Discografia

Mimi Rocha: “Pat Metheny foi um turbilhão sobre a cena musical cearense”

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Foto: Chico Gadelha/ Divulgação

Por Dalwton Moura

Em entrevista, o guitarrista, compositor, arranjador e diretor musical Mimi Rocha, um dos mais aplaudidos músicos do Ceará, fala sobre a influência de Pat Metheny sobre a cena musical do Estado, a partir dos anos 1980, destacando os efeitos do trabalho do multi-instrumentista e compositor norte-americano, nos anos pré-Internet. Tempos em que os músicos cearenses se esmeravam para tirar de ouvido os acordes e as melodias de Pat.

No próximo sábado, 20, às 19 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste, pelo projeto Jazz em Cena, Mimi Rocha apresenta a estreia do show Tributo a Pat Metheny, ao lado de Herlon Robson (teclados), Stênio Gonçalves (guitarra), Nélio Costa (contrabaixo) e Denilson Lopes (bateria). Na entrevista, Mimi Rocha compartilha memórias dos tempos em que as fitas K7 ouvidas na estrada e os discos de vinil escutados em casa trouxeram a obra de Pat Metheny em definitivo para a vida e a obra dos nossos músicos. Além de destacar em detalhes por que a musicalidade de Pat é tão especial. Confira:

Dalwton – Como você conheceu o trabalho do Pat Metheny e como isso marcou a sua trajetória como músico?
Mimi – Conheci a obra do Pat Metheny através de um amigo, já falecido, o Márcio, na época do Latim em Pó (grupo cearense dos anos 80). A gente viajava de carro pro Pecém, e ele gravou uma fita K7 do American Garage, disco do Pat (de 1979, segundo álbum do Pat Metheny Group). Na época ficávamos tentando aprender as músicas, nós ainda bem verdes, tocando havia pouco tempo. Isso era por volta de 1983, 84, por aí… E fiquei fascinado porque eu já era fã do fusion, do McLaughlin, Jeff Beck, Chick Corea, mas quando eu ouvi o Pat, com aquela coisa mais melódica e a guitarra limpa, realmente aquilo me pegou. Ou seja, ele juntava a harmonia de rock, do American Garage, com a coisa mais jazzística, umas baladas. E um som de banda, de grupo tocando. Pra mim, esse disco é incrível e ainda é a maior referência do trabalho do Pat. Foi nessa época que eu o conheci.

Dalwton – Qual foi o impacto dele sobre a cena cearense, os músicos cearenses que surgiriam a partir dos anos 1980?
Mimi – Quando o Pat surgiu, com aquele timbre de guitarra com os dois delays e o chorus, um timbre limpo mas bem marcante, foi uma grande influência sobre mim e sobre guitarristas como o Marcos Maia e o Cristiano Pinho. Todo mundo meio que começou a tocar com aquele timbre do Pat. E isso virou Brasil afora. O Ricardo Silveira, Victor Biglione, muitos guitarristas se influenciaram por aquele timbre de guitarra dele e pela forma de improvisação, que juntava o fraseado do bebop com o do fusion e o country. Uma das marcas mais incríveis do Pat é a onda do country também, o fraseado southern, como chamam nos EUA. Muita gente fez músicas pro Pat. O Marcos Maia tem uma música chamada Pro Pat. Eu também fiz um teminha (Baião pra Lyle e Pat). Todo mundo foi influenciado. Mesmo os compositores, como o Rui Vasconcelos, o Nei. Eles compuseram coisas na época com letra e tal, mas influenciada pelo Pat. Aquela música Parque Araxá tem uma harmonia bem parecida com as cosias do Pat. Foi realmente um turbilhão! O Pat virou nosso herói naquela época. Continua até hoje, mas naquela época foi bem forte, realmente

Dalwton – É verdade que você e muitos músicos daquela geração, especialmente guitarristas, passavam horas e horas tirando de ouvido as músicas do Pat, a partir de discos e fitas?
Mimi – É verdade. A gente passava o dia todinho ouvindo o Pat no vinil. Eu tinha umas fitas K7 gravadas em 16 rotações, pra entender o fraseado do Pat. Aqueles cromatismos, interpolações, aquele caminho melódico de repetição… Realmente influenciou muito a gente. O Marcos Maia tirava muita coisa dele, de ouvido também. A gente chegou a tocar na época do Latim em Pó a música Daybreak, instrumental. Que é uma música que até hoje eu toco. Ela é do New Chautauqua o primeiro disco solo do Pat. E a gente já tocava isso aí. Depois começamos a tocar aquela música Last Train Home. Virou tipo um standard. A gente tocava algumas coisas do primeiro disco dele, que tem naquele primeiro Real Book. Na época tudo era mais difícil. Não tinha Internet. E a gente corria atrás de ouvir no vinil mesmo. E alguém quando tirava um acorde passava pro outro. Era isso mesmo. Escutando e tirando de ouvido.

