Entre Aspas

[Crônica]Intolerância por metro quadrado

As fantasias e alegorias voltaram para o barracão, os gritos de alegria e euforia se resguardaram, o Carnaval findou, mas certas atrocidades continuam acontecendo, atitudes repugnantes, retrocessos, pensamentos retrógrados, intolerância por metro quadrado. Fui atingido em cheio com a notícia da morte de Dandara, que era travesti e só queria viver a sua vida. Ela foi agredida até a morte no bairro Bom Jardim, aqui em Fortaleza (CE), e um vídeo feito por um de seus algozes está sendo veiculado nas redea sociais. Não, eu não vi e não tenho nenhum interesse em assistir a essa truculência, não suportaria passar dois segundos sequer vendo essas cenas macabras. Chutes, tapas, golpes, pedradas, palavras cuspidas, tudo isso calando a voz e a forma de viver de um ser humano que só queria viver a sua vida, com dignidade, reconhecimento e amor.

Não conhecia Dandara, assim como não conheço outras travestis e gays e trans que morrem aos montes todos os dias nesse mundo injusto, a estatística só aumenta. Pelo fato de eu não ter a conhecido, uma galera veio falar comigo e me perguntar porque eu estava tão comovido assim, e concluiram que só porque eu sou gay, sou da “comunidade gay”, estou revoltado com tudo isso.

A minha resposta pra esses argumentos estúpidos sempre será: Não! Não pelo fato de que antes de ser gay, eu sou um ser humano, uma pessoa que só quer viver bem a sua vida, beijar e se relacionar com quem quiser, e claro, quer muito amor e paz para os seus, e acredito que antes não fosse gay, eu me incomodaria da mesma forma porque os meus pais me ensinaram a sempre respeitar os outros, me deram educação e me alertaram do mundo mesquinho e perigoso.

O caso de Dandara é muito tristr, pois ela foi brutalmente espancada até não aguentar mais e dar o último suspiro. Isso aconteceu no mês passado, mais precisamente no dia 15 de fevereiro e só com a veiculação dessas imagens escabrosas que o crime hediondo veio à tona, caso contrário, só uma parcela dos que eram próximos a Dandara que estariam a par dos fatos.

Não sei o que deve passar por dentro da  ccabeça de uma pessoa que sai na rua pra praticar o mal. Por que se espantar ao ver dois homens ou duas mulheres se beijando na rua? Por que ficar chocado quando ver um rapaz usando um short curtinho, uma vestindo, usando batom, com as unhas pintadas, que objetiva somente ser feliz?

No Carnaval, vi muitos homens, daquele que tratam o que têm no meio das pernas como um troféu, vestido de “mulher”, com vestido, acessórios, maquiagem e tinha um até de salto alto. Ouvi dizer por eles mesmos que estavam fantasiados de travestis, porque era engraçado demais, mas desculpem vocês, eu ofeio hipocrisia de todas as formas.

O problema é que esses mesmos homens que se “fantasiaram de travestis”, quando chegam em casa, tiram tudo e no outro dia, quando avistam uma pessoa que vive daquela mesma forma que eles se “fantasiaram”, começam a xingar, a olhar torto e no nível mais escabroso batem e matam. Não estou generalizando, mas que isso existe, isso existe e isso damos o nome, além de preconceito, hipocrisia.

A intolerância está gerando muitas mortes e se todo mundo ficar inerte isso vai aumentar cada vez mais. Se você ficar calado e não se impôr a cada “vai viado”, “olha a sapatão”, “vira homem”, nunca teremos um basta  nisso. Muita gente diz aue não é preconceituosa, que respeita os LGBT mas não aceitar por conta de religião, disso e daquilo outro, mas o xis da questão é: aceitar o quê? Você tem é que se conformar que ninguém é igual a ninguém, todo mundo tem o seu livre-árbitrio e se relaciona com que quer, tem que viver em harmonia, respeitar como se isso não fosse um obstáculo, mas infelizmente é, temos esse caso de Dandara, daquele ambulante que foi espancafo até morrer por defender uma travesti no metrô de São Paulo, fora os outros casos que não tomamos conhecimento.

O que mais me indigna são gays que “não se misturam com travestis ou bichas afeminadas”, que não estão nem aí para esses casos, que ignoram o brilho, o talento, a dignidade desses seres humanos. É meu amigo, se existe preconceito de gays com gays, avalie com a população que não é…

Repense nos seus conceitos, nos tabus, nos seus impedimentos e veja a realidade: tem gente morrendo só porque é o que é e o que quer ser! Pense como dói um olhar torto, para um gay, um negro, uma travesti, uma trans, uma pessoa deficiente, pense como aquele seu okhar pode destruir a criatura por dentro. É preciso terminar esse texto, mas fica aqui o registro da minha indignação, raiva, tristeza,  desses intolerantes, que com certeza, não têm amor dentro do coração.

Quero deixar um recado a você pessoa preconceituosa, que vai ter homem com homem, mulher com mulher, homem usando saia e saindo de batom, vai ter alegria, resistência e luta, se não quiser ver, fica trancado na tua redoma de vidro. Em nome de Dandara, e dos milhões de seres humanos que são mortos pela intolerância, eu, Eduardo Sousa grito: Viva a liberdade e NÃO ao preconceito!!!!

 

 

 

 

 

Texto: Eduardo Sousa | Imagem: Internet

 

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