Discografia

Documentarista Werinton Kermes fala sobre a influência de Clementina de Jesus na MPB

É difícil definir a Clementina de Jesus. Ela era mais que cantora, mais que intérprete, mais que artista. Ela era um símbolo de uma história, de um povo, de uma herança, de uma miscigenação. Ao mesmo tempo em que isso tudo vinha à tona quando ela soltava a voz, era preciso um tempo até absorver tudo. E é esse impacto que Werinton Kermes tenta transmitir no filme Rainha Quelé. Lançado em 2012, o documentário integra a programação da Sessão Sonora deste domingo, 11, no Cineteatro São Luiz. Atual secretário de Cultura de Sorocaba, o jornalista e fotógrafo tem uma larga produção de livros e filmes. Entre os documentários, ele contou sobre a vida bucólica da cidade de Alexandra, no Paraná (no filme A Bicicleta e o Caranguejo, 2012) e sobre o compositor João do Vale. Sobre Clementina, ele não economiza elogios e detalha a importância de valorizar uma mulher tão esquecida na cultura brasileira. Confira.

OPOVO – Qual a importância de falar em Clementina de Jesus nos dias de hoje?
Werinton Kermes – Falar de Clementina é importante em qualquer tempo. Mas neste, ainda mais. Negra, pobre, doméstica, com uma voz rascante e única, diferente de tudo o que havia nas mídias da época, chegou ao palco e aos meios de comunicação depois dos 60 anos. É importante que a imagem de Clementina chegue às novas gerações pelo fato de que ela é uma das referências matriciais da cultura brasileira. Sua música foi um manancial de oralidade e memória de matriz africana no Brasil. Ela nos faz lembrar o quanto somos todos negros. O quanto devemos aos negros.

O POVO – Como e quando surgiu a ideia de fazer esse documentário? E por onde você começou a pesquisa? Que facilidades e que dificuldades teve na produção?
Werinton – A ideia surgiu nos idos de 1980, quando vi Clementina no palco, em minha cidade (Sorocaba, SP). Mas só começamos a materializar a ideia entre 2010 e 2012. O auxílio foi um livro de Herom Coelho, pesquisador, que nos ajudou a sistematizar as informações. As dificuldades foram as de sempre. Falta de patrocínio e  a dificuldade da família entender a necessidade de que estas informações circulem. As facilidades: a receptividade dos entrevistados. O nome de Clementina abriu as portas e muitos artistas se mostraram dispostos a falar sobre ela com amor e encantamento.

O POVO – Seu filme foi feito em 2012 como uma vídeo-reportagem e distribuído em escolas. Como foi a repercussão desse trabalho entre os estudantes?
Werinton – A repercussão desde o primeiro momento tem sido de estupefação, porque quase ninguém a conhece entre os jovens. É um documentário didático, nesse aspecto. E em seguida há o interesse. O filme gerou trabalho de conclusão de curso em jornalismo que depois virou livro. Segue até hoje em mostras, em salas de aula, espaços alternativos. Em geral as pessoas se assustam com a força vocal, a presença de palco, o respeito dos artistas por Clementina, e se perguntam: como eu não a conhecia? Entre os prêmios que o documentário recebeu, estão os da escolha do público, como no festival de Porto Velho, em que nem estávamos concorrendo na mostra oficial. Mas a aceitação do filme pelo público foi tão grande e emocionada que nos deram um reconhecimento do público.

O POVO – Outro filme está sendo lançado, da Ana Rieper, sobre Clementina. Você conhece esse outro filme? O que seu tem de diferente?
Werinton – Não conheço o filme da Ana Rieper. Mas, pela sinopse, é possível ver que o filme de Ana teve apoio da família, pois há um depoimento do neto, Bira. Também não tivemos depoimento de Hermínio Bello, um nome fundamental na descoberta de Clementina. E talvez nosso foco esteja mais nela do que na cultura de Valença e região. A falta de recursos e de patrocínio, o fato da produção ter sido completamente independente também nos impõe limites que talvez sejam menores no filme de Ana.

