Discografia

Baterista Robertinho Marçal traça autorretrato percussivo em disco de estreia

“Uma coisa que eu tenho certeza do meu disco, ele é muito claro. Está muito clara a mensagem”. A afirmação é do baterista Robertinho Marçal, músico há 26 anos, cinco deles ao lado de Raimundo Fagner. Os primeiros passos no instrumento vieram quando ele tinha 3 anos e, desde então, ele não ganhando a vida de outro forma que não seja atrás da sua bateria. Ou melhor, ele já se imaginou largando a música e indo atrás de alguma coisa “nada a ver”, como uma loja de açaí. Foi uma crise que veio quando Robertinho começou a arquitetar o primeiro disco solo.

A solução veio quando o pianista Thiago Almeida, um mestre da música e da paciência, se ofereceu pra produzir esse rebento. O disco é um grande exercício que Robertinho se impôs de criar uma obra moldada tal qual sua personalidade. Não por acaso, o disco é batizado apenas com seu nome e traz uma bela ilustração na capa (assinada por Johnny Cardoso, cearense radicado em Buenos Aires) que mostra uma espécie de super-herói urbano, armado de baquetas, caminhando seguro por uma espécie de mundo distópico.

Dois motivos o levaram a assinar um disco próprio. Primeiro: “eu trabalho acompanhando muitos artistas. É uma coisa que eu amo, que eu sempre quis fazer. Mas eu sempre fiquei questionando: mas quem quiser saber quem realmente sou eu? Por que quando você está acompanhando um artista é o trabalho dele, mesmo você colocando a sua identidade”, explica ele que, há cinco anos é baterista da banda de Fagner. “Então, quando estava próximo da minha filha nascer, eu fiquei muito com essa sensação de querer deixar uma coisa pra ela pra ela saber que isso sou eu”. E o segundo motivo: “Foi um momento particular de descobrimento da minha identidade, que eu fiquei tipo ‘agora eu acho que entendo como é que eu gosto de me vestir, de falar, a minha personalidade, como eu gosto de me colocar no instrumento. Então acho que está na hora de eu mostrar um trabalho pras pessoas entenderem mais qual é a minha cara”.

Aí o próximo passo foi escolher o repertório. Nas nove faixas do disco, Robertinho Marçal interpreta composições de Marcus Vinnie, Ednar Pinho, Cristiano Pinho, Miqueias dos Santos e outros. “Nenhuma música é minha, mas é impressionante como parece que são. Porque elas foram customizadas, foram feitas para mim. Não tenho muito essa veia de compor. Eu tenho mais a coisa de produzir”, explica ele que vem de uma família com fortes laços musicais e agradece ao pai por ter lhe apresentado ao rock progressivo e a nomes como Beatles, Genesis e Pink Floyd.

Reunindo essas e outras influências, o disco foi ganhando forma e revelando os segredos da vida particular de Robertinho. Como a claustrofóbica Salmo 30:5 (“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”), que fala sobre a dele contra a ansiedade. “Já tive muitas noites de muita angústia. Então o (Marcus) Vinnie fez uma trilha bem angustiante, e na sequencia vem a música do Luizinho Duarte, que é Manhã”. Já com o dia claro, vem Valente, composição de Cainã Cavalcante, feita em homenagem à filha do baterista, a Valentina. A propósito, RBV, nome da faixa que encerra o disco, é uma sigla para “Robervivo”, apelido que Miqueias dos Santos deu para Robertinho por ele ser o único do seu hall de amigos a ter um celular da Vivo.

Voltando à clareza da mensagem, Robertinho Marçal compreende que música é linguagem e que a percussão tem um papel central nessa comunicação. Ele explica isso a partir de uma série argumentos históricos que vão de tribos antigas a desfiles militares. “Mesmo que não haja uma melodia, eu acredito sim que a percussão tem um poder muito forte na hora que a gente toca e isso comunica algo para as pessoas. Meu disco não tem nenhuma música que é só bateria, mas a forma como a gente se colocou, como eu me coloquei, como as músicas me deram permissão, você percebe que a bateria está contando uma história”, defende ele também apontando que não está em busca de uma perfeição matemática nem muito menos de exibir velocidade com o instrumento. “Se é só pra não sair do tempo, é melhor usar a máquina. A beleza está na imperfeição e na incapacidade que eu tenho de comunicar um sentimento que a máquina não pode e nunca vai poder, porque isso é inerente à imperfeição do ser humano”. Está claro?

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