Discografia

Disco de Daniel Medina, Evoé! é um convite à liberdade

Eis que acabou de perceber que essa matéria não foi publicada aqui no Blog, apenas no caderno Vida&Arte. Reparo agora essa ausência. espero que gostem do texto e do disco.

Foto: Paola Alfamor

“Eu quero a glória dos ladrões, eu quero o erro do herói. Quero fracassos e troféus. Me dê a mão, vamos dançar”. Quem convida é Daniel Medina, cantor, compositor e ator cearense radicado em São Paulo. É da metrópole cinza, com prédios modernos e rio poluído, que ele manda o recado na faixa Anti-Herói, que abre o disco Evoé!. Nesse primeiro trabalho como músico, ele reúne canções de diferentes épocas e texturas, que revelam um espírito único na intenção e plural na expressão.

Evoé! é um resumo dos 10 anos de carreira de Medina. Depois de integrar a banda Manilha Mundial e o coletivo multicultural Cadafalso, o artista de 29 anos foi variando entre trabalhos na música e no teatro. Não raro, essas linguagens se encontravam no palco. “Não consigo dissociar muito o ator do compositor. É uma teatralidade linkada com a performance”, explica ele que, em 2014, lançou uma demo com as canções Lágrima de Índio, Cancioneta e Anti-Herói. O resultado foi melhor que o esperado e, no ano seguinte, veio o single Nós Ao Vivo.

Estas quatro canções que foram revelando o compositor Daniel Medina estão regravadas em Evoé!. O disco sai pelo YB Music – referência da cena independente responsável pelos trabalhos de Laya, Karina Buhr, Siba e outros – e tem produção de Saulo Duarte e Igor Caracas. O convite para lançar pelo selo paulistano surgiu em 2015, quando ele estava em viagem com uma peça de teatro. “Já estava passando da hora”, confessa.

Se o tempo de espera foi longo, o resultado é compensador. Evoé! é uma obra madura, com belezas sutis, sons envolventes, interpretações sinceras. As melodias são ricas em entrelinhas, detalhes a serem explorados. Nas letras, a mensagem explícita é de liberdade. “Apesar dos perigos, nós estamos vivo. Nós ao vivo, inventando moda, nosso mote, nada muda”, avisa na marcha lisérgica Nós Ao Vivo. “Vai à rua! Vai a Roma! Testa as portas, faz a festa”, explode o refrão.

Nem rock, nem MPB, nem nada óbvio, Evoé! traz embutido contradições que se completam. O orgânico contra o eletrônico. O acústico contra o elétrico. Uma viola que remenda enquanto uma guitarra fere e sangra. São sentimentos que vão jorrando em marcha lenta em cada uma das 10 faixas. Santa Ceia, por exemplo, prega sua liberdade no arranjo que vai crescendo em ritmo até chegar num afoxé cheio de atabaques, caxixis e outras percussões. “Deixa que a grandeza desse instante, ante tudo que existe, possa iluminar belezas”, pede a letra pontuada pelo piano elétrico de João Leão. Também é ele quem guia o mantra íntimo Outros Sóis.

Amigos desde que se conheceram no carnaval pernambucano de 2013, Marcelo Jeneci é o convidado para tocar acordeom em Cancioneta.  “Desde o primeiro momento, sempre imaginei essa faixa com um arranjo do Jeneci, com a perspectiva dele. Ela acolhe mais, embala mais”, comenta Daniel que também recebe o cantor Juruviara em Boi-Cidade. A faixa deu nome a um espetáculo baseado na canção popular que eles montaram em 2015. Outro convidado é Gero Camilo, que canta e brinca em Cobra do Contrário.  “Ele sempre permeou muito meu imaginário. Sempre me marcou muito como ator e compositor. Foi muito natural almejar essa singularidade dele”, avalia Daniel que ganhou de Gero o poema Surrealeza, declamado ao final da faixa. “Foi um presente dele. Depois da faixa quase toda gravada, ele mandou o poema por Whatsapp”, lembra.

Evoé! é uma carta de intenções de um compositor que deixou seu trabalho curtir, pegar sabor, ganhar peso com o tempo. “Dentro do ventre das horas mora quem sabe o silêncio. E dentro dele outras notas”. E foi desse silêncio que Daniel Medina colheu as notas que usou para construir um disco sedimentado na sensibilidade e na liberdade.

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