Foi um ano grandioso para a música no Brasil. Em especial, para o que se convencionou no chamado midstream, aquele espaço privilegiado – e cada vez mais respeitado – entre o underground e o popular (ele mesmo, o famoso mainstream).
Elza e Gal entregaram alguns dos melhores discos do ano e das suas carreiras dialogando com a vanguarda e com a nova geração. Por outro lado, Baco Exu do Blues colocou no mundo o combativo Bluesman, e Duda Beat entrou para a linha de frente das canções de amor com Sinto Muito.
E 2018 foi também o ano em que a música brasileira se reconheceu enquanto referência para fundar um novo rumo criativo e de tendência para a música pop. É, como dizem, um triunfo.
Para justificar o que falo acima, listo 10 dos melhores álbuns nacionais lançados em 2018. Não estão em ordem “do melhor para o pior” e não são exatamente melhores do que algum que ficou de fora. É, antes de tudo, uma relação para discutir a música que está sendo feita hoje no Brasil.
Baco Exu do Blues, Bluesman
O segundo álbum de Diogo Moncorvo, nome de batismo de Baco Exu do Blues, é uma necessária explosão de questionamentos e críticas sociais. É preciso ouvir e entender o que Baco diz em um ano em que o Brasil luta para prestar contas com a própria história e insiste em não se reconhecer.
É sintomático que esse Bluesman grite contra a opressão crescente, a depressão e os amores perdidos. Tudo é pessoal. Para além das parcerias imprevisíveis, Baco se projeta como protagonista na virada de chave do rap brasileiro nos últimos anos. É um artista à frente do seu tempo no gênero. Não a toa seu disco é o mais importante do ano.
Pabllo Vittar, Não Para Não
Do pagode baiano ao eletrobrega e passando, mais um vez, pelo forró – há espaço até para flertar com o R&B – Pabllo costura com inteligência uma miscelânea de sons populares e faz tudo isso funcionar no universo das divas da música pop.
E, justamente por isso, consegue encontrar o brilhantismo. Não Para Não é frenético e fugaz com suas faixas que não chegam a três minutos de duração.
Bemti, Era Dois
Boa surpresa do ano, Bemti coloca toda sua sensibilidade e transforma a fragilidade dos relacionamentos em força para se reerguer no álbum era dois. Uma combinação de melancolia e potência no melhor indie folk que o Brasil tem a oferecer.
O fundador da banda Falso Coral une viola caipira e elementos eletrônicos no universo do amor queer – que, sim, é universal – mas é, também, símbolo de resistência conhecida e reconhecida por poucos setores da sociedade. Bemti mostra que cantar o amor LGBT em 2018 é necessário. Ressignificar abusos em aprendizado, também.
Duda Beat, Sinto Muito
Há algo de original e inspirado que torna o som de Duda Beat tão brasileiro e atual. As referências do Nordeste, a música eletrônica, o fino do brega – tão popular em tempos de sofrência pop – e até batidas jamaicanas.
É essa concentração de referências sonoras e coleção de vivências da própria pernambucana que ajuda o formar um dos melhores álbuns do ano.
Programações, teclados, percussão, sintetizadores e cordas, muitas cordas. Está tudo lá com uma certa dose de genialidade, resultado de dois anos de produção, que coloca a artista no cerne do que há de mais interessante na música brasileira.
A produção é do parceiro Tomás Tróia. Com Sinto Muito, Duda Beat é a revelação do ano.
Elza Soares, Deus É Mulher
A aura punk de Elza Soares nunca esteve tão forte. A artista reivindica lugar de fala em álbum que, se não é um manifesto feminista, é o mais combativo da carreira.
Deus É Mulher surge após o elogiadíssimo A Mulher do Fim do Mundo (2015) e, embora não seja uma continuação, segue uma linha conceitual estabelecida naquele registro.
Destaque para a participação visceral de Edgar em “Exú nas Escolas” e “Banho”, escrita por Tulipa Ruiz.
