Projeto une cultura, educação ambiental e empreendedorismo, com alunos envolvidos na criação e venda de produtos inspirados na biodiversidade e nas tradições da região
No Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, estudantes da rede pública de Belém (PA) transformam conhecimentos sobre a floresta em atividades de arte, cultura, sustentabilidade e empreendedorismo. A nova etapa do projeto “Essência dos Mitos” envolve cerca de 80 alunos dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, que estudam a Amazônia e os modos de vida de povos indígenas, quilombolas, caboclos e ribeirinhos.
Liderada pelo professor de Geografia José Ribamar Braun Viana dos Santos, a iniciativa amplia o projeto original, desenvolvido em Ananindeua, região metropolitana de Belém. Na primeira experiência, estudantes do Ensino Médio criaram perfumes, aromatizadores e sabonetes a partir de matérias-primas amazônicas, em uma proposta que articulava educação ambiental, valorização da cultura regional e sustentabilidade financeira para comunidades extrativistas.
Agora, o projeto chega à capital paraense com novos eixos. Arte, cultura e meio ambiente estruturam o trabalho, que incorpora atividades de dança e cinema e aprofunda o estudo da história, dos costumes e dos modos de trabalho das comunidades amazônicas. A bioeconomia e a sustentabilidade aparecem tanto nos conteúdos quanto nas atividades práticas desenvolvidas pelos estudantes.
A iniciativa reúne quatro turmas, duas de 8º ano e duas de 9º ano do Ensino Fundamental, com cerca de 20 alunos cada. O trabalho começa em sala de aula, com conteúdos relacionados à ancestralidade, aos fluxos geográficos e sociais e à relação das populações amazônicas com os recursos naturais. A partir desse repertório, os estudantes discutem território, biodiversidade e preservação ambiental antes de avançar para as oficinas práticas. “As atividades conectam o aprendizado dos alunos à preservação da Amazônia e ao fortalecimento das comunidades locais, criando um ciclo de benefícios mútuos”, afirma José Ribamar.
Da sala de aula à produção
Na etapa prática, os estudantes cultivam hortas pedagógicas, desenvolvem biojoias e produzem outros itens manufaturados, aplicando os conhecimentos construídos ao longo das atividades. É nesse percurso que a abordagem STEAM, sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática, orienta a integração entre diferentes áreas do conhecimento e o desenvolvimento de soluções.
O empreendedorismo também faz parte da proposta. Os produtos são comercializados em feiras realizadas na escola, em que os estudantes têm contato com etapas como organização, precificação e circulação da produção. A expectativa é que, futuramente, as iniciativas possam avançar para modelos de incubação de produtos e projetos desenvolvidos pelos jovens.
A experiência integra o mapeamento de práticas STEAM realizado pelo Itaú Social, que reúne iniciativas educacionais capazes de articular diferentes áreas do conhecimento e aproximar os conteúdos escolares aos desafios contemporâneos dos estudantes. De acordo com Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, quando a escola reconhece e incorpora os saberes presentes em seu território, o conhecimento ganha sentido para os estudantes. “Projetos como o “Essência dos Mitos” mostram que é possível aprender valorizando a identidade amazônica, compreendendo a importância da preservação ambiental e desenvolvendo competências para atuar no mundo e imaginar diferentes possibilidades de futuro”, afirma.
O levantamento das iniciativas foi realizado em parceria com o Instituto Catalisador. O objetivo é inspirar professores e redes de ensino a replicarem práticas bem sucedidas nos territórios.
Amazônia no currículo escolar
Desde 2023, o estudo da Amazônia passou a integrar o currículo escolar na rede estadual do Pará, abordando dimensões ambientais, sociais, culturais e econômicas da região. A iniciativa é resultado da mobilização do Itinerários Amazônicos, promovido pelo Instituto Iungo em parceria com diferentes organizações, entre elas a Fundação Itaú. O propósito do programa é valorizar a diversidade de saberes e culturas presentes no território e aproximar os estudantes dos desafios e oportunidades relacionados ao desenvolvimento sustentável.
Para apoiar esse trabalho, foram desenvolvidos materiais pedagógicos e uma plataforma voltada ao uso em sala de aula. Os conteúdos foram construídos de forma colaborativa, com a participação de jovens, educadores e redes de ensino da Amazônia Legal, região que reúne nove estados brasileiros. Além disso, formações voltadas a professores e gestores escolares contribuíram para ampliar a presença do tema nas práticas pedagógicas e fortalecer sua abordagem no cotidiano das escolas.
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