Discografia

Dois dedos de prosa com Bruno Gouveia – Versão completa

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É preciso ter respeito pela história do Biquini Cavadão. Filhos de uma segunda geração de bandas de rock dos anos 1980, eles ganharam esse nome (que é difícil levar a sério) de Herbert Vianna, o mesmo paralama que deu uma força nos primeiros momentos do quinteto carioca que logo estourou da Fluminense FM com o hit Tédio. Mais de 30 anos depois, o Biquini mantém quatro quintos da formação original e não admite viver de velhos sucessos. Nadando contra uma maré que não está para peixes roqueiros, eles acabam de lançar As Voltas que o Mundo dá, 10º álbum de inéditas. Por email, o vocalista Bruno Gouveia fala sobre o hoje.

DISCOGRAFIA – O Biquini Cavadão chegou aos 34 anos mantendo 80% da sua formação original. A única baixa foi do Sheik, em 2000. Qual o motivo da saída do baixista e o que mantém vocês juntos por tantos tempos?
Bruno – Sheik saiu para se tornar artista plástico. Acontece nas melhores bandas. Nos falamos poucas vezes mas acompanhamos com interesse seu trabalho. Quanto a nós, que ficamos, soubemos entender a banda acima de nossas expectativas individuais. Existe um respeito quanto ao voto majoritário. Sempre discutimos pensando no que é melhor pra banda e mesmo que um saia derrotado pelos outros três, este acata e veste a camisa em prol da decisão da maioria

DISCOGRAFIA – Durante essas mais de três décadas, vocês cruzaram o auge do Rock Nacional, uma período de arrefecimento e hoje uma quase sumiço do rock nos grandes meios de comunicação. Ainda assim, vocês seguem sempre lançando material inédito. Sabendo que nesse tempo houve ainda intempéries políticas e transformações no mercado musical, queria saber qual foi o período mais difícil da vida de vocês. Quando a situação mais apertou? Já chegaram a pensar em desistir?
Bruno – O momento mais complicado, por incrível que pareça, foi quando o mercado de CDs disparou em meados da década de 90. Qualquer artista vendia 100 mil discos. No entanto estávamos em crise, vindos de um trabalho que, apesar do sucesso de Chove Chuva, não vendeu bem. Saímos da gravadora e ficamos quatro anos sem lançar nada, vendo todo mundo lançar discos e se dar bem. Pior ainda, foram os anos em que nossos shows foram à míngua. No entanto, juntamos nossas forças e começamos a fazer um novo disco, ensaiando diariamente quase que numa terapia ocupacional. Destes ensaios nasceu o disco biquíni.com.br Janaína nos colocou de volta nos trilhos. Apesar de tudo que passamos, desistir não estava nos planos. Depois disso, mesmo com as adversidades do mercado, aprendemos a lidar com a carreira, shows e como viver mesmo com vendas baixas de discos. Foi uma escola e tanto.

DISCOGRAFIA – Uma marca da discografia de vocês é que quase todas as canções são assinadas pela banda. Como é o modo de trabalho de vocês? Existe uma forma de trabalhar que vocês adotaram ao longo desse tempo?
Bruno – Dividimos tudo desde o início, mesmo que a música seja de um apenas. Isso sempre evitou brigas, que acabamos vendo ocorrer em outros grupos. Entre nós, Birita costuma compor sozinho, mas já trabalhei com ele em outras épocas. Coelho compõe com diversos parceiros e inclusive comigo. E eu faço o mesmo com eles. Miguel participa mais no processo de desenvolvimento, arranjos e até nas críticas ao nosso modo de escrever. Às vezes, suas observações nos fazem refazer alguma parte da letra ou melodia.

