Leituras da Bel

Tudo é Poesia: Fiama Hasse Pais Brandão

Por Juliana Guedes*

As obras da poetisa portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão estão todas do outro lado do oceano. Em mãos, tive a oportunidade de ler uma antologia importada, publicada em 1986, reunida pela própria escritora, e intitulada: F, de Fiama. Neste livro, temos versos, desde a sua estreia com Morfismos, lançado em 1961 – estas poesias foram publicadas na coletânea Poesia 61, ao lado de vários escritores, que buscavam uma tendência poética de meditar às palavras, por elas próprias – até, Âmago I, de 1985, contando com uma parte isolada, quiçá, inédita, para a época, denominada Ó Túmulo, Ó Vagas, sem data.

Muito além da fronteira da morte, a poetisa circula na dicotomia: dia e noite, tocando à realidade, com imagens metafóricas fulgurantes e desnudando a linguagem, em busca de algo mais primevo.

Do instagram @julianaliteraria

A claridade – tema constantemente utilizado  na poesia de Fiama Hasse Pais Brandão – é empregada à palavra poética, para encontrar: “correspondências de metáforas vazias” (p. 58) e “a evaporação da luz que prolonga a meditação metafórica” (p. 55). O brilho, embora opaco, da linguagem, desvenda superfícies do entorno da realidade, trazendo um contato mais íntimo no decurso do dia, uma intimidade perdida no mau uso das palavras cotidianas, deixando ao lado o ordinário e esvaziando o verso até o primitivo da língua.

Nada é cru, os poemas são repletos de folhagens, rios abertos, penumbras, sol, muita iluminação, mar, florestas, madeiras e terra, deixando claro que “toda emoção desmedida é incomensurável mas finita” (p. 27). Não enxergo metafísica na poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, percebo muito mais um contato direto e lúcido ante o real, através dos sons e das pinturas do ato de criação do poema. Não são nas vozes das pessoas da rua que se faz o poema, mas no som abstrato da brancura da noite ou do embaço do dia, quiçá, nos gritos das crianças.

A poesia moderna de Fiama Hasse Pais Brandão dialoga, constantemente, com o acúmulo de sua própria bagagem leitora, desde as epopeias gregas até a Bíblia, percorrendo também nomes da tradição portuguesa, por exemplo, Fernando Pessoa, e poetas americanos, tais como, William Blake: “por muito que a minha escrita decalque as páginas de/ fernando pessoa” (p. 30). Não esqueçamos do contato direto que a poetisa tinha com a dramaturgia, inclusive, nesta antologia há uma referência ao diretor austríaco Max Reinhardt: “De max reinhardt recebi, uma vez mais, a realidade;” (p. 35).

Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama, morta em 2007, foi casada com o poeta Gastão Cruz, ainda atuante na cena literária portuguesa atual. Ambos foram fundadores da companhia de teatro Grupo de Teatro de Letras, encenando até mesmo autores traduzidos pela poetisa lusitana, como Tchekov.

Em F, de Fiama estão reunidos poemas de dez obras poéticas. Desta antologia, destacamos a obra “Área Branca”, de 1979, pois é perceptível a conexão do eu-lírico com o próprio ato de criação da poesia. Dito de outra forma, a poesia é transmutada em poética, pois os próprios poemas perseguem a poesia, ligando Fiama, poeta/criadora, ao real, poesia/criação. A realidade é moldada através de um contato mais direto com a terra, criticando e repensando as teorias e figuras de pensamento: “as figuras de estilística/ não são figuradas. De dentro/ da minha orelha posso extrair/ a abelha dourada. Mas não desejo sacrificar-me às metáforas” (p. 77).

Um dos destaques, na estrutura visual desta antologia são os traços, riscados em negrito com linhas longas, entre um verso e outro, a posição horizontal de leitura de alguns poemas e a mudança na estrutura morfológica das palavras, ou seja, Fiama Hasse Pais Brandão junta palavras, como se fossem uma só, quiçá, uma tentativa de “monossilabar”, criar uma nova composição: “[…] estásó/como a solidão desteverso./Louca pelo calor dobarranco/ quesei da teoria do verso/ a não ser nada? […]” (p. 59).

***

* Juliana Guedes é professora de literatura, desde 2012. Atualmente, faz curso de doutorado em literatura comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Escreve poemas, contos e atua, também, como mediadora de leitura, em projetos literários. Gosta de museus, pinturas e músicas clássicas. Ela assina, mensalmente, a coluna Tudo é Poesia, no blog Leituras da Bel, escrevendo sobre poesia portuguesa moderna e contemporânea, feita por mulheres.

 

Recomendado para você

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × cinco =