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Notas sobre o Carnaval 2020

Pela primeira vez em 20 anos, abri mão de passar meu Carnaval em Guaramiranga. Tirando a primeira edição, quando eu nem sabia da existência do Festival de Jazz & Blues, subi a serra anualmente nas últimas duas décadas, nem que fosse para curtir uma noite só. No entanto, uma série de compromissos me fizeram mudar a agenda desse ano e ficar por Fortaleza.

Mas é bem verdade que isso não foi problema. Muito pelo contrário. Carnaval em Fortaleza é bom pra descansar se você quiser ficar em casa e se sua rua não for fechada por nenhum bloco. Se este não for o saco, a programação da Cidade é bastante rica e diversificada. Tem eventos – pagos e gratuitos – de rock, axé music, MPB, jazz, marchinhas e muito mais. Seguem algumas impressões apressadas:

1. Cocoricó Festival – Como se não bastasse ser um dos bares/restaurantes mais interessantes de se frequentar em Fortaleza, o Cantinho do Frango ainda inventa de ter uma programação musical que é espetacular. No Carnaval, um festival de música boa (sem rótulos mesmo) segura o público já habitual e agrega alguns novatos. A propósito, segundo um dos responsáveis pelo evento, é para ler como “Cocoricó Festival”, em bom e heroico português. Nada de “féstval”.

2. Fausto Nilo e Rodger Rogério – Encontro muito esperado da programação do Cocoricó Festival, a dupla de compositores cearenses se apresentou no fim da tarde do sábado, 22. Quem esperava ver os dois juntos, trocando repertórios, contando histórias, se decepcionou. Juntos mesmo, foram duas músicas. Mas, quem esperava só ouvir duas referências da nossa música, saiu bem satisfeito.

3. Fausto Nilo, acompanhado do pianista (magistral) Thiago Almeida, fez um setlist de canções menos conhecidas. Também abriu mão das canções de Carnaval. Mas nenhum problema, a seleção final foi suficiente (Romance do Deserto foi uma surpresa massa). Além disso, sendo um intérprete raro, a presença de Fausto Nilo se basta e é suficiente para justificar a saída de casa.

4. Rodger Rogério é intérprete raro, de voz forte, timbre áspero, sentimento cortante. Acompanhado de banda completa (baixo, bateria, guitarra e teclado), ele desfilou canções do próprio repertório e fez homenagem a Belchior. Belíssimo. Eu fui convidado, em cima da hora, para apresentar o show de Rodger, o que foi um honra. Aproveitei para ratificar a reinvenção de um artista que deixou muitas oportunidades passarem na vida por conta da timidez. Se é tímido hoje, Rodger disfarça muito bem. E o show foi mais impactante que uma retroescavadeira invadindo um quartel.

5. No domingo, o Cantinho do Frango foi mais elegante. Começou com o saxofonista Márcio Resende e o show Monk. Apesar do nome, a homenagem ao pianista Thelonious Monk foi só um pedaço do show que teve muita canção autoral. E foi ótimo, por que essa mistura só mostrou a qualidade do repertório de Márcio. Como convidado especial, ele teve ninguém menos que Toninho Horta. Acha pouco?

6. Depois de Márcio Resende, teve Jorge Helder fazendo homenagem a Tom Jobim. Toninho Horta, que estava “bem baratinho” ao longo do Carnaval, voltou a dar canja no show do baixista cearense. Jorge cantou e rearranjou clássicos do mestre com uma liberdade estilística bem curiosa. Surpreendeu que esperava uma fileira de bossa novas (o que já seria ótimo). Sem ter vozeirão de intérprete, Jorge deu convicção à própria voz e pode seguir cantando enquanto bem quiser.

7. Na Praia de Iracema teve Gilberto Gil. Pronto. Precisa dizer mais alguma coisa? Tá, ele cantou Punk da Periferia. Mais? O público ficou gritando “isso é que é ministro”. Pra quem achava que o baiano ia desacelerar depois dos problemas de saúde que passou, esqueça. Gil segue com muita lenha pra queimar, além de ter um repertório precioso de sambas, reggaes, forrós, pops e mais um monte de coisa. Em Fortaleza, teve ainda Aquele abraço, Esperando na Janela, homenagem a Bob Marley e muito mais.

8. No Cinema do Dragão, o filme Inaudito traça um retrato caótico do guitarrista Lanny Gordin. Figura central do som tropicalista, o músico nascido em Xangai vive em função do que toca e dos fantasmas que habitam sua cabeça. Sem linearidade, sem muitos depoimentos, sem muitas histórias, Inaudito é tão louco quanto seu homenageado. Vale assistir, mas não ache que vai conhecer Lanny com o filme. Compreenda a fita como uma homenagem à altura.

9. Não fui a Guaramiranga, mas vi parte da programação do Festival de Jazz&Blues em Fortaleza. No Cineteatro São Luiz, Zélia Duncan e Jaques Morelembaum retomaram a parceria especialmente para participar do festival. O show Invento+, só com músicas do repertório de Milton Nascimento, é de uma delicadeza que só dois grandes intérpretes poderiam encarar. Só voz e cello, e uma infinidade de versos e notas cheios de beleza. O microfone de Zélia falhou muitas vezes ao longo do show inteiro, mas ela foi tirando de letra com a segurança que não lhe falta.

10. Encerrando a semana de Carnaval (?!), o Theatro José de Alencar recebeu no último sábado, 29, a parceria inédita de Felipe Cazaux e Cristiano Pinho. Dois dos mais afiados guitarristas do Ceará, eles fizeram uma seleção precisa de canções próprias e de nomes como Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo Carlos. Um show desses mostra a qualidade da música que se faz hoje no Ceará, isso pra quem ainda tem dúvida. Entre peças instrumentais e outras cantadas (por Cazaux), eles foram mostrando que têm linguagens e características bem diferentes, mas que se combinavam com perfeição. Espero que este show se repita em breve.

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