DISCOGRAFIA – O tema política sempre esteve presente nos shows de vocês. Vendo a situação atual do Brasil, qual, na sua visão, é o melhor caminho pro Brasil voltar para os trilhos?
Bruno – Educação. Um processo lento. Temos que aprender a sermos melhores como pessoas. Neste momento, estamos no fundo do poço. A polarização política e o maniqueísmo que vivemos não nos leva a nada. E o caminho que imagino se faz com justiça para que os erros não se repitam, leis corretas que não sejam para o benefício apenas de quem as cria e sobretudo educação, para que uma nova geração não tome como referência o que foi feito nos anos vividos. Sou otimista. Lutamos por diretas, pelo fim da ditadura, pelo fim da inflação galopante, estas coisas ficaram no passado. Por que não acreditar que toda esta pouca vergonha que acontece, um dia acabe desaparecendo? Por isso sonho que um dia, Zé Ninguém, poderá perder seu sentido… mesmo.

DISCOGRAFIA – Se nos 80, o rock era o ritmo mais popular no Brasil, onde ele está hoje, quando o sertanejo tomou conta do mercado? O que houve com a música do Brasil nos últimos anos?
Bruno – O sertanejo é um modismo, tal como o rock também já foi. A longevidade do sertanejo é fruto de uma administração mais bem feita por conta de grandes investidores no segmento. O Brasil é um país rural e a música sertaneja nasce de todos os cantos. O rock surgiu como música de contestação, que casava bem com  a vontade de dizermos o que queríamos assim que afrouxaram a mordaça da censura. Hoje, a música no mundo é mais entretenimento, pano de fundo. Claro que há grandes artistas e compositores mas nem sempre isso é o que importa. Uma pena. De todo modo, tudo pode acontecer no futuro.

DISCOGRAFIA – Fortaleza é uma cidade que adotou o Biquini Cavadão já neste século. Como era a relação de vocês com a cidade antes disso? Têm lembranças de tocar aqui nos anos 1980?
Bruno – Nosso primeiro show foi na Ponte Para o Céu, um bar pequeno. Estava totalmente afônico. Birita tem este show gravado, me recuso a ouvir! Depois fizemos duas apresentações no Projeto Pixinguinha no clube América. Voltamos para mais um show no Pirata’s em 1990 e depois ficamos onze anos sem tocar na cidade. Nem no estouro de Vento Ventania chegamos a nos apresentar por aqui, não sei o que aconteceu. Nosso retorno acontece justamente no Ceará Music de 2001, o primeiro. Nós fomos a última banda a entrar na seleção, nem tinha o nosso nome no cartaz. Só que o show foi algo tão cheio de energia que ali, nossa história com a cidade começou a ser reescrita. E, desde então, só temos as melhores lembranças.

DISCOGRAFIA – Em As Voltas que o Mundo dá vocês trabalham com Liminha, um dos produtores mais requisitados da música brasileira, que ainda assumiu os baixos do disco. Como foi esse encontro e essa parceria com ele?
Bruno – Era um sonho antigo e que nunca havia acontecido antes por total desencontro nosso. Ao encerrarmos a tour de 30 anos do DVD Me Leve Sem Destino, queríamos abrir um novo ciclo com algo que até então nunca tivéssemos realizado. Sugeri o nome do Liminha e todos gostaram da ideia. A integração no estúdio foi ótima e o resultado já destaca este disco como um de nosso melhores na história, a julgar pelos comentários dos fãs.

DISCOGRAFIA – 32 anos de carreira e lançando novos discos, apesar de um cenário difícil para o rock nacional. Ao mesmo tempo, vocês seguem renovando o público e trabalhando. Queria que você falasse da força criativa por trás do Biquini. A parceria de quatro pessoas tocando junto, compondo junto. O que mantém essa força?
Bruno – Acho que o público nos dá esta força. Nos dá a certeza que ainda temos muito a dizer. Cada comentário que recebemos nas redes sociais, bom ou mau, é um estímulo. Temos prazer em cantar as músicas, fazer shows. Não subimos para “bater ponto”, não entramos no palco de “salto alto”, achando que está tudo ganho. Pelo contrário, pedimos licença para entrar, olhamos nos olhos de cada um e damos o nosso recado. As pessoas não querem música, querem verdade. E acho que, ao longo dos anos, conseguimos passar a nossa.

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