Leituras da Bel

Leia “Carta para uma desconhecida minha”, texto da escritora Luana Braga

Por Luana Braga*

Foto de Luana Braga

Carta para uma desconhecida minha

Oi.
Eu não sei seu nome.
Mas aposto que ele te recebeu com um sorriso.

E aposto que ele não te deu um beijo na boca logo de cara. É que ele não deve estar querendo te passar uma outra impressão.

E aposto que o abraço com o qual ele te recebeu deve ter sido seguido por um beijo meio divertido, meio sem-jeito. É que é exato assim que ele conquista todas as moças.

Depois que tu entrou no nosso apartamento, aposto que ele fez algum comentário sobre a porta de entrada ser uma corta-fogo, sobre ainda não ter sido pintada e sobre a casa estar meio bagunçada. É que ele gosta mesmo de passar essa impressão boba de ser organizado, apesar de deixar o cabelo sempre meticulosamente desgrenhado.

Ele gosta mesmo desses opostos.

Depois disso, aposto que ele te chamou na cozinha só pra te mostrar que ele havia passado no verdemar um pouco antes de tu ter chegar. E que havia trazido uma japonesa pra vocês dois. E aposto que ele comentou que esperava que tu gostasse de comida asiática.

Pra te deixar à vontade, que era pra você ficar lhe fazendo companhia na cozinha, aposto que ele abriu um vinho chileno pra vocês. Ou um uruguaio. É que a gente comprou algumas garrafas quando fomos pra lá, nas férias do início do ano.

É que é a cara dele fazer bem assim.

Também aposto que logo em seguida ele te ofereceu umas lascas do queijo que ele próprio curou. E ele deve ter adorado te contar tudo sobre isso. E, também, sobre a nova máquina de passar café que ele comprou com os dotz dele que estavam pra vencer. E que ele ficou muito em dúvida sobre o que comprar lá na hora. E, ainda, vai contar alguma coisa engraçada que a moça falou bem na hora, lá no supernosso.

Aí, aposto que, depois, ele te contou sobre qualquer coisa do trabalho dele. Você não vão rir muito disso, mas ele vai deixar no ar a impressão de que ele leva o trabalho numa boa. Do quanto ele é leve e relaxado sobre isso.

Depois, ele vai emendar sobre qualquer coisa estar presa no teu cabelo. É assim que é aí chegar mais perto. Mas ele não vai te beijar. Ainda. Ele só queria mesmo checar se há tesão fidedigno. E aposto que bem nessa hora vocês vão rir juntos, de algo meio sem graça que ele vai inventar na hora.

Talvez ele fale dos tucanos que voam bem na frente da janela da cozinha. Ou de quando apareceu uma barata voadora enorme. Bom, talvez ele não fale disso, mas essa história é ótima.

Enquanto ele leva as taças de vocês pra sala, aposto que vai se seguir um leve silêncio. Mas nada muito constrangedor. É que vai ser bem neste instante que tu vai fingir que não notou uma foto nossa juntos, na geladeira.

Ela é bem pequena. Uma foto que ele mandou fazer um imã. Algo quase desimportante. Mas tu vai saber sim o que viu. E é bom que tu saiba que também ele vai fingir que não viu que tu fingiu que não viu.

Mas pra cortar esse clima, aposto que ele vai te chamar pra ir pra varanda. Pra se sentar no chão da varanda. No chão forrado com uma toalha que ele ganhou de um dos clientes, no ano passado. Ou, talvez, ele coloque lá o colchão do último quarto.

Lá na nossa varanda, que eu ajudei a decorar.

Sabe aquele quadrinho azulejado, pintado com motivos de xilogravura do cariri, em preto e branco? Fui eu quem ajudou a colocar ali.

Deitados no colchão, vocês vão olhar o céu. É bonito.

Aí, ele vai te contar sobre uma vez quando ele ainda era criança, lá em três-marias, e que ele, o irmão e o riba, o melhor amigo dele, se sujaram inteiros de lama, e até entraram mesmo na poça suja, na rua. E ele vai morrer de rir e dizer que era assim que ele assustava as pessoas que passavam na calçada ao lado.

E vocês vão rir juntos.

Talvez, nessa hora, ele segure teu rosto de lado. Olhe incessantemente pra tua boca. E te beije.

Aproveita. É o melhor beijo do mundo. Do mundo todo.

Ou, aposto que ele vai te contar sobre como ele e o irmão já aprontaram muito quando ainda moravam na rua-cristina. E aposto que, bem nessa hora, ele vai se lembrar que esqueceu de colocar uma música. Nós temos uma caixa de som, dessas profissionais, bem no meio da sala. Ele vai te perguntar se tu gosta de Alceu Valença. Ou de Tulipa Ruiz. Mas ele vai colocar uma salsa cubana pra tocar. Bem baixinho. Nada complicado. Não é pra exatamente dançar. É só pra fazer um clima caliente.

E aposto que vocês vão acabar se consolando, um no colo do outro. É que, talvez, ele fale um pouco mal de mim.

Mas, saiba, é só pra despertar em ti esse desejo latente e feminino do cuidar.

Nós duas sabemos do que eu tô falando.

E aposto que, depois de um beijo mais demorado e quente, vocês vão começar a tirar a roupa. Talvez, na varanda mesmo. E, talvez, tu nem vá ligar pra vizinhança.

Mas, em seguida, vocês dois irão preferir ir pro nosso quarto. É que tudo pode ficar muito revelador de uma hora pra outra.

Sabe, ele vai ser sempre muito envolvente e quente. E aposto que ele sempre vai saber tirar a tua roupa com uma maestria que é só dele.

E aposto que ele vai conseguir te fazer se sentir mesmo especial. A noite inteira.

***

Luana Braga
É escritora, fotógrafa, ilustradora e compositora. É autora dos vídeos-poema “Carnaval em mim”, “Viagens Insólitas”, “Saudade” e “Simples quando”, todos disponíveis no seu canal no YouTube. Fez músicas em parceria com Joyce Custódio, Jord Guedes, Guilherme Cunha, Charles Wellington e Pedro Falcão. A cada quinze dias, e junto a Carolina Capasso e Marta Pinheiro, produz o sarau itinerante “Casa de Poesia”. Todas as quartas-feiras publica seus poemas no blog Leituras da Bel, do O POVO; e teve poemas seus publicados na Revista Maracajá, suplemento literário do O POVO. Recentemente, teve seu material literário-fotográfico “Nunca mais eu digo: eu te amo” exposto na Galeria de Arte do Ibeu; e, atualmente, o mesmo material encontra-se disponível para visitação, na Livraria Lamarca, e para download pelo link https://is.gd/JAXs1A. É de sua autoria a galeria @insolitaviagem, no Instagram.

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