Discografia

Sem Palavras: Timbrando Possibilidades

Por Victor Hugo Santiago

Dentre todos os discos instrumentais lançados entre 2014 e 2015, este me chamou e ainda chama muita atenção. É evidente que eu não poderia deixar de citá-lo aqui. Uma obra prima ornada pelas mãos de Ricardo Herz em duo com Antonio Loureiro. Em setembro de 2015, fui a um workshop de Herz, promovido pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Na ocasião, o perguntei: “Ricardo, dos discos que você disponibiliza para venda, qual você indica?” E ele foi enfático: “Esse que gravei com o Antonio Loureiro. Tenho uma estima especial por ele”. Imediatamente, eu o escolhi e adquiri. Que escolha! Dentre todos, é/era de fato o mais experimental, com linguagens e timbres até então, não convencionais. E foi “to hit the nail on the head” ou seja, na mosca, em cheio. É um trabalho maravilhoso, em que Ricardo Herz faz um duo pra lá de magistral com o compositor e multi-instrumentista Antonio Loureiro. Violino e vibrafone soando juntos num disco ousado e raro no mundo da música.

O ineditismo também seria a arte do encontro, por quê não? O destaque regido por uma sonoridade intimista e impactante, com riqueza de timbres e execução bem apurada. É assim a concepção que norteou este disco, que traz uma narrativa onde se evidenciam composições autorais dos dois. No entanto, “pérolas” instrumentais, tal como: abrindo com “chave de ouro”, a primeira faixa do disco, eles trazem o swingado Baião de Lacan, de Guinga e Aldir Blanc, e Cego Alderaldo, do multi-intrumentista, Egberto Gismonti, fazendo parte deste menu de altíssimo nível. Além disso, esta foi uma das primeiras músicas adaptadas para a formação. Porém, como citado no parágrafo acima, por se tratar de um projeto de instrumentistas-compositores, eles logo foram compondo e arranjando, inserindo-as no trabalho. Além de rearranjar temas já existentes, como Mosquito, Qui nem quiabo (as duas de Antonio Loureiro) e Saci (Ricardo Herz), outras músicas foram surgindo à medida que o duo se desenvolvia, a exemplo de Por cima da barra, composta a quatro mãos. Nesse meio tempo, eles recebem de presente da flautista Léa Freire uma composição escrita especialmente para a dupla, Sambito, para arrematar e dar um toque ainda mais brasileiro ao repertório.

Ricardo Herz tem um violino diferenciado por características nordestinas. Nessa perspectiva, seu violino soa por vezes semelhante a rabeca. Seus trabalhos anteriores traçam uma versatilidade impressionante. Como o seu primeiro CD: Aqui é o meu lá (2012). Herz, é formado em violino pela Universidade de São Paulo, tendo sido integrante da Orquestra Experimental de Repertório e da Orquestra Jazz Sinfônica. Também estudou na Berklee College of Music (EUA) e no Centre des Musiques Didier Lockwood (França). Possui quatro discos lançados.

Antonio Loreiro, toca violão e bateria, além de compositor. Na verdade, ele é daqueles arquitetos musicais que traçam planos hamônicos sob desenhos melódicos como poucos, expressamente intuitivos. Vide nesse trabalho em especial. Loureiro é graduado em percussão na Universidade Federal de Minas Gerais, com especialização em teclados de percussão. Também coleciona em sua vasta experiência musical em trabalhos como: integrante das bandas A Outra Cidade e Ramo, além de ter tocado com nomes como ninguém menos que Toninho Horta e Chico Amaral. Seu trabalho autoral já rendeu dois álbuns solo: Antonio Loureiro (2010) e (2012).

Apesar de ser um disco de mergulhar de cabeça no quesito mais popular, propriamente, ele passeia nitidamente sobre o universo e essência técnica da escola erudita. Outro destaque é que esse CD é de uma qualidade ímpar no que diz respeito à registro sonoro. Selando categoricamente, o álbum foi produzido, captado e mixado por ninguém menos que André Mehmari, pianista, compositor e arranjador fora de série. Mehmari também assina a direção de gravação, captação, mixagem e masterização. Além de músico, apresenta-se como um grande engenheiro de som – e pouca gente sabe disso. Em texto no encarte do álbum, Mehmari escreve que também se surpreendeu com a proposta de unir violino e vibrafone. “Improvável, ousado, novo, inusitado, estranho até”, pensou em um determinado momento, depois de se deliciar com o “mágico amálgama das generosas sonoridades cores resultantes do abraço feliz de dois inspirados artistas, diz.”

O disco foi gravado nos estúdios da Borandá em 2014. Um álbum em duo que nos ganha por tamanha autenticidade. Todavia, quando um disco consegue isso, não se é e nem pode ser diferente, alguém discorda? Não sendo o tipo de parceria que se ouve facilmente por aí, seja no Brasil ou no exterior. Pois trata-se de trabalho autêntico e porque não dizer, atemporal; promovido minunciosamente por esses dois paulistanos. Recomendo. Salve os sons!

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