Discografia

O ocaso do louco

SydBarrett-FotoNão existiria Pink Floyd sem Syd Barrett. Também não existiria Syd Barrett sem Pink Floyd. Cria a criador nunca conseguiram se separar por completo, mesmo levando em conta que a contribuição do cantor e guitarrista para a banda se resumiu a pouquíssimo tempo. Alçado ao título de lenda, o músico viveu uma das histórias mais erráticas e trágicas da mitologia roqueira e ainda hoje intriga fãs e curiosos.

Essa história de ascensão e queda é detalhada em Crazy Diamond – Syd Barrett e o surgimento do Pink Floyd, dividido por Mike Watkinson e Pete Anderson. O livro tomou quatro anos de pesquisa e, segundo os autores, chegou a ser recusado por que muitos editores não conheciam o ex-líder da banda inglesa. A primeira edição saiu pela Omnibus, em 1996, e foi reeditado 10 anos depois. Agora em 2013, o livro chega atualizado ao Brasil pela Editora Sonora.

Se não nasceu em berço de ouro, a história de Roger Keith Barrett também não é a do herói do subúrbio que virou estrela. Filho de um médico com forte inclinação artística, o jovem de Cambridge era a alegria da casa. Por outro lado, era conhecido seu pouco interesse por regras ou limites. Aos 16 anos, pouco depois de perder o pai, a adolescência lhe trouxe o álcool, o cigarro e o sexo sem compromisso. Também largou a escola para estudar artes. Em seguida, largou a escola de artes por não aceitar as normas da academia.

Foi então que passou a se dedicar mais à música. Embora já tivesse montado algumas bandas, o som de Syd Barrett só encontrou seu ponto ideal quando ele se juntou a Roger Waters, Nick Mason, Rick Wright e Bob Klose. Inspirados na idolatria que tinha por Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones, a ideia da banda era um som novo, que, de alguma forma, representasse sua época. Com vocação para o jazz mais tradicional, Klose se separou dos amigos deixando que a formação original do Pink Floyd nascesse.

Desse ponto em diante, a história pode ser contada pela explosão da banda ou pela implosão do vocalista. O som flutuante e etéreo do Floyd sempre foi muito ligado aos efeitos do LSD e Barrett era um usuário voraz do alucinógeno. Roger Waters até tentou, em vão, evitar que Barrett usasse drogas na hora das gravações. Mas Barrett, não conhecia proibições. Segundo a biografia, os demais membros da banda preferiam maconha e bebidas.

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Embora já fosse um aventureiro no mundo dos entorpecentes, o primeiro contato de Syd com o LSD foi aos 19 anos. O que aconteceu daí em diante permanece como uma grande interrogação. Crazy Diamond deixa a cargo do leitor escolher em que acreditar: o LSD destruiu a mente de Barrett ou piorou algo que já estava fadado a ruir? Ele ajudou a construir The piper at the gates of dawn (1967), considerado por muitos como o melhor álbum de estreia do rock, mas não aguentou a vida de popstar.

Ao mesmo tempo que foi celebrado como um compositor e músico genial, a sanidade de Syd Barrett começou a se perder entre os labirintos da sua mente. Tornou-se violento e protagonizou cenas infelizes, como quando subia ao palco e ficava parado olhando para um ponto qualquer. O artista ruiu diante dos fãs e a banda percebeu que não dava para continuar sem ele.

Expulso do Pink Floyd em 1968, depois de participar minimamente do segundo disco, Barrett passou a alimentar, sem querer, o mito em torno do seu nome. Amigos e admiradores tentaram, sem sucesso, fazê-lo voltar aos trilhos. Mas, cada vez menos, ele se mostrava em condições de manter uma carreira. De volta à casa da mãe, isolado num porão sujo, ele vivia pintando quadros e assistindo TV. E fugia de quem tentava lhe fazer perguntas.

Ainda assim, Syd Barrett continuou sendo perseguido por admiradores e jornalistas. Indisposto com o assédio, ele se trancava cada vez mais no próprio mundo. Segundo Crazy Diamond, os ex-companheiros de banda reagiram de diferentes formas sobre a vida fantasmagórico do amigo. David Gilmour, por exemplo, nunca teria se livrado da culpa de tê-lo substituído e, regularmente, ligava para saber como estava Syd. Ainda assim, qualquer tentativa de recuperação foi inútil e ele morreu em julho de 2006, aos 60 anos, gordo, careca e quase cego. A nova edição de Crazy Diamond apresenta fatos e opiniões que sucederam sua morte e deixa dúvidas sobre o verdadeiro papel do LSD nesse declínio. “As causas do colapso de Syd Barrett e seu gradual sumiço são muitas e variadas. Ele é frequentemente classificado como uma vítima do ácido, mas a razão verdadeira é muito mais complexa”, diz o epílogo. A única certeza é que sua criação permanece imortal.

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