O POVO – Queria saber sobre a pesquisa que deu origem ao filme. Que fontes você usou? Que entrevistados foram mais relevantes?
Werinton – A fonte foi o livro organizado por Herom Coelho, Clementina de Jesus, que reúne textos de diversos pesquisadores. Depois foram arquivos das TVs , sobretudo a cultura, arquivos de imagem do próprio Herom. Um depoimento fundamental foi o de João Bosco. Além dele, Paulinho da Viola, por terem convivido muito com ela e terem histórias pessoais de reconhecimento, inclusive deles mesmos como músicos. João Bosco afirma que Clementina foi quem o fez olhar para si mesmo e se reconhecer como brasileiro.

O POVO – Se a gente for falar de herança artística de Clementina de Jesus, você vê algum outro artista que deu continuidade ao que ele fez? É possível falar de influências que ela deixou para a música brasileira?
Werinton – Não existe nenhuma outra voz, nada que se compare à Clementina. O João Bosco talvez seja um exemplo ainda presente, nas vocalizações que realiza. Elza Soares, com outra voz e outro comportamento, talvez tenha um quê de Clementina. Mas há Clementinas por aí, lavando roupa e cantando. Há Clementinas nos palcos e nas ruas de Fortaleza. Há muitas. Apenas não veem à luz porque não há interesse das mídias. Clementina é uma voz popular. Está nos terreiros de candomblé, no jongo, nas rodas de partido alto. A cultura popular resiste. Apenas não é vista pelos meios de comunicação. Por isso se vê a sua fortaleza. Ela resiste apesar do descaso, da fome, da falta de recursos e apoio, até mesmo apesar da falta de reconhecimento e inclusive perseguição. É uma cultura de gente brava, forte, que  sobrevive apesar de tudo.

O POVO – É possível dizer que Clementina não era uma artista de fácil assimilação. O primeiro contato com sua arte pode causar uma estranheza, até que se entenda todos os elementos que estão ali envolvidos. Você lembra como foi a primeira vez em que teve contato com a obra dele?
Werinton – Foi na década de 1970. Houve um show em Sorocaba. O público não apareceu porque choveu muito, muito mesmo. Ela veio ao palco, magnífica. Cantou para meia dúzia de pessoas encantadas com aquela presença. Era de se estranhar, mas havia uma quê de sagrado, por ser uma senhora, negra, quase uma entidade. Além da voz, havia nela segurança, autoridade, sacralidade. Como uma rainha, uma deusa. O arquétipo da mãe, a mãe de todos.

O POVO – Qual era o ponto forte de sua arte?
Werinton – A raiz. Isso transbordava dela. E todos os entrevistados falam o mesmo. No palco ela crescia e era a própria África no Brasil.

O POVO – Você também tem um filme sobre o João do Vale. Que semelhanças e diferenças existem entre esses dois personagens, o João e a Clementina?
Werinton – Os dois negros, pobres. Os dois com nenhuma escolaridade. Os dois com enorme reconhecimento dos artistas consagrados. A diferença talvez esteja na obstinação de João que quis ser artista e foi atrás disso, se mudou para o Rio de Janeiro e vendeu suas composições para se tornar conhecido. Clementina nunca buscou ser artista. Aconteceu…

O POVO – Apesar de ser uma gigante, pouco se fala em Clementina de Jesus hoje. Que memória existe dela para as novas gerações? Existem museus, livros, ruas, praças, homenagens a ela?
Werinton – Há muitas ruas no Brasil chamadas Clementina de Jesus. Mas, sobre a obra, o que há é um vazio. Um silêncio. Quantos daqueles que moram em uma rua com esse nome sabem quem foi Clementina? Se fosse possível dar um presente à Quelé, o mais relevante, mais do que uma caixa com discografia, um museu ou um novo documentário, o melhor presente seria o do reconhecimento de nossas raízes. Todos somos negros no Brasil. Ou no sangue, ou na cultura. Esse reconhecimento seria fundamental. Mas com ele, a instituição da voz de Quelé, de sua obra, como patrimônio imaterial brasileiro. A obra de alguém tão importante e definitivo, um símbolo maior de nossa condição mestiça, não poderia ficar refém do desejo e do juízo dos herdeiros. Ela é um patrimônio brasileiro. E nem sempre os descendentes têm essa consciência.

O POVO – No ano passado, marcou-se 30 anos da morte de Clementina. Se você pudesse dar a ela um presente, o que daria?
Werinton – Clementina é remanescente de quilombo. Seria um presente se tantos quilombolas não fossem assassinados no Brasil todos os anos.

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