Blog do Jocélio Leal

Belchior: o analista amigo dele

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Fortaleza – Poetas fingem bem. Portanto, não é certeza que o psicanalista Barbosa Coutinho seja aquele da Divina Comédia Humana, onde nada é eterno. Mas a citação é bem provável. Ele é único analista amigo de Belchior. Barbosa conversou hoje à tarde (3/5) com o Blog.

Ele estava tranquilo, mas ainda sentia com muita força a dor da perda que só tem quatro dias. Preferiu não ir aos funerais. Fausto Nilo, o terceiro nome de uma tríade de mentes brilhantes do antigo Liceu do Ceará, foi e sentiu essa dor com os olhos também.

Barbosa diz não ter certeza se o amigo o citou naquela letra. “Pode ser, mas acredito que tenha sido uma construção dele”. Lembranças ele guarda de horas de conversa. “Falávamos sobre tudo, também sobre dificuldades conjugais como todos têm”.

Depressão ele não tinha. Aliás, citando Fausto, revela que o homem exibia uma saúde de ferro. “Não adoecia”, ri-se.

Admirador de há muito, ele comenta: “A gente sabia que era um grande poeta, genial, mas creio que agora o Brasil está redescobrindo”.

Belchior queria ser santo
“Era o sonho dele e se comportava assim”. É Barbosa quem abre esta fresta da alma do amigo. Via isso nas atitudes do garoto que trocava as idas ao cinema de arte, o Art, no Centro de Fortaleza, pela reclusão na companhia das letras.

“Era como fosse algo mundano”. Barbosa e Fausto iam sozinhos. Pelo mesmo motivo, no Liceu, em momentos de algazarra da garotada, preferia não entrar e ficava na dele, lendo. Belchior lia Camões.

Barbosa fala do lado místico e religioso de Belchior muito forte. “Ele tinha esse sonho. Era um admirador dos ermitões, como Santo Antão, que vivia em um casebre escrevendo delírios”.

O misticismo e a religiosidade do jovem Antônio Carlos o fez tomar um rumo bem distinto daquele seguido pelos dois companheiros.

Barbosa se decidiu logo pela Medicina e Fausto pela Arquitetura, razão pela qual quase migra para Recife. Só não o fez porque soube que em breve Fortaleza também teria o curso. Enquanto isso, Belchior vestiu um hábito. Virou seminarista.

Anos depois, Barbosa estava no sexto ano da graduação quando o amigo cumpria o primeiro de dois ou três anos apenas de formação médica na Universidade Federal do Ceará (UFC).

O sumiço de Belchior repetira um drama na família do artista. Barbosa lembra do quanto o poeta sofrera com o desaparecimento de um irmão. Engenheiro bem sucedido, o irmão meteu o pé na estrada para voltar depois de 30 anos.

De certo modo, o retorno era o milagre que se esperava de Belchior.

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