Na edição de 2026 da Bett Brasil, uma das feiras mais importantes para o mercado da Educação no Brasi, a Inteligência Artificial aplicada à Educação deu a tônica em grande parte das empresas expositoras presentes.
Durante os quatro dias de programação, o evento recebeu mais de 65 mil visitantes — um crescimento de 40% em relação à edição anterior — e reuniu mais de 330 marcas expositoras, nacionais e internacionais, que apresentaram soluções, tecnologias e serviços voltados a todos os níveis de ensino.
Educadores, gestores públicos e privados, especialistas, empresas e formuladores de políticas públicas estiveram ao longo da semana reunidos no Expo Center Norte, em São Paulo, consolidando a feira como um dos principais pontos de encontro da educação no cenário global.
“O que vimos aqui foi uma educação em movimento, que não nega os desafios, mas também não abre mão de construir caminhos concretos. A Bett é esse espaço de encontro entre quem pensa, quem faz e quem transforma”, afirma Cláudia Valério, diretora da Bett Brasil.
Uso da IA na Educação
A Realms IP.TV é um dos players do mercado que vem apostando no uso de Inteligência Artificial para o aprimoramento das atividades pedagógicas nas redes de ensino. Durante a feira, a empresa apresentou um robô homanoide educacional voltado ao apoio pedagógico em salas de aula da rede pública. Segundo o fundador, Eduardo Giraldez, o projeto une inteligência artificial, coleta de dados e interação em tempo real para auxiliar professores, engajar estudantes e ampliar o ensino personalizado.
Giraldez explica que a tecnologia é dividida em duas frentes: o servo mecanismo — responsável pela estrutura física do robô — e o software de inteligência artificial, chamado “Helm Persona”. Segundo ele, a parte pedagógica já está em funcionamento há cerca de um ano e pode ser utilizada mesmo sem o robô físico.
“A parte pedagógica é muito simples de usar. Qualquer professor pode criar um personagem, colocar livros, vídeos, apostilas e o sistema vai conversar sobre aquilo com perfeição, tirar dúvidas e atuar como assistente do professor”, afirmou.
O empresário destacou a aplicação da tecnologia em projetos de educação remota em comunidades isoladas no estado do Amazonas, onde atua em cerca de 2.600 salas de aula de escolas públicas localizadas em comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas.
“Nós temos localidades com apenas um professor, que atende várias séries ao mesmo tempo. Criamos um modelo em que especialistas dão suporte por meio de estúdios de TV, enquanto o professor local conduz a dinâmica da sala”, explicou.
A ferramenta também pode atuar como apoio em disciplinas específicas. Em situações em que o docente não domina determinado conteúdo, o sistema funciona como um assistente pedagógico. “O professor pode pedir para o assistente corrigir exercícios de física, tirar dúvidas e apoiar a turma com total segurança”, afirmou.
Embora o robô físico ainda esteja em fase de pré-lançamento, Giraldez explica que ele foi desenvolvido para tornar as aulas mais interativas e ampliar o acompanhamento pedagógico. O equipamento pode assumir diferentes “personas”, funcionando como assistente de matemática, física, química, português ou inglês.
“Tudo o que acontece em sala é gravado em nuvem. A partir disso, conseguimos gerar gráficos de aprendizagem, identificar quem está entendendo determinada habilidade e criar reforços personalizados”, explicou.
Segundo ele, o objetivo é apoiar professores que enfrentam sobrecarga e lidam com diversas turmas simultaneamente. “O professor no Brasil dá aula para dez turmas. É complicado lembrar de tudo. O sistema ajuda justamente nisso”, disse.
Além das aplicações pedagógicas, o robô também foi pensado para funções de segurança e gestão escolar. Entre as funcionalidades previstas estão rondas automatizadas dentro das escolas, apoio à inspeção e identificação de pessoas não autorizadas no ambiente escolar.
Ao final da entrevista, Giraldez ressaltou o caráter nacional do desenvolvimento da plataforma. “A mecânica é chinesa, mas o software é totalmente brasileiro. Isso é importante”, concluiu.
Outra empresa que tem apostado no uso de IA para a melhoria da qualidade no ensino, especialmente na rede pública, é editora Grupo Eureka. A novidade levada para a Bett Brasil foi a a “ProfessorIA”, plataforma que utiliza inteligência artificial para apoiar o trabalho docente. A ferramenta tem como mascote a personagem Maria de Fátima e foi desenvolvida com base nos conteúdos pedagógicos da própria editora, além de pesquisas externas. A IA é capaz de produzir planos de aula, sequências didáticas e sugestões pedagógicas.
