Leituras da Bel

Cartas as poetas do nosso tempo: Inês Campos

Por Nina Rizzi*

quem tem medo das mulheres que viajam? das mulheres ‘naturais’?

 

inês, seu livro itinerário me chega num dia de sossego quase absoluto – não obstante o dia, as festas, o bebê que se endurece e mexe.

quanta delicadeza pode atravessar teus olhos e chegar aos meus.

sento, me reclino, estico as pernas. quase fecho os olhos. viajo junta. cada lugar, poema onde habitar e as folhagens muitas, os sítios outros. seus poemas me abraçam.

 

JOANA

joana abre uma porta – todas –
sente o frio da pedra
a dança no pomar
o silêncio dos pássaros

com uma urgência
redescoberta
aperta o maxilar
torce os punhos
come todos os restos

depois – simples assim –
pisa na grama
afunda

sinto ganas de te procurar. te olhar o mapa na pele, saber os teus lugares, teus nomes, teus fazeres. como se pudesse ter também na pele essa delicadeza infinda no meio do caos. ouço estrondos, bombas, carros. ouço poemas datados dos maus tempos, um poema datado de uma explosão de há milhares de anos é um poema datado das gentes que morrem aqui e em todo tempo. e no seu corpoema toda a delicadeza.

tenho ganas de te alcançar. e então fecho os olhos de nodo e não procuro nada além de imagens. saber-te advogada, parava então essa experiencia fantástica. te sei pelas poemas. tudo está em sua ‘geografia particular’. qualquer outro tudo o mais busco numa canção infantil.

 

ALVORADA DE MINAS

formigas
me caminham
com aquela bunda gorda
amarela

formigas me escondem
em lugares óbvios

 

 

por um instante volto à realidade das prestações que vão vencer, aquela viagem que não posso fazer. e deslizo contigo, suas letras de um lado ao outro do mundo.

dê-me tua mão. te preservo desse sol fortalezense, dos camarões baianos, descansamos sozinhas como somos todas, sob os arcos da lapa, de paris, num quarto de van gogh. dê-me tua mão, te levo a dançar cada palavra por campos floridos de monet. te vejo linda ali.

mas é minas tua casa, sei ouvir a poema. cada pedaço sua corpoema ama este pedaço de mundo onde também me aconchego e faço filhinhos trilhando a serra da canastra, subindo o rio são francisco; até poder brincar com eles de pedrinhas e florezinhas e o barro vivo do jequitinhonha. nado com o bebê que se endurece e mexe. te damos as mãos, descemos com seus balões de afeto, marcados a riso e choro pela poesia, o melhor lugar.

 

FIESOLE

encontro com as
pedras
etruscas, romanas, lombardas

de pronto
fica evidente o meu não
pertencimento

ainda assim
não me negam
asilo

postas uma sobre as outras
deixam que eu me deite
e cerre minha boca

 

e antes que feche o livro, antes que o reabra nesse gesto infinito do amor que me oferece, digo que livro lindo! e digo ao homem que me recebe as cartas e também este amor, que livro lindo eu quero um livro assim. ele já é seu, me diz ele também mergulhado em seu amor.

não meu furto ao paratexto, pretexto pra amar mais as mulheres, a alegria de saber o nome das mãos que viajam pela delicadeza natural contigo, os desenhos de julia panadés, o projeto gráfico de daniella domingues, a edição de janaina de paula. é isto um livroamor de mulheres, uma cas’a’screver, onde também posso morar, agora e sempre com essa memória de delicadeza, vocêpoema.

vocêpoema que posso saber ainda que não houvessem palavras – uma chandra namaskar, uma respiração completa, total, um reconhecimento e consciência de estar dividindo este silêncio que não dizendo, é. em tudo, em poesia.

 

SICÍLIA

são as palavras
aquelas guardadas
ou as outras
ditas aos solavancos
fugidias

são os silêncios
que permanecem
templos antigos
mal restaurardos

é a grama
que cresce
ao redor
em cima
dentro

***

[Todas as imagens que ilustram esse texto são do arquivo da poeta.]

 

Nina Rizzi

*é poeta, tradutora e pesquisadora. Criou o Laboratório de Escrita Criativa para Mulheres – onde a partir da leitura e discussão de textos teóricos feministas, prosa, poesia e traduções produzidas por mulheres, criam novos textos nos mais variados gêneros literários. Integra o grupo Leituras Públicas. Gosta de saraus, da periferia, do Centro de Fortaleza e de eventos literários. Escreve mensalmente no blog Leituras da Bel sobre mulher e poesia.

 

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