Navalha Aberta confirma a maturidade poética de Johny Guimarães no domínio do haicai contemporâneo. Com rigor formal e arguta sensibilidade, o autor constrói poemas que não apenas condensam imagens potentes e laminares, mas também penetram o real em sua complexidade, instaurando uma percepção aguda do instante e do mundo.

Cada haicai desta obra atua como uma suspensão do tempo: um gesto que fixa o efêmero e o reverbera em plena iluminação, traduzindo o real e seus simulacros num mergulho denso e silencioso na vida. Trata-se de uma poesia que observa o mundo por suas frestas: lugares onde o visível se abre ao invisível, onde a realidade ordinária adquire espessura filosófica e afetiva.
Pela linguagem concisa do haicai, o autor potencializa sua força expressiva, desdobrando-a ora por meio de um lirismo delicado, ora por um viés crítico, tocando o leitor pela surpresa e pelo efeito iluminador da catarse. O humor, por vezes áspero, outras vezes sutil, atua como dispositivo de revelação: instaura um estranhamento lúcido diante da banalidade cotidiana e desnuda o absurdo do presente. O olhar poético não se impõe, mas insinua, e, assim, transforma o leitor, tornando-o mais atento, mais lúcido, mais pleno de sentido e de poesia.
Sobre o autor
Johny Guimarães é poeta e jornalista. Autor de títulos como Névoas da guerra e Rosas de Jericó, é reconhecido por seu trabalho com a poesia breve, em especial o haicai. Sua escrita alia precisão, ironia e um apurado senso de observação do real.
Pequena antologia poética
a pressão de urubus
não assusta a criança
que disputa a carniça
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corpo no esquife:
mulheres rezando
para o morto ateu
&&&
paisagem branca
de puro gelo
pássaro negro ferido
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