Discografia

Moraes Moreira e seu tambor de todos os ritmos

A primeira lembrança que tenho de Moraes Moreira na minha vida é na casa em que morei, na rua Gustavo Sampaio. Foi ali que, quando eu mal fazia sombra, já aprendi a por pra tocar ininterruptamente os lados A e B do disco Bazar Brasileiro. Na coleção tinha também o disco de 1981, que eu pouco lembro de algo além da capa – e olha que nele está, vi bem depois, Bateu no Paladar, uma das minhas canções favoritas. Mas era aquele, de 1981, que mal saia do prato do CCE 3 em 1 que reinava na sala. Mal sabia eu que foi o Bazar Brasileiro quem me apresentou ao compositor Fausto Nilo.

Nas vezes que encontrei Moraes ou falei com ele por telefone, já como jornalista, fugia da ideia de dizer o quanto aquele repertório era importante pra mim. Buscava aquela isenção jornalística tão almejada e que tantas vezes depois furei ao encontrar ídolos. E Moraes então, depois da descoberta dos Novos Baianos, ocupou um patamar de bastante destaque nesse panteão.

Neste Bazar Brasileiro, Moraes Moreira já revelava sua preocupação com o que deixaria de legado para as futuras gerações. Na letra de Meninos do Brasil, parceria com Abel Silva em que cita seu filho Davi Moraes e outros filhos que viriam a ser famosos, como Moreno Veloso e Pedro Baby, (quem são os outros?) ele já assumia que levava fé nessa turma, mesmo que pra ele não desse mais pé. “Lá pelo ano 2000, eu quero estar na pele, nos olhos e nos sonhos dos meninos do Brasil”, explodia a voz no refrão daquele blues.

Ainda do mesmo disco, Lenda do Pégaso, parceria com Jorge Mautner é outra obra prima. Uma canção infantil, com um pé na mitologia, cheia de imagens graciosas, coloridas e aquela voz no talo, cantando alto, que misturava com os violões (do próprio Moraes e de Robertinho do Recife) e com o violino saltitante de Mautner.

Entre uma mudança e outra de endereço, em algum ponto em que achei que LPs eram coisa do passado, esse Bazar Brasileiro deixou de existir na minha casa. Anos depois o reencontrei em sebo de Guaramiranga e ele voltou pra perto. Mas aí eu já sabia quem era Moraes, quem foram os Novos Baianos e já havia decorado cada nota do Acústico MTV lançado em 1995 – um dos melhores da série, lançado quando o despojamento ainda tinha seu papel.

Moraes Moreira morreu na manhã desta segunda, 13, no Rio de Janeiro, onde morava. Aos 72 anos, sofreu um infarto agudo no miocárdio enquanto dormia. A comoção foi tanta que tomou espaço na timeline com as últimas notícias do coronavirus. De repente, o Brasil relembrou a força da máquina de ritmo que o baiano de Ituaçu, capaz de fazer pop music com todas as tradições brasileiras, do cordel ao repente. No peito do baiano tinha um tambor, seu cérebro era um afoxé e seus dedos se estendiam em cordas de um violão. E assim ele foi todo música.

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