Entrevista: “Eu sou a própria força da natureza”, diz Elza Soares
Lia Clark, É da Pista
A drag queen paulistana se provou com É da Pista, primeiro álbum cheio desde que estreou com o single “Trava Trava”, em 2016. Lia Clark agarrou o posto de funkeira usando deboche como ferramenta para afrontar o conservadorismo.
A cantora brinca com a sexualidade, não descarta os palavrões e traz referências até do funk melody, como na faixa “Nude”, canção digna de um heartbreak álbum no tempo dos aplicativos de pegação. Lia é exemplo de como entrar na onda do funk pop sem, de fato, esquecer o funk.
Rubel, Casas
É justo que Rubel não queira se repetir. Casas, o segundo álbum do músico e cineasta carioca é pensado para soar único. Por mais ambicioso que possa parecer. E, se não soa único, soa novo.
Capa de ‘Casas’
O sucessor de Pearl (2013) tem 14 faixas, com participações luxuosas de Emicida, em “Mantra”, e Rincon Sapiência na esperançosa “Chiste” – um protesto a seu modo. A relevância do hip hop para o que Rubel e seus parceiros criam nesses momentos é fundamental para a pluralidade que o disco representa.
Rubel explora inteligentemente os percursos que a música oferece, e isso inclui abraçar elementos eletrônicos sem esquecer da brasilidade. A musicalidade segue suave, ainda que seja evidente a complexidade desse trabalho. E o resultado é um disco que reflete o que há de mais moderno na MPB.
Faixa a faixa: Rubel comenta o álbum Casas
Gal Costa, A Pele do Futuro
Mais de 50 anos de carreira desaguam no belo A Pele do Futuro. Inspirada na black music, Gal abraça as pistas, acena para os primeiros anos de palco – a exemplo de “Minha Mãe”, com Maria Bethânia – e fala com as novas gerações cantando Silva, Emicida, Tim Bernardes, Dani Black e Marília Mendonça.
Com a cantora sertaneja, Gal Costa brada “Cuidando de Longe”, uma das mas bonitas canções interpretadas pela baiana nos últimos anos, dando a Marília Mendonça status de gigante já percebido pelo gosto popular.
A grandiosidade se estende com músicas de Hyldon, Adriana Calcanhotto, Guilherme Arantes, Gilberto Gil, Paulinho Moska, Djavan, Jorge Mautner, Nando Reis e Erasmo Carlos.
Jão, Lobos
É muito próprio o caminho musical que Jão está trilhando. Dos covers no YouTube para a super produção Lobos, assinada pela pela Head Media com a Universal, o versátil artista cria uma narrativa de dores da juventude verossímil para uma geração que sofre pelos amores enquanto dança.
Jão abre o disco avisando que vai morrer sozinho, pede por beijo no meio de uma briga, assume que é imaturo e que, acima de tudo, ainda ama. Todos os dilemas vêm carregados de emoção abraçando uma sofrência – olha ela aqui de novo – de um jeito que só o pop brasileiro consegue fazer.
Há uma ousadia bonita de se ouvir quando brinca com o funk em “Vou Morrer Sozinho” e flerta com o samba em “A Rua”, mas é no sertanejo, que costura quase todo o disco, que o artista se encontra. Destaque para “Me Beija com Raiva”, um hino da sofrência pop com excelência no arranjo e apelo popular.
Carne Doce, Tônus
Há uma diferença de estética evidente em Tônus. A psicodelia e os gritos podem até ter ficado nos álbuns anteriores, mas é justo dizer que a intensidade sonora permanece no terceiro disco da banda Carne Doce ao discutir a dualidade humana sem fugir da tensão característica do grupo.
A banda goiana faz rock como ninguém hoje no Brasil. Além da lírica provocativa, é imprevisível e moderno na sonoridade. E, dessa vez, encontrou uma elegância ainda mais afinada para falar de sexo e amor despudorado.
Por tudo isso, é irônico e doloroso saber que a banda foi na contramão do que tem sido feito na indústria cultural ao lidar com os próprios conflitos que vieram a se tornar públicos.