Igor Ventura, Diretor de Produto da empresa, ressalta que “a editora acredita na mediação humana como elemento indispensável no processo educacional. Por isso, as respostas geradas pela IA são acompanhadas por especialistas de diferentes componentes curriculares”, complementando que, em situações específicas, como adaptações de atividades para estudantes com deficiência, professores especialistas complementam as respostas fornecidas pela plataforma.
Além da produção de conteúdo, a “ProfessorIA” também oferece mentorias e grupos de estudo para educadores das redes públicas. “Os profissionais analisam dados de aprendizagem das redes atendidas para desenvolver trilhas formativas integradas ao uso da inteligência artificial”, confirma Igor.
A plataforma já vem sendo utilizada em larga escala no estado do Rio de Janeiro. De acordo com a editora, cerca de 28 mil professores tiveram acesso à ferramenta, A adesão, segundo a empresa, foi impulsionada por um processo de inclusão digital que envolveu visitas às escolas da rede.
Embora os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) ainda não tenham sido divulgados, representantes da Eureka afirmaram existir expectativa de melhora nos indicadores educacionais do estado.
Atualmente, a plataforma atende todos os componentes curriculares do ensino médio e dos anos finais do ensino fundamental, além de possuir projetos voltados à educação infantil e aos anos iniciais em outras redes de ensino.
Plataformas como esta trazem resultados significantes principalmente no que diz respeito ao trabalho do professor “O professor está muito sobrecarregado, trabalha no fim de semana, trabalha à noite tem mil tarefas para fazer. Então como é que a tecnologia pode ajudar? Organizando uma avaliação para ele poder só revisar. Organizando o planejamento a partir de um currículo, organizar suas tarefas administrativas, sistematizando dados para trazer diagnósticos fácies para se tomar decisões pedagógicas”, pontua o Diretor da Eureka. Para ele, o objetivo é permitir que os educadores tenham mais tempo para se dedicar ao acompanhamento dos estudantes.
Já o SAS Educação, outro grande player da Educação Básica, mostrou a utilização da IA em diferentes âmbitos, como na correção de redação, possibilitando feedbacks personalizados, na criação de planos de aula e na promoção da inclusão. Por exemplo, na “jornada da inclusão”, ocorre a adaptação de questões utilizando IA, materiais ampliados e em braile, recursos de acessibilidade por meio da ferramenta Rybená e formação em educação inclusiva para os docentes. Nesse sentido, para a empresa, a IA potencializa o educador, mas não substitui seu papel na mediação do conhecimento, na construção de vínculos e no desenvolvimento socioemocional.
Levando a Inteligência Artificial para o âmbito do cuidado com as crianças, a Escola da Inteligência, trouxe o Pulso, uma ferramenta que acompanha de forma contínua o bem-estar emocional de alunos do 5º ao 9º ano do Ensino Fundamental, abrindo um espaço de compartilhamento e intervenções pedagógicas para as turmas.
Com mais de 200 crianças conectadas à plataforma, o Pulso funciona por meio de check-ins semanais que os alunos realizam na plataforma, informando como estão se sentindo. Em uma interface amigável e com linguagem simples, muito próxima ao universo dos jovens, eles selecionam uma entre quatro opções em relação ao teor de seus sentimentos – muito desagradável, desagradável, agradável e muito agradável. A partir da opção escolhida, abre-se uma lista de emoções relacionadas a aquele estado, que podem ser selecionadas com um clique.
Assim, os professores recebem as informações necessárias via relatório, conseguem identificar necessidades da classe com mais rapidez e podem atuar com maior precisão. Os coordenadores podem acompanhar padrões e riscos e atuar de forma mais eficaz. E a gestão, por sua vez, pode tomar decisões preventivas e estratégicas, promovendo fatores de proteção e fortalecendo intervenções que favorecem o bem-estar, a aprendizagem e a convivência saudável no ambiente escolar.
A IA faz o seu trabalho fazendo o tratamento de todos esses dados e criando relatórios que servem para a gestão identificar possíveis sinais de conflito e, assim, agir de forma preventiva.



