Discografia

Irmãos Aniceto, Carlos Malta e Marimbanda se reúnem para gravar DVD

Fotos: Lino Fly/ Divulgação

Por Bruna Forte (jornalista)

Entre os dedos ágeis e precisos dos filhos, netos e até bisnetos de José Lourenço da Silva – conhecido no “Cratinho de Açúcar”, ainda nos idos do século XIX, como “Véi Anicete” -, a madeira de timbaúva e o bambu de taboca originam pífanos, zabumbas e caixas. Descendentes dos índios Kariri, os integrantes da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto carregam nas mãos a história viva do Ceará há mais de 200 anos. A rica e singular tradição musical do grupo que produz seus próprios instrumentos, partilhada de geração em geração, é celebrada no espetáculo Epifania Kariri hoje, 25. O palco do Theatro José de Alencar recebe o encontro entre a ancestralidade oral dos cabaçais, o grupo instrumental Marimbanda e o musicista carioca Carlos Malta para a gravação do DVD do projeto.

 Em seu traje azul-celeste e sandálias de couro, Adriano Pereira da Silva é o encarregado de reger a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto e continuar o legado de seu pai: Mestre Antônio. No ritmo da zabumba que toca desde menino, Adriano mantém o passo matreiro que simula o andar da onça e dança nas apresentações quase ritualísticas do grupo familiar. Ao lado de José Vicente, Jeová e José dos Santos e Cícero Pereira, Adriano integra a quarta geração de cabaçais do Cariri – já perpetuada pela quinta, a banda mirim. “A gente tá muito alegre, é um prazer muito grande participar do Epifania Kariri. Quero convidar a todos, o show é maravilhoso”, garante.

Com quase 40 anos de carreira musical, Carlos Malta não poderia concordar mais. O “Escultor do Vento”, como é conhecido o multinstrumentista, acredita que a tradição cabaçal é de uma força imensurável. “A essência artística dos Irmãos Aniceto transforma a coisa mais simples em um espetáculo delicioso de se ver. O espetáculo é como uma sanfona, diminui e aumenta o ritmo. A gente tá vendo uma renovação nessa arte”, defende. O carioca não esconde sua paixão pela tradição nordestina: em 1994, criou a banda Pife Muderno – “assim mesmo, com ‘u’, que nem se fala no interior” – com instrumentistas como Marcos Suzano e Andrea Ernest Dias. Malta toca flautim, flauta, pífano, flauta baixo, flautas indígenas, clarinete, clarone, saxofone e já acompanhou Gilberto Gil e Hermeto Pascoal nos palcos, mas é no som do sertão que encontra sua casa. “Esses tocadores de pífano são heróis, eu nunca duvidei da força da música brasileira. O que a gente fez foi emprestar algum tipo de leitura nossa ao repertório dos Irmãos Aniceto, que é a espinha dorsal do espetáculo”, complementa.

 

“O pífano (ou pífaro, ou pife) é uma flauta transversal rústica. Pode-se dizer que ele é parecido com a flauta da Renascença europeia, mas a gente encontra esse instrumento em diversas culturas. Tem gente que diz que vem dos árabes, dos africanos, dos europeu, dos índios… É impossível precisar, mas agente encontra pífano na Índia, no Japão, na Bulgária, nos Andes, no Peru, na Bolívia. É uma coisa que faz parte da humanidade mesmo, acompanha esse fluxo primordial com sua simplicidade”, elucida o professor do Bacharelado em Flauta da Uece e integrante da Marimbanda, Heriberto Porto. Completando 20 anos de aclamada atuação em 2019, a Marimbanda é formada por Luizinho Duarte (bateria), Miqueias dos Santos (contrabaixo), Thiago Almeida (piano) e Heriberto nas flautas. “Como o pífano representa essa ancestralidade da flauta, os Irmãos Aniceto são a raiz muito forte da música brasileira.  A gente espera que não seja o último show e que a gente consiga produzir mais com essa banda”, defende. Apoiado pelo Rumos Itaú Cultural (2017-2018),o show conta com 12 números musicais, dos quais oito são de autoria dos Irmãos Aniceto, com arranjos de Malta e da Marimbanda. O espetáculo já percorreu Crato, Nova Olinda e o Rio de Janeiro.

Epifania Kariri
Quando: sexta, 25, às 19h30min
Onde: Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525, Centro)
Quanto: Gratuito e sujeito à lotação. Retirada de ingressos no local a partir das 14 horas

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