Discografia

Cristovão Bastos e Rogério Caetano se encontram em disco que remete às riquezas do chorinho

Rogério Caetano e Cristovão Bastos (Foto: Gabriel Perez/ Divulgação)

Imaginem um Rio de Janeiro, hoje saudoso, do início do século passado. Temperatura mais amena, feiras suburbanas com frutas e legumes, e nada das violências, correrias e tecnologias que nos roubam a ingenuidade de um tempo em que um joelho de fora era o máximo em termos erotismo. Agora imagine um rapaz que curte sua noite pelos bares e cabarés da Lapa, Cinelândia, e dali sai de madrugada para pegar no batente na manhã que se aproxima. E é no percurso para este trabalho, com um céu azul de início de dia, que ele encontra uma bela moça, dentro de um longo vestido de muitos babados e sob um delicado guarda-sol. A paixão é imediata e percebida na troca de olhares. Dali um passeio, quem sabe uma praia, um futuro casamento, filhos e uma vida que segue como tantas.

Essa cena é sugerida no encontro primoroso de Rogério Caetano e Cristovão Bastos, lançado em disco pela Biscoito Fino. Rogério, natural de Goiânia é um premiado e reconhecido violonista que já colocou seu instrumento de sete cordas a serviço de gente como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso e Beth Carvalho, além de ter excursionado por muitos cantos do mundo. Entre seus trabalhos, ele criou uma série de encontros semanais com instrumentistas – seus conhecidos ou não – para tocarem e trocarem ideias. Esses encontros acabaram rendendo o disco Rogério Caetano convida – Ao vivo no Rio, que tem, entre os convidados, o pianista Cristovão Bastos.

Cristovão é desses músicos que você pode até não saber, mas com certeza o conhece. Além de ter gravado com uma infinidade de artistas, é parceiro de Chico Buarque em Todo sentimento e de Aldir Blanc em Resposta ao tempo. É também um dos autores da trilha sonora do filme Zuzu Angel e tem músicas gravadas por nomes como Nana Caymmi e Banda Black Rio. Com o próprio nome na capa, sua discografia é curta. Mas, analisando seu currículo, a história é outra. “Sou fundador da Black Rio, mas só fiz o primeiro disco, o Maria Fumaça, considerado um dos 100 melhores discos da música brasileira. Participei de um disco do Paulinho da Viola, o Memórias chorando, estou lá como artista contratado (em todas as faixas). No disco Meia noite, do Edu Lobo, eu fiz todos os arranjos. Fazer todos os arranjos de um disco, ele fica meio seu. Como compositor, eu tenho muitos discos. É muito material. Embora não haja muitos discos do Cristovão Bastos, estas coisas todas são muito interessantes”, defende-se.

Na parceria com Rogério Caetano, ele interpreta 11 canções que descem como o sabor do café da Confeitaria Colombo ou um chope no Bar do Luiz. Embora eles não apresentem nenhuma parceria, a trama de teclas e cordas envolvem o ouvinte pela beleza, ao mesmo tempo simples, por que não lhe exige esforço, e sofisticada, pela riqueza harmônica. Um chorinho em Cochabamba, de Rogério e Eduardo Neves, já entrega a intimidade da dupla num ritmo dançante que remete aos salões cheios nas madrugadas. Polca de Jequitibá, de Cristovão e Maurício Carrilho, desacelera num ritmo que aquece como o sol da manhã. Choro Saudoso, de Cristovão com Paulo Cesar Pinheiro, é idílica, a canção do encontro, do amor à primeira vista. E é ainda mais apaixonado que chega Milena, homenagem de Rogério a sua esposa. Sem palavras é a trilha do relacionamento maduro, do pic nic no domingo. E se esse amor frutifica, Criançada reunida, uma polca bem marcada, coloca a brincadeira em cena.

Gravado ao longo de três dias, em três sessões de seis horas, o disco é dedicado ao violonista Raphael Rabello (1962-1995), para quem eles tocam Obrigado, Rapha, de Rogério Caetano. “Eu tenho uma história meio familiar por que fui casado com uma irmã dele, a Amélia (Rabello), tenho um filho com ela, que é compositor. Eu fiz muito arranjo em que o Raphael tocou, chegamos a fazer muito show instrumental. É um dos melhores músicos que a gente já teve e deixou um trabalho lindo”, relembra Cristovão. Para Rogério, ele não dedica menos elogios e conta que o encontro nasceu naturalmente, assim como o desejo de gravar junto. “Já tocamos muitas vezes juntos, em duo, em trio com o Marco Pereira (violonista). Esse negócio meu com o Rogerinho, ele tem uma técnica muito bonita. Dá até força”.

É certo que o Rio de Janeiro desenhado no disco Rogério Caetano e Cristovão Bastos não existe mais. Em tempos de governador afastado e “guardiões do Crivella”, é difícil acreditar na ingenuidade de um encontro na rua, num joelho coberto por anáguas ou num pic nic de domingo com as crianças. “Parece que o carioca não gosta muito do Rio, por que ele bota cada figura. E bota naturalmente, não tem problema nenhum de colocar um cara maluco lá em cima”, comenta Cristovão, não sem certo humor. Em casa por conta da pandemia, ele conseguiu registrar sua parceria com Rogério pouco antes do isolamento social e espera que volte tudo ao normal para poder levar o projeto para a estrada. Por outro lado, ele aproveita o momento como pode. “Estou compondo como há muito tempo não compunha. Estou tendo um tempo que preferia não ter, mas estou estudando piano de uma forma muito consistente. Tem seu lado bom, embora seja muito forçado. Mas temos que aproveitar dentro da situação o que se pode aproveitar. Tem muito coisa pra aprender, refletir. É uma lição também da precariedade dos valores do ser humano. É muita coisa que vale a pena refletir”.

Repertório do disco:

  1. Um chorinho em Cochabamba (Rogério Caetano e Eduardo Neves)
  2. Polca de Jequitibá (Cristovão Bastos e Maurício Carrilho)
  3. Choro saudoso (Cristovão Bastos e Paulo César Pinheiro)
  4. Obrigado, Rapha (Rogério Caetano)
  5. Forró das palmas (Rogério Caetano)
  6. Milena (Rogério Caetano)
  7. Sem palavras (Cristovão Bastos)
  8. Choro pro Waldir (Cristovão Bastos e Paulinho da Viola)
  9. Criançada reunida (Rogério Caetano)
  10. Acreditei nos beijos dela (Cristovão Bastos e Paulinho da Viola)
  11. O galo fugiu (Cristovão Bastos)

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