhum ouvir o que eles tinham a dizer (se houve tentativa, isso não é dito). Ainda assim, contar a história de um dos centro-avantes do rock brasileiro é uma atitude louvável. Além disso, os autores não caem no clichê de guiar o texto pelas substâncias que Nasi fez uso ao longo da vida. Pelo contrário, são os discos e shows que conduzem o leitor num texto leve e rápido, que, na medida que avança, vai se tornando mais interessante. “Nasi não nasceu pra ser santo”, diz a contra-capa. Isso a gente já sabia.

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