Leituras da Bel

“oração (esboço)”: poema de Sara Síntique para o Leituras da Bel

oração (esboço)

*Por Sara Síntique

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

quando julia raiz escreveu abre aspas
é preciso me convencer todos os dias
que escrever vale estar acordada fecha aspas fiz dessa fala um mantra e acresci rabiscando no caderno ler poemas julia também me vale o acordar foi quintana quem me fez crer na poesia como oração possível um aproximar-se de deus mesmo quando o poema se distancia dele e eu tenho isso de crer em deus esse mistério e desde então também no poema de um jeito muito particular sobre deus não me estendo coisa de se falar um outro dia em desobediência já que pensar em deus é desobedecer a deus como disse caeiro aqui vim mesmo foi dizer da oração ou seja quando barbara costa ribeiro escreve que é possível ser feliz na ocupação é possível dançar ao fazer resistência é possível antes que tudo que é de nosso direito direito do povo antes que tudo seja sucateado ser feliz é possível dançar a revolução dançar o amor e danço danço quando galeano fala numa entrevista da menina conversando com as graminhas isso de toda criança muito ninha ser poeta e ele estava de luto pelo seu cão tão íntimo e foi andar na rua a dor a esmo e a menina surge ali falando com as graminhas e preciso desespero qualquer coisa na intenção de um riso teu que nem crê em deus mas crê na poesia digo no meio desse caos estamos de luto e tudo nos pesa mas digo por causa disso de galeano de alguma menina que deve estar a buen-díar as graminhas até que por fim você esboça um sorriso que é amarelo eu sei e por isso mesmo esse riso é a flor no asfalto de drummond quando pucheu escreve abre aspas é preciso aprender a ficar submerso é preciso aprender a aguentar é preciso aguentar fecha aspas outro mantra se nos revela aprendo outro fôlego quando domeneck desassossega com miscasting até nos trazer as nuvens de hilda machado eu que sinto tanto essa raiva abre aspas estou entregando o cargo onde é que assino fecha aspas porra onde é que assino mas ela não se entrega mesmo puta não se entrega quando nina rizzi realiza os im/possíveis da tradução de pizarnik um presente assim quando nos é dado a obra desse monstro mulher a obra inteira com as reflexões os processos do trabalho um presente assim esse barco que partiu de mim levando-me levando-me levando-me até quando mika andrade escancara o olho de lilith bem de quatro na cara dos caretas quando szymborska avisa do fim e do início abre aspas depois de toda guerra alguém tem que fazer a faxina as coisas não vão se ajeitar sozinhas fecha aspas não vão está avisado não vão quando lubi prates grita você nunca esteve diante do horror pergunto quem ainda consegue fechar os olhos desse jeito quem quem quando waly diz minha alegria abre aspas um diamante gerado pela combustão como rescaldo final de incêndio fecha aspas eu te acolho minha alegria e te sinto e quase até te compreendo quando adelaide ivánova fala de fred e de eva e dela mesma e indaga o que os une para além do endereço talvez aposentadorias chochas ou seria o medo do despejo tantas coisas own mlr own bisha eu também quando estou triste bebo sozinha em casa e nesses dias intermináveis de um silêncio operante de um silêncio ruído quando huidobro para quem a poesia é um atentado celeste diz abre aspas há que guardar silêncio esperar em silêncio fecha aspas deixo ecoar ecoar o silêncio esse silêncio puro cheio em soco até que devenha outra coisa tudo isso que a palavra gera por gesto e então fechar os olhos como quando tércia montenegro nos faz saber outra verdade que o silêncio não existe e que os sons vibram nas células se eu deixar então eu deixo tércia deixo e me entrego à experiência são tantas as vozes e tão remotas são perdoai os vazios talvez nem possa dizer amém e que assim seja mas talvez devesse confessar ainda que só assim poesia vivo o milagre

***

Sara Síntique
É escritora, atriz e professora. Autora dos livros ÁGUA ou testamento lírico a dias escassos (Ellenismos, 2019) e Corpo Nulo (Substânsia, 2015). Tem textos publicados na antologia O olho de Lilith (Ferina, 2019), na CULT Antologia Poética n.2 (REVISTA CULT, 2019) e em diversas revistas. É mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês.

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