
Giuliano Eriston lança disco produzido por Pedro Baby (Crédito da foto: Nando Chagas/ Divulgação)
Realities de música são melhores em fazer celebridades do que artistas. De modo geral, é difícil lembrar quem ganhou qualquer edição de um “Popstar”, “Fama”, ou “Canta Comigo”. Mas é fato que eles impulsionam imagens, dão visibilidade e, quem tem talento de fato, tem a chance de capitalizar isso. É o caso do cearense de Bela Cruz (205,59 km de Fortaleza) Giuliano Eriston que estrou aos 13 anos cantando e tocando no Festival Choro Jazz de Jericoacoara. Onze anos depois, venceu a 10ª “The Voice”, reality show da rede Globo, cantando “Luz do sol”, de Caetano Veloso.
Essa oportunidade abriu portas, apresentou pessoas e lhe deu como prêmio a chance de gravar o primeiro disco, “Universo em Si”, em 2022. Quatro anos e muitos shows depois, chega às plataformas digitais seu segundo disco, “Politonia”, produzido por Pedro Baby. Giuliano conheceu o filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes ainda na adolescência, na gravação de um programa de TV que aconteceu em Jericoacoara, onde ele foi morar com família uma época. Radicado no Rio de Janeiro há 4 anos, eles se reencontraram, Pedro produziu em 2024 um EP com cinco composições de Sérgio Sampaio e, agora, enfim, um novo disco completo.
“A grande diferença do ‘Universo em si’ para esse álbum é a diversidade da paleta de cores, porque a instrumentação no ‘Politonia’ é muito mais diversa, tem muito mais texturas, muito mais nuances musicais. Como eu me considero um artista de MPB, ele (o disco anterior) tem essa característica de uma diversidade de formas musicais e referências também. Mas de alguma forma ele soa com uma paleta restrita. E aí a ruptura que eu considero que estou fazendo, uma delas, é essa de agregar mais instrumentos, fazer um trabalho maior de fato”, compara Giuliano o projeto que foi uma consequência da participação no “The Voice” e o mais recente.
Ele conta que ó trabalho com Pedro Baby começou com seis faixas, depois foram compostas mais três. Antecipado com exclusividade à coluna, “Politonia” começa com reflexões íntimas, passa para as histórias de amor e termina com uma abordagem político-social. Mas isso não torna o álbum algo conceitual ou sisudo, tudo vai surgindo naturalmente e com os temas se interligando. “Lucidez”, a faixa de abertura, por exemplo, fala sobre seu momento de se abrir para o mundo, para o novo. Logo em seguida vem “Gosto do Gesto”, claramente uma música feliz, de amor, de expectativa, de paquera. Para encerrar, “Waiting” fala sobre os conflitos envolvendo EUA, Israel, Palestina, imigrantes, polícias migratórias e um cenário internacional confuso.
E, além dos temas, os sons também se misturam e se complementam em “Politonia”. Esta última, por exemplo, tem ares de um elegante standard americano, meio Cole Porter, e nasceu com a ideia de ser mais uma canção de amor. Já a faixa de abertura lembra algo de Tim Bernardes e se abre num belo e solar arranjo de cordas. De certa forma, acontece o inverso em “Festa do Infinito”, que parece vir de um espaço sideral até pousar num ambiente terreno. Composta num momento de paixão, a faixa se aproxima mais de um som radiofônico – sem forçar barra.
No entanto, a que foi escolhida como faixa de trabalho é “Corpo de Candiá”, que conta com a participação de Moreno Veloso. “A letra veio de uma experimentação com a sonoridade de certas palavras que me dão a impressão de ser ou iorubá ou alguma coisa tupi. Por exemplo fuá, aluá. Essas sonoridades que eu sempre acho muito gostosas e que vem, obviamente, de palavras desses povos que são matrizes da nossa mistura. Passou um tempo como rascunho, depois eu agreguei outras partes e transformei essa música numa espécie de cântico à noite. Tem uma relação quase que religiosa, pagã de alguma forma, porque exalta a lua e a noite, assim, meio como entidades”, detalha.
E Giuliano vai seguindo com a salsa “Borogodó” (única parceria do disco, com Pedro Baby e Gustavo Pereira), “Não pro sim” (uma elegante balada r&b sobre a iminência da separação, com forte ar de Djavan) e “Vem me relembrar”, um “xote metido a besta”, nas palavras do autor, cantando em francês. Ao final, “Politonia” é um disco curto, claro nas referências e transparente nas intenções. Pois é, Giuliano Eriston não buscou fórmulas fáceis para o sucesso, preferindo investir do que sabe fazer bem. “Acho que ser artista de MPB é apostar numa conexão forte com o ouvinte. Acho que tem a ver com uma relação mais duradoura, uma construção de carreira menos fugaz. Por mais que não seja numeroso como os artistas do top 5, 50, que seja, do Spotify, mas que sejam impactos significativos na vida das pessoas em termos de abrir a percepção para olhar uma situação de maneira diferente e de alguma forma fazer se sentir melhor. Esse é o objetivo, mais artístico, mais profundo, mais poético”, encerra.