Discografia

Coluna Mimi Rocha 6: O inoxidável Chico Pio

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Francisco Pio Napoleão mais conhecido como o “Inoxidável Chico Pio” nasceu no delta do Parnaíba em março de 1953, que ele define como “terra do caranguejo, camarão e mulher bonita”. Morava ao lado da rádio Difusora e, já aos três anos de idade, fugia de casa para assistir os programas de auditório onde passaram Waldick Soriano, que ele diz ter visto fazendo a barba no camarim, Anísio Silva entre outros. Lá pelos nove anos, pegou pela primeira vez numa guitarra Fender (marca famosa americana) e já arranhou os acordes de Vivo Só, dos Renato e seus Blue Caps. Nessa época os freis na igreja cantando em coral foram uma grande influência barroca segundo conta ele.

Aos 12 anos veio pra Fortaleza e foi morar ao lado da casa do grande violonista Aleardo Freitas (pai de seu futuro parceiro Alano Freitas) e todo dia ia pescar as técnicas vendo o mestre das cordas tocar. Nessa época, inicia amizade com o compositor Stelio Vale que o apresentou à turma que começava a se reunir na Beira-mar, no famoso Bar do Anísio. Entre eles, os hoje ícones Augusto Pontes, Fausto Nilo, Ricardo Bezerra, Cláudio Pereira, entre outros.

Chico reclama que era meio deixado de lado por ser também muito jovem, mas já arriscava tocar as primeiras  composições pra turma. Em 1974 faz a primeira viagem ao Rio de Janeiro, fica em casa de parentes e arranja namoradas entre Ipanema e Barra, sempre circulando por bares, teatro, shows e peladas de futebol.

Vence o 1º Festival música da PUC com a canção Alvorecendo, se apresenta em shows, em calouradas e teatros universitários, alguns em parceria com os também recém chegados Belchior, Ednardo e Fagner. Ele cita o grande acolhimento que teve de Fagner e Cirino na época, chegando a passar uma temporada no apto deles no Flamengo.

Fagner o apresentou a muitos artistas de destaque como Gonzaguinha, Luís Melodia, Amelinha, Zé Ramalho, Vinicius de Morais e Nara leão. A convite de Ednardo e Augusto Pontes, Chico Pio volta a Fortaleza para participar da Massafeira onde chegou a gravar duas composições suas: O que foi que você viu, parceria com Stelio e Nertan Alencar, e Água, com Stelio e Fausto Nilo.

O disco foi gravado no Rio e Chico aproveitou a carona para mais uma temporada que se estendeu até São Paulo.

De volta a Fortaleza, fez o famoso show no Teatro da Emcetur onde, ao final, ele foi ao guichê e pegou todo o “apurado”. Aí, o produtor Francis Vale comentou que Chico foi o único artista a dar um “balão” no empresário.

Conhecido pela generosidade e cuidado com os amigos, ele tem mais de 50 parceiros (ele faz a música após receber a letra), incluindo os já citados Fausto Nilo, Stelio Valle, Augusto Pontes, o grande poeta Soares Brandão – que teve a canção deles Na subida da montanha gravada ao vivo por Ednardo -, e tantos outros que lhe passam uma letra e esperam ansiosos a melodia que Chico prontamente finaliza:

– “Meu nome é resultado paizim”, afirma ele com um sorriso.

Chico tem mais de uma centena de músicas concluídas e outras a concluir. “Para não pensarem que eu sou o Fagner”, comenta.

Gravou nos anos 1990 os discos:

  • Chico Pio (1995), hoje disputado entre colecionadores que pagam até $400 em leilões. Destaco as canções O amor e o defeito (Chico/ Brandão ) e O Dado (Chico/ Eugênio Leandro)
  • Marca Carmim (1997), com parcerias com Luciano Cléver, do qual destaco Bill Motor e Vigília.
  • Beira do Mundo (1999), com a já clássica Solitudine (Chico/ Totonho Laprovitera) e Aquarela Japonesa (Chico/ Fausto Nilo)

O anedotário de causos em torna dessa figura tão querida é extenso e me permitam contar alguns…

Um dia na piscina do Iate clube, ao ser perguntado se estava tudo bem, ele disparou: “se até o Roberto Carlos tira férias eu também posso?”.

