Há campanhas que terminam quando a publicidade acaba. Outras continuam acontecendo todos os dias, na vida de quem foi impactado por elas.

Foi isso que encontrei em Recife.

A convite da Suvinil, conheci de perto o projeto “Botar a Cor pra jogo Muda Tudo”, realizado na comunidade de Vasco da Gama, na Zona Norte da capital pernambucana. Confesso que embarquei imaginando encontrar uma grande intervenção artística. Voltei entendendo que estava diante de um projeto de regeneração urbana.

É claro que as cores chamam atenção. Seria impossível não notar. Cerca de 100 casas passaram a fazer parte de uma única obra de arte urbana, considerada uma das maiores intervenções de arte urbana habitada do Brasil. Mas a transformação começou muito antes da tinta chegar às paredes. Ela nasceu da escuta dos moradores, que participaram da construção do projeto, aprovaram as artes e ajudaram a definir como aquele território gostaria de ser visto.

A comunidade ganhou uma nova paisagem, mas ganhou, principalmente, novos espaços para viver e conviver.

A quadra esportiva, considerada o coração de Vasco da Gama, foi completamente revitalizada. O entorno recebeu academia ao ar livre, parque infantil, áreas de convivência e uma obra de engenharia que solucionou um problema histórico de infiltração causado por uma galeria pluvial sob o equipamento. O resultado devolveu aos moradores um espaço que havia deixado de cumprir sua principal função: reunir as pessoas.

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A reinauguração aconteceu durante a tradicional Copinha Vasco da Gama, torneio disputado há mais de duas décadas e que, no ano passado, sequer pôde ser realizado por causa das condições da quadra. Neste ano, oito equipes voltaram a entrar em campo. Mais do que um campeonato, foi a retomada de um símbolo da comunidade.

O que mais me chamou atenção, no entanto, não foi a obra.

Foram as pessoas.

Durante as visitas, ouvi moradores contando como passaram a ocupar novamente aquele espaço. Vi crianças brincando onde antes havia abandono. Percebi comerciantes acreditando que a circulação de pessoas pode fortalecer a economia local. E entendi que pertencimento não se constrói apenas com infraestrutura, mas também com a sensação de que alguém acredita naquele lugar antes mesmo de seus próprios moradores voltarem a acreditar.

A Suvinil poderia ter feito apenas uma ação de pintura.

Preferiu fazer algo maior.

Além da intervenção urbana, o projeto deixou um legado educacional. Em parceria com o Movimento União BR e o programa Voltando à Escola, estudantes participaram de oficinas de arte urbana, atividades de cocriação e da escolha dos espaços que receberiam murais na Escola Estadual Gilberto Freyre. Durante toda a execução da iniciativa, a Casa Suvinil funcionou como ponto de encontro da comunidade, recebendo oficinas, palestras, cursos e atividades culturais. O trabalho social continua com acompanhamento das famílias e ações voltadas à adaptação climática e ao fortalecimento dos vínculos comunitários.

Vivemos um tempo em que muitas marcas falam sobre ESG, impacto social e propósito, mas poucas conseguem traduzir esses conceitos em algo concreto.

Em Vasco da Gama, percebi que o projeto não foi pensado para gerar apenas boas imagens. Ele foi desenhado para permanecer depois delas.

Talvez esse seja o maior aprendizado que trouxe de Recife.

A cor, sozinha, não transforma uma comunidade, mas, quando encontra escuta, participação e compromisso de longo prazo, ela deixa de ser apenas tinta e passa a fazer parte da história de quem vive ali

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