Na falta de um vídeo de Mimi tocando Metheny, segue um tocando Samba Pa Ti, do Santana

Dalwton – Pensando nisso em 2017, mais de 30 anos depois, como a musicalidade do Pat Metheny influenciou o seu trabalho, como guitarrista e compositor?
Mimi – A influência do Pat sobre meu trabalho, no lado composicional, é muito grande. Me identifico muito com o tipo de composição que ele faz, o tipo de conceito que ele coloca nos arranjos, na instrumentação que ele usa. Tanto que no meu disco usei dois teclados, como ele também usa uma massa sonora. A guitarra fazendo uma melodia, mas outros instrumentos fazendo contraponto. Ele usa muito a técnica do contraponto, que não é muito usada no jazz nem no fusion. Geralmente no jazz você tem uma melodia e a harmonia. O Pat não. Ele tem contracantos, convenções, camadas… Isso influenciou muito no meu jeito de tocar. E também a escolha de notas dele, pra acordes maiores, menores e dominantes. Ele preza muito pela beleza da nota. A escolha de nota do Pat também me influencia muito. Ele sempre escolhe a nota bonita. Nunca vai muito pro lado do bebop, que é de escolher as notas mais esquisitas, dissonantes. Mesmo em harmonias simples, ele consegue um colorido nas notas, com as sextas, nonas, décimas-terceiras… Isso influencia muito o meu trabalho. Outra coisa é que ele, mesmo sendo um virtuoso e trabalhando com o jazz e a improvisação, é um cara econômico. Ele sabe como construir um momento no solo, como criar uma atenção no ouvinte, não só jogando notas ao léu, como em alguns estilos, como o bebop, em que às vezes é nota demais. O Pat como diretor musical, como arranjador, é um cara incrível. O Nando Lauria, que gravou no meu disco, me mostrou o tipo de trabalho que o Pat usa, o mecanismo de trabalho dele. Ele deixa uma esquete ali, mas aproveita o talento do músico, confia no músico pra eles resolverem o melhor. Não chegar com tudo escrito e bem definido. Claro que tem as coisas que a gente tem que delinear, mas abre também para o talento de cada um. É algo que eu faço também no meu trabalho.

Dalwton – Em meio a uma obra tão vasta quanto à do Pat, como você está escolhendo o repertório do show do CCBNB, pelo projeto Jazz em Cena?
Dalwton – Eu já toquei muitas músicas do American Garage e algumas de outros discos, como o We Live Here. Toco ainda, inclusive na noite, nas jams, músicas como James, Last Train Home, Minuano… Mas claro que para esse show inédito vou ter que passar por várias fases da carreira dele. Vou me concentrar nessa fase do American Garage e dos primeiros discos do Pat Metheny Group. E aquele disco Secret Story (1992), o segundo disco solo dele, que é uma obra-prima. Então vai ter muita coisa dessa primeira fase dele, que me influenciou muito. American Garage, New Chautauqua e devo incluir o meu Baião pra Lyle e Pat. O repertório deve passar por essas fases, o Pat Metheny Group e o trabalho solo dele, nos primeiros discos.

Dalwton – O que o público pode esperar desta noite?
Mimi – Espero que o público se sinta muito à vontade, com um show super bacana de ouvir, agradável, uma banda super afinada pra gente reproduzir da melhor forma, claro que com a nossa leitura, essa obras-primas do Pat, que talvez hoje seja o maior representante da música instrumental no mundo. O cara mais bem sucedido, com uma carreira incrível, com vários prêmios Grammy, milhares de projetos lançados e sempre estando em turnê. É isso aí. Acho que vamos conseguir fazer uma boa reverência a esse mestre.

Serviço:
Mimi Rocha – Tributo a Pat Metheny
Quando: sábado, 20, às 19 horas
Onde: Centro Cultural BNB (rua Conde D´Eu, 560 – Centro)
Entrada gratuita

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