Uma vez contratado para tocar num bar, o Lúdico Bar, de Carlinhos Papai, chegou perguntando pelo cabo do violão. Se dizendo profissional: “só toco onde tem equipamento…”

Outra vez, Evaldo Gouveia ao vê-lo tocar, gostou das músicas e veio conversar. Na época, Evaldo morava no Sudeste e circulava nas gravadoras. Evaldo foi perguntar ao colega compositor: “o que é que eu posso fazer pra te ajudar?”. Ao que Chico prontamente respondeu: “Ô Evaldo, me dá uma carona até a Rui Barbosa, por favor”.

A facilidade de Chico pra compor também é exaltada pelo primo e parceiro Caio Napoleão, proprietário do Cantinho do Frango:

– Parece fácil, como quando vejo as jogadas de um Rivelino ou Pelé…

O parceiro Totonho Laprovítera dispara sobre Chico em verso e prosa:

– Desse virtuoso compositor, hoje eu digo que ele é a sua própria arte. Quando abraça o violão, solta seu vozeirão, faz manar as mais variadas canções e dá até a impressão de ser fácil a faculdade de compor. Aprumado, se eleva aos sons, qual fera a cuidar do seu rebento. Todavia, simples e manso em seu ofício, constrói e desperta sentimentos!

O estilo de violão dele também é único. Une o suingue de Jorge Ben com a pegada rockeira de Keith Richards. Caio reclama que nunca ouviu o violão de Chico registrado nos seu discos. Concordo com ele, seria algo que daria mais caráter ao arranjo das músicas.

Conheci o Chico quando eu tinha uns 15 anos e já virei fã. Ele circulava em bares da época como o Flor da Pele, ali próximo à Praça Portugal, e já mostrava seu estilo e personalidade marcantes. Pouco depois, gravei com ele uma fita demo num estúdio caseiro e, de lá pra cá, nunca mais deixei de acompanhá-lo, seja em shows ou gravações. Tenho muito material inédito dele aqui no estúdio. O considero um dos maiores compositores nordestinos. Na obra dele tem de tudo, baião, forró, xote, balada, rock, salsa, flamenco, hip hop, e por aí vai.

Chico teve uma música gravada por Zé Ramalho chamada Forrobodó e por ela da pra ter um noção da bagagem melódica e harmônica dele.

Destaco também a canção Solitudine (Chico/ Totonho) que cairia como uma luva na voz de Fagner (uma pena que este nunca gravou nada do Chico) e o rock reggae Sorvete (Chico/ Stelio/ Alano Freitas)  na interpretação de Lúcio Ricardo. Essa poderia ter sido um hit de qualquer banda de rock dos anos 1980.

Ao lhe perguntar sobre como se define hoje e como será o nome do próximo disco, Chico me profetizou: “sou grato pelo Pio e caridade do senhor Deus, meu próximo disco se chamará “Vem comigo que eu te mostro a felicidade”.

Esse é o parceiro inox Chico Pio, vamos com ele.

Mimi Rocha é músico e produtor. Ele escreve nesse espaço quinzenalmente

4 Comentários

  • Eugênio Coutinho disse:

    Grande Chico Pio! Parceiro de qualidade e amigo de todas as horas.
    Vida longa e fértil !

  • Cicera disse:

    Sempre muito”educativa” e divertida sua coluna Mimi, eu leio uma e já fico esperando a outra. Parabéns e Obrigada.

  • Francisco Farias disse:

    O inoxidável Chico Pio
    Essa figura impar do nosso cancioneiro, homem simples e de sorriso fácil, amigo dos amigos e amante da boa música, uma pessoa divertida e alegre, que encanta com seu canto simples mas que, algumas de suas composições nos toca a alma com tanta poesia derramada nos versos harmoniosos em que compõe.
    Mais um belo trabalho de Mimi Rocha sobre esse grande talento que temos!
    Fco. Farias

  • Mimi R disse:

    Obrigado Eugenio, Cicera e Farias pelas palavras.

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