Discografia

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes misturam amor e excessos em novo disco

capa-jonnata-dollEra final de 2012 quando encontrei Jonnata Araújo dos Santos em seu apartamento, próximo à avenida Humberto Monte, para uma conversa sobre a vida e a carreira ao longo dos últimos meses. No 1° de janeiro daquele mesmo ano, o frontman da banda Garotos Solventes havia sido apontado como a aposta do ano do Vida & Arte e aquele era o momento de avaliar as perdas e ganhos do período.

O fato é que 2012 foi um ano de mortes e renascimentos para o cantor e compositor Jonnata Doll. O suicídio de um amigo o afundou numa vida de excessos que só foi interrompida por conta de um relacionamento com uma espanhola de nome Carmem. Vendo a luz do fundo de um buraco, ele quis melhorar e se mandou para o sítio do avô em busca de paz, saúde e natureza. De lá também voltou com um punhado de canções que ganham vida no disco Crocodilo, que chega hoje às plataformas digitais.

Produzido por Yuri Kalil (Cidadão Instigado) e Alexandre Kassin (Los Hermanos), o segundo álbum dos Garotos Solventes rega uma série de sementes plantadas no anterior, de 2014. Com referências que misturam Stooges, New Order, Smiths e muito Rolling Stones, Crocodilo traz o quinteto fortalezense (radicado em São Paulo há mais de um ano) cercado por um time de amigos músicos que acrescentam em timbres, peso e idéias. Tem as guitarras de Dado Villa-Lobos, Fernando Catatau e Guilherme Cruz (parceiro de Almir Sater), e vocais de Chiara Banfi e Lenna Beauty.

“É um disco diferente, que fala do início, meio e fim de uma relação, e traz observações da realidade. Foi criado só ao violão, num momento de reclusão e renascimento”, avalia Jonnata Doll, por telefone. Ao contrário da figura anárquica do palco, ele é dono de uma voz mansa que ganhou destaque nas faixas Drama e Terror e Quem é Que Precisa?. Feitas de voz e violão, a primeira é a mais nova do repertório e fala sobre uma personalidade exagerada e errante, como um Cazuza pós-anos 2000. Foi sugestão de Kassin a entrada de outra canção que fizesse companhia àquela balada acústica. Assim entrou a segunda faixa, que questiona expectativas familiares e cristãs, num recado à mãe do compositor. “Minha mãe nem tá ligada que tem essa música, ela ainda não viu o disco. Mas minha família está feliz. Quando se fica distante, a idealização começa a falar mais forte”, comenta Jonnata.

Apesar do amor e da família, Crocodilo não deixa de lado o olhar marginal dos Solventes sobre o mundo. Aí entra Ruth, rock sujo sobre uma ex-namorada que afundou o pé na jaca junto com Doll. Tem ainda Táxi, cuja letra trilíngue fala sobre gringos que saem à beira-mar em busca de menininhas para curtir uma farra. “Esses taxistas continuam existindo na Praia de Iracema”, critica o ex-vocalista da banda Kohbaia, que abordou o assunto em Prostituta adolescente. O ponto alto da porção mais acelerada de Crocodilo é a descaradamente punk Cheira Cola (da época do Kohbaia), que mistura fatos verídicos da vida escolar de Doll e de um garoto que morreu no quintal de um seminário do bairro Álvaro Weyne.

Crocodilo mostra o quanto os Solventes vêm crescendo nessa temporada paulistana. Dividindo espaço com antigos ídolos e realizando uma série de shows em espaços abertos, eles vêm abrindo espaço para um som que nasceu em Fortaleza, mas pretende ganhar o mundo. “Minha expectativa é de que esse disco possa nos levar para outro patamar. Fazer mais shows, entrar num modo de circulação que possa se sustentar”, comenta Doll, que vem se dividindo entre a banda e a turnê com a Legião Urbana. “Tocar para quatro mil pessoas com todo mundo cantando junto é uma experiência que eu não vou ter (com os Solventes). É muito foda”.

Apesar de já estar pronto há alguns anos, Jonnata Doll defende que Crocodilo não nasce ultrapassado. “A gente vive em transformação, mas tem certas coisas que permanecem. O lugar que eu acesso para fazer música permanece. E compor sobre vício é algo que sempre vai fazer sentido”, comenta o autor das 12 faixas do disco (que contou com poucas parcerias). No entanto, assim como aconteceu com o disco de estreia, Crocodilo já nasce enquanto outro trabalho está sendo gestado. Este terceiro disco, ainda sem previsão de chegada, vai trazer as composições novas, que tratam da vida na maior metrópole do País. O conservadorismo da sociedade, o ritmo acelerado, os preconceitos e a vivência política serão tratados nas novas faixas. “É engraçado, o nosso público aqui vem muito do teatro e do cinema. O pessoal do rock é meio hétero, meio machista e tem resistência comigo”, ri Jonnata que tem planos de fazer um dos shows de lançamento em um bar tipicamente roqueiro de São Paulo, frequentado por metaleiros. “Acho que vai rolar umas tretas”, adianta sem se importar muito.

Serviço:
Jonnata Doll & Os Garotos Solventes – Crocodilo
Participações de Dado Villa-Lobos, Fernando Catatau e outros
12 faixas
EAEO Records
Preço médio: R$ 20,00

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.