Discografia

“Eclética, para mim, significa cantar o que gosto”, comenta Nina Ximenes

Foto: Zé Rubens Moldero/ Divulgação

Cearense radicada em São Paulo desde a infância, Nina Ximenes faz música para shows, teatros e publicidade. Fazendo música, é o que importa para ela. E essa música vem de várias fontes, como o pop, o clássico, o rock, o jazz. Daí a expressão “cantora eclética” ter se tornado uma constante quando se fala no seu trabalho. Nos anos 1990, ser eclética era uma regra fundamental para quem surgia. Assim ficaram conhecidos os repertórios de nomes como Ana Carolina, Marisa Monte, Cássia Eller. Nina não assume esse legado. “Não me comparo a nenhuma cantora dessa geração dos anos 1990, pois acho que cada uma de nós tem uma característica bem marcante no jeito de cantar e na seleção do repertório”.

Ainda assim, o disco de estreia “oficial” de Nina Ximenes aponta para tantos cantos da música popular que não pode ser chamado de outra coisa se não eclético. Abrindo com Tom Jobim e fechando com Black Sabbath, o disco Natural, lançado pelo Kuarup, coloca a voz sussurrada e sem excessos dela cantando forró, balada, dance music e bossa nova. Além das vozes de Toquinho e Jane Duboc, o disco ainda conta comparticipações de Oswaldinho do Acordeom e do percussionista Papete. Nina se inciou na vida artística ainda adolescente, com 15 anos. Daí em diante, venceu como melhor intérprete o Festival do Colégio COC, participou do 8° Prêmio Visa de Música Brasileira e cantou em bares de Barcelona, onde morou uma época. A seguir, ela conta sua história e fala sobre suas influências.

DISCOGRAFIA – O termo “eclético” virou um rótulo muito usado para uma geração de cantoras surgida nos anos 1990. Gente como Ana Carolina, Marisa Monte, Cássia Eller, etc. Sendo apontada agora como uma cantora “eclética”, em que você se assemelha e em que você se diferencia dessa geração?
Nina Ximenes – O termo “eclética”, para mim, significa cantar o que gosto, independentemente do estilo musical. Não me comparo a nenhuma cantora dessa geração dos anos 1990, pois acho que cada uma de nós tem uma característica bem marcante no jeito de cantar e na seleção do repertório. Acho que também estou deixando a minha marca pessoal, através do timbre da minha voz e de seu “vento” natural.

DISCOGRAFIA – Onde começa sua história com música?
Nina Ximenes – Tudo começou, oficialmente, aos 15 anos, em 1979, quando a mãe de uma amiga minha, que era professora de música, me disse que eu cantava bem. Até então, achava que eu era mais uma garota que gostava de tocar violão e cantar em festinhas de amigos. Essa pessoa acabou me levando para cantar em um palco de verdade, no SESC de Ribeirão Preto (onde eu morava na época), e daí por diante comecei a pensar numa carreira profissional. Nessa época, também, fazia parte de um grupo de amigos que gostava de música e se reunia para se divertir, tocando e cantando juntos. E uma composição de um dos integrantes desse grupo foi selecionada para um conhecido festival de música da cidade, no qual acabei ganhando o prêmio de revelação. E foi assim que tudo começou.

DISCOGRAFIA – Além do trabalho solo, você integra o trio Xiambê. Queria que você me falasse desse projeto.
Nina Ximenes – O nome Xiambê é uma invenção minha; ele vem da junção das iniciais dos sobrenomes de cada um: Ximenes (Nina), Amorosino (Wagner) e Bernardo (Marco). Nós três nos conhecemos há muitos anos, mas a partir de 2011, resolvemos cantar juntos e montar um repertório exclusivo para o trio. Priorizamos o trabalho vocal, com arranjos feitos pelo Marco Bernardo, e estamos preparando um álbum dedicado a Tom Jobim, que chamamos de “Nosso Tom”. São três vozes, acompanhadas por piano (Marco) e violão (Wagner).

DISCOGRAFIA – Seu disco começa com Tom Jobim (Insensatez) e termina com Black Sabbath (Changes). O que essas duas canções têm de semelhantes, apesar de estarem em pontos opostos no seu disco?
Nina Ximenes – O ponto comum entre essas duas canções, na minha opinião, é o tema da letra, que fala de amores perdidos, de uma forma ou de outra. Além disso, destaca-se o tom romântico e suave de ambas as músicas.

DISCOGRAFIA – Num disco tão plural em repertório, o que une essas 15 canções? Você consegue traçar um fio que una tantas influências?
Nina Ximenes – O que une todas essas canções tão diferentes é a intenção que dou a elas com meu jeito de cantar. Dizem, inclusive, que minha voz é que cria uma unidade a esse repertório tão diverso. E concordo com isso. Gosto de cantar as músicas que me tocam o coração. Então, posso dizer, também, que o que as une é o meu coração. Amo a música brasileira, que é muito diversificada, rica em qualidade e criatividade, um dom do nosso povo, mas não quero ignorar os trabalhos musicais de outros países, que são lindos também. Por isso, além das brasileiras, canto músicas em outros idiomas, o que torna meu repertório mais amplo.

