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Riba de Castro fala sobre o projeto Lira Paulistana

Riba de Castro nos tempos do Lira

Riba de Castro nos tempos do Lira

Chico Pardal, Plínio Chaves, Wilson Souto, Fernando Alexandre e Riba de Castro. Conhecida como “o pessoal do Lira”, essa foi a turma que criou o Lira Paulistana e, durante quase sete anos, reuniu público e artistas num ambiente de muita liberdade e criatividade. Riba é cearense de Quixeramobim, criado em Fortaleza, e, aos 18 anos, partiu para São Paulo movido pela por inquietação. Por lá, se misturou a cena cultural produzindo pequenos eventos. Ao conhecer o Pessoal do Lira, ele largou um emprego no Curso Anglo Vestibulares e foi se dedicar ao novo projeto que estava enfurnado num porão paulista. Por telefone, Riba lembra, entre risadas, as histórias que viveu ali.

O POVO – Como foi revisitar as histórias do Lira?

Riba de Castro – Pra mim, foi uma catarse. Era uma coisa que tinha sido importante pras pessoas que viveram, mas que deixou de existir, como acontece com tudo. Estava há 25 anos na Espanha e foi lá que o projeto começou a embrionar. Pra mim foi assim como rever os amigos, que não via há anos. Foi como uma prestação de contas.

OP – E como veio a ideia de registrar essas histórias?

Riba – Sempre que eu voltava ao Brasil, as pessoas me perguntavam sobre o Lira. Mas não tinha tido ainda um documento com essa preocupação de registro. Quando comecei a buscar material, as pessoas foram me cedendo e eu tinha guardado todo meu o material. Como eu era responsável pela parte visual, tinha todos os cartazes. Isso me ajudou muito a criar uma linha do tempo.

OP – Você comenta que começou a escrever o livro com a morte do Itamar Assumpção, em 2003. Ele foi o grande nome do Lira?

Riba – Quando o Itamar morreu, eu pensei “porra, e agora?”. Eu queria fazer esse projeto porque esse pessoal tem que ta vivo pra contar a história. Tem muitos trabalhos acadêmicos sobre o Lira, mas eles se concentram muito na música. Por que era a parte mais importante. Mas nós fizemos um roteiro de cultura (impresso), que não tinha na época. Também fizemos a primeira edição de um livro do (cartunista) Glauco, que estava começando na Folha.

Entrada do Lira Paulistana

Entrada do Lira Paulistana

OP – Tudo que o Lira propunha tinha muita novidade…

Riba – A gente acabava fazendo coisas que surpreendiam. Gente como o Arrigo (barnabé, compositor) já estava há 10 anos fazendo música, mas não tinha oportunidade de mostrar para o público. Os artistas que necessitavam daquele espaço. Era tudo gente da mesma idade. E tinha a importância do momento histórico, fim de ditadura, existia muita ilusão. A censura começava a deixar de existir e as pessoas viam que era o momento de fazer as coisas. Era o momento de mostrar tudo de bom que estava guardado.

OP – E qual a impotência do Itamar nessa história?

Riba – Ele é o grande por que, como artista, era completo. Um cara seríssimo e até chato muitas vezes. Mas o Itamar para mim é o mais importante, o que mais conectou. Agora, isso sem negar a importância de gente como o Arrigo. É que a força da negritude dele Itamar) era inegável. Eu adorava o Itamar.

OP – Você acha que existe espaço para um Lira Paulistana nos dias de hoje?

Riba – Não, por que somos diferentes. Hoje, a moçada não faz nada se não tiver um projeto, com orçamento e tal. Eu sei que isso é o profissionalismo. Naquela época, como não tinha isso, a gente era obrigado a fazer dar certo. Você imagina o que é fazer um show instrumental aberto ao público, para jovem. Hoje também é difícil tirar as pessoas de casa. O espírito é outro.

OP – O Lira Paulistana, ainda hoje, é um nome forte na cultura brasileira. Por que um espaço tão pequeno foi tão marcante?

Riba – Duas coisas levaram a isso. A primeira são os artistas que passaram por lá e que estão tocando até hoje. A outra é que o Brasil está se redimindo e saudando uma dívida antiga com a questão da memória. Realmente, com a história que o País tem, ele deveria ter um acervo musical para desbancar qualquer outro. Tenho visto muitos documentários musicais importantes que mostram isso. Quando comecei a gravar o documentário, nós conseguimos fazer um show de comemoração de 30 anos do Lira. Depois o filme ficou pronto, agora o livro. Agora to pensando em fazer um vinil com o pessoal da época e os filhos deles, que mamaram nessa Vanguarda Paulistana. Tem esse espírito do Lira de querer estar sempre perto dos novos.

OP – Quais as histórias do Lira que você tem como mais marcantes?

Riba – Lembro de todos os shows do Itamar, mas tem uma que acho engraçada. Tinha um show do Kid Vinil, que fazia um estilo punk e também tinha um programa de rádio. E os punks da periferia eram putos com ele. Como os shows da meia noite eram tidos como de risco, a gente subia a bilheteria para evitar das pessoas entrarem sem pagar. Quando lotou que a gente fechou a porta, eu vi a porta começar a crescer de tanta gente empurrando. Quando abrimos, veio uma avalanche que me derrubou no chão e espalhou o dinheiro todo. Eu só via botas passando. O Kid falava “se o líder de vocês quiser falar comigo”. Foi a única vez que teve uma briga no Lira. Mas o punk mesmo é o que toma o microfone do outro.

Itamar Assumpção e Suzanna Sales tocando no velho porão

Itamar Assumpção e Suzanna Sales tocando no velho porão

OP – E como foi o show da Avenida Paulista?

Riba – A primeira vez que conseguimos um patrocínio da Secretaria de Cultura foi por que eles fizeram um levantamento sobre os espaços de São Paulo e um dos mais bem colocados foi o Lira. O teatro pequeninho tinha mais público que os teatros grandes. A secretaria se sentiu na obrigação de dar um retorno. Foi assim que fizemos o aniversário de São Paulo e fechamos a Avenida Paulista. Foi a primeira vez que ela fechou e para um show de música independente. Na ditadura, um show que reunisse mais de mil pessoas era um perigo.

OP – O Lira Paulistana dava lucro?

Riba – A gente tinha um pro labore que era bem pequeno. Como o Plínio era engenheiro, era o único que tinha dinheiro. O Chico e o Gordo (Wilson Souto) eram as mulheres que seguravam. Nós ficamos seis meses segurando as contas do Jornal do Lira. Tinha a gráfica, a editora, mas sempre esbarrava no problema da distribuição. A gente vendia discos pelo correio. E a gente conseguia. O Lira se pagava e a gente tinha uma estrutura razoável, com 15 a 18 funcionários. Não tinha capital para investir, o dinheiro era quase sempre comprometido.

OP – Do que você sente mais saudade?

Riba – Do espírito aventureiro, solidário, da inquietude. Hoje eu não faria nada do que fiz, mas por outras questões. Tinha aquela vontade de continuar fazendo coisas. Continuo inquieto, mas é mais difícil reunir gente. Como a gente era meio comunistão, acostumado a trabalho clandestino, de repente, tinha a liberdade e a condição de fazer. A gente era jovem, mas era sério. Se queria fumar maconha, tinha que ser em casa, por que a gente era muito vigiado.