Leituras da Bel

Tudo é Poesia: Adília Lopes

*Por Juliana Guedes

Vocês não fazem ideia do complicado caminho, para pesquisar, aqui no Brasil, poesia portuguesa contemporânea, feita por mulheres. Os livros, geralmente, são importados e aqueles que foram publicados no país, edições raras, demoram algum tempo, para chegar às minhas mãos. É o caso das obras da misteriosa escritora Adília Lopes, além de poetisa, ela escreve, também, crônicas e atua como tradutora. O mistério, tanto se encontra na pessoa de Adília, como em seu universo poético.

Além de não ter conta de Facebook, a autora nem computador possui – apenas, há uma fanpage, cuidada por admiradores -, não aparecer em festivais ou feiras literárias, não realizar lançamentos de seus livros, a poetisa constrói um mundo de palavras livres, para fora de uma inocente simplicidade, carregando significados desconstrutores, despindo as máscaras da linguagem e da alma humana, deixando nós, leitores, iluminados de tanto (im)piedoso espanto e lucidez ante a vida.

Adília Lopes

Adília Lopes é o pseudônimo da poetisa, que vive como uma beguina portuguesa, em Lisboa e oferece à própria poesia, vez em quando, uma figura personificada: a freira barroca. A autora fez duas faculdades, Física e Letras, mas decidiu nunca terminar nenhuma delas.

Em seu livro de estreia denominado “Um jogo bastante perigoso”, publicado em 1985, e relançado pela Editora Moinhos, aqui no Brasil, este ano, 2018, já encontramos os seus versos impiedosos, tão característicos de todo o universo adiliano: “[…] tem inveja dela até a imita/ mas já se constipou/ nem toda a gente tem figura/ para bermudas de tigre/ coitada!”/ “[…] ora eu só suporto pessoas à distância/ de preferência com uma mesa de permeio”, como, também, vários são os trechos repletos da linguagem físico-quântica: “[…] muito por sua vez caí por cima de uma mulher/ que era um sex symbol depois/ de sofrer uma homotetia de razão/ superior a 1”. No entanto, ao longo da leitura dos poemas, é notado que esta impiedade, na verdade, se configura no mais fundo aspecto do misericordioso.

A voz poética da escritora está impregnada nas figuras familiares, no cotidiano, trazendo citações da cultura pop e desenrolando constantes situações banais, desde o pão de cada dia, até o dinheiro de pagar as contas. Além disso, veste os seus versos de textos canônicos como, por exemplo, os de Camões, Florbela Espanca ou Mário de Sá-Carneiro através de roupagens novas, numa intertextualidade que perfura e costura.

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Não obstante, a autora conduz poemas, também, em diálogo frequente com as suas contemporâneas ou referências de leituras pessoais, tais como: Fiama Hasse Pais Brandão, Mariana Alcoforado e Clarice Lispector. Não esqueçamos que as suas principais influências literárias foram às escritas de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruy Belo.

Na obra “Adília Lopes: Antologia”, de 2002, organizada pelo também poeta Carlito Azevedo, além de crítico e editor brasileiro, encontramos este fermento, que é o projeto literário da poetisa portuguesa: tratar as coisas diárias com humor trágico, deixando estampados em nossos rostos, aquele famoso sorrisinho de lado, sabe.

Semestre passado, fiz uma cadeira de poesia portuguesa, no Doutorado, e para muitos estudantes, era a primeira vez que Adília Lopes tinha sido pronunciada, no curso de Letras. A maioria dos componentes da turma ficava em dúvida, se “aquilo mesmo” era poesia, se tínhamos que levar a sério tanto prosaísmo. Neste momento, percebo o peso da recepção crítica desta poetisa contemporânea, em terras alencarinas, e, assim, o fascínio de sua voz lírica tomou-me, radicalmente, o ser: “[…] chorava por causa do shampoo/ depois acabaram os shampoos/ que faziam arder os olhos/ no more tears disse Johnson & Johnson/ as mães são filhas das filhas/ e as filhas são mães das mães/ uma mãe lava a cabeça da outra […]”.

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Serviço
Um Jogo Bastante Perigoso
Adília Lopes
Editora Moinhos
Quanto: R$ 35
Onde comprar: editoramoinhos.com.br

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Juliana Guedes é professora de literatura, desde 2012. Atualmente, faz curso de doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Escreve poemas, contos e atua, também, como mediadora de leitura em projetos literários. Gosta de museus, pinturas e músicas clássicas. Ela assina, mensalmente, a coluna Tudo é Poesia, no Blog Leituras da Bel, escrevendo sobre poesia portuguesa moderna e contemporânea, feita por mulheres.

 

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