DISCOGRAFIA – No disco “Natural”, você apresenta apenas uma canção própria, “Wind and wings”. Como tem sido seu trabalho de compositora? Compor é algo fácil pra você? Pretende gravar mais composições próprias?
Nina Ximenes – Eu sempre compus, desde os 15 anos, e acho relativamente fácil compor. Sigo minha intuição quando penso numa melodia e numa letra, às vezes inspiradas em pessoas e sentimentos próprios. Sou integrante de outro trio, Triskelion, cujas músicas, em estilo new age, são composições minhas, com arranjos de um dos integrantes, Roberto Gava, e solos de violino de meu irmão, Alex Braga. Faço também músicas sob encomenda. Inclusive, em janeiro deste ano, meu presente de casamento para uma prima de Fortaleza foi um xote, especialmente feito para os noivos, contando, na letra, como se conheceram. Recentemente, fiz uma música em parceria com o publicitário e jornalista Carlos Castelo, “Amor de guardar”, que será lançada como single pela Kuarup, na sexta-feira, dia 28 de agosto.

DISCOGRAFIA – Seu disco tem uma longa história que começa em 2001 e só agora foi lançado. Por que tanto tempo?
Nina Ximenes – Algumas músicas desse álbum foram, de fato, gravadas em 2001, pois elas fariam parte de um projeto na Espanha. Porém, esse trabalho acabou não acontecendo, e não lancei essas canções na ocasião. Agora, com o convite da Kuarup, resolvi aproveitá-las, pois as gravei com grandes músicos brasileiros, como Omar Izar e Oswaldinho do Acordeon, entre outras “feras”, como meu irmão, Alex Braga, violinista da Jazz Sinfônica. Esse foi o ponto de partida do álbum “Natural”, que complementei com outras músicas e participações especiais de Toquinho, Jane Duboc e Silvia Goes, além do Marco Bernardo, que também canta comigo nesse CD.

DISCOGRAFIA – Como surgiu essa parceria com a Kuarup para lançar o primeiro disco e qual a importância e tê-lo em formato físico?
Nina Ximenes – Meu produtor, Wagner Amorosino, apresentou esse disco ao Alcides Ferreira, dono da Kuarup, e ele gostou bastante do repertório e me convidou para lançá-lo por essa renomada gravadora, o que muito me honra, já que a Kuarup é sinônimo de música de qualidade no Brasil. Ter o CD em formato físico é sempre importante, pois ainda tem muita gente que gosta de manusear o produto, ler o encarte (que aliás tem um texto de apresentação muito bonito, feito pelo Aquiles Rique Reis, um dos integrantes do MPB-4 e apreciador crítico musical). Enfim, ter aquele CD para ouvir em casa, no carro… É também um belo cartão de visita.

DISCOGRAFIA – Você é cearense, mas mora desde a infância em São Paulo. Que conhecimento você tem sobre o que se faz de música em Fortaleza?
Nina Ximenes – Saí do Ceará quando eu tinha quatro anos de idade, mas toda minha família, de parte de mãe e pai, vive em Fortaleza e na serra. Tenho muito orgulho da cultura nordestina, que é tão importante para a arte brasileira. Minha prima de Fortaleza, Karlla Braga, com quem converso quase todo dia, me mantém informada do que se passa no universo musical cearense. Sabe tudo, essa bichinha! Mas não posso deixar de citar primeiro meus queridos Fagner, Ednardo e Belchior, que embalaram muitos momentos da minha vida. Para falar das talentosas mulheres cearenses, conheço o trabalho da Mona Gadelha e da Roberta Fiúza. E o delicioso forrozin de pé de serra do Waldonys me faz matar a saudade da terrinha. Amo forró, como qualquer cearense! Reverencio, também, os grandes Evaldo Gouveia e Manassés. A música nordestina traz uma alegria que só ela sabe transmitir, reflexo do alto astral de seu povo.

DISCOGRAFIA – A quarentena interferiu de diferentes formas nos artistas. Uns se inspiraram e criaram obras sobre o momento e outros foram profundamente prejudicados pela falta de trabalho. Como você tem passado esse período, pessoal e profissionalmente?
Nina Ximenes – Realmente, a pandemia atrapalhou alguns dos meus planos, como o lançamento oficial do meu CD, que seria em março, no Teatro Arthur Rubinstein, do clube A Hebraica de São Paulo. Nos primeiros dias, acho que todos nós, de todas as áreas profissionais, ficamos atordoados, pois não sabíamos aonde tudo isso nos levaria. Felizmente, tenho um home estúdio e continuo produzindo música, além de meu trabalho como locutora. Fui contratada pela Prefeitura de São Paulo para três shows online, dois deles já realizados. Também, exerço outras atividades, como roteirista e dramaturga. Atualmente, escrevo para o canal da atriz Eliana Guttman, “Contos da Vovó Lili”. Também, fui convidada pelo Itaú Cultural para a leitura online de uma peça minha, “Enquanto chovia”, que será realizada no próximo mês, pelos atores Camilo Bevilacqua, Eliana Guttman, Paulo Goulart Filho e Bruna Ximenes (minha talentosa filha, que é atriz e apresentadora do canal “Papo di colher” – o “di” é com “i” mesmo). No final do mês de março, compus com o mesmo parceiro de “Amor de guardar”, Carlos Castelo, a música “O sol da gentileza”, que fala um pouco desses tempos difíceis de isolamento social. E escrevi a letra de “Angel”, uma música em parceria com André Andreo.

DISCOGRAFIA – Com o frio que tem feito em São Paulo, qual tem sido sua trilha sonora preferida?
Nina Ximenes – Apesar do meu ecletismo, pois realmente gosto de ouvir todo estilo de música, desde que seja de qualidade. Sempre me pego escutando meus ídolos do jazz, como Ella Fitzgerald, Nat King Cole, e também nosso brasileiro Dick Farney, sem falar no Tom Jobim, que é um de meus compositores favoritos.

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