Leituras da Bel

Leia “Leitura x Interação: Questões para quem produz conteúdo de Literatura na internet”, análise de Talles Azigon

Por Talles Azigon

Interação não significa leitura. As regras da interação são baseadas em estímulos, respostas. Alguém insere um conteúdo na internet (estímulo) para receber como resposta uma interação, compensação do estímulo. A gratificação pode vir, a depender da rede social ou da plataforma escolhida, em formato de curtida, compartilhamento, salve e afins.

Como produtores de conteúdos relativos a leitura e literatura uma questão a se fazer é: desejo interações ou leituras?

Não se trata de uma hierarquização, afinal, você pode ter finalidades distintas para seu conteúdo. Talvez você deseje estabelecer-se de modo comercial, sabendo que o número maior de interação resulta, como comprovado por alguns publicitários e profissionais do marketing digital, em vendas; talvez você não ligue para esse tipo de coisa e até veja esses artifícios das redes sociais como uma manipulação ordinária; talvez você queria apenas mostrar suas realizações artísticas e de leitura; ou talvez tudo isto ao mesmo tempo agora.

Sabemos que o número de interações aumenta as possibilidades de seu conteúdo ser realmente lido, por uma questão matemática da quantidade de exposição. Mas não é uma garantia plena, como não é garantia a qualidade dessa leitura ou dos seus desdobramentos.
Produzir conteúdos de leitura e literatura, principalmente escrita literária na internet, é como escrever em um muro de um centro comercial metropolitano, onde passam milhares de pessoas apressadas, todos os dias, distraídas. O modo desse escrito e a qualidade do muro de fato influencia, e pode conquistar mais atenção. Assim como a atualidade, a relevância do que está escrito para as pessoas que são capturadas por um instante.

A internet são as ruas movimentadas deste centro, não é garantia alguma que você será lido, só porque agrega milhões, bilhões de pessoas conectadas, e isso pode causar bastante frustração aos desavisados.

Há alguns modos de você conseguir aumentar suas interações – com um custo, seja de dinheiro ou de tempo. O primeiro é pagando para redes sociais, para que ela exponha por mais tempo e para mais pessoas seu conteúdo. Os donos das redes sociais manipulam isso propositalmente, e farão de tudo, caso você entre nessa relação comercial, de arrancar de você o maior dinheiro possível, quase como se fosse um cassino, principalmente se você tem pouco dinheiro, e faz isso sozinho, sem auxílio de uma profissional social mídia.

Lembre, você é apenas um número num mar de algoritmos nada honestos e que as interações nas redes socias foram feitas para você consumir e gastar, seu tempo e seu dinheiro, fazendo de você um produto e um consumidor ao mesmo tempo, tirando de você o máximo que eles puderem.

Outro modo é desenvolver ações com intenções de reciprocidade, ler o texto de outras produtoras de conteúdo, esperando que ela leia os seus conteúdos, falar de outros produtores de conteúdo, esperando que ele fale dos seus conteúdos, curtir para ser curtido, compartilhar para ser compartilhado. Mesmo aqui é necessária uma estratégia, não adianta mirar nos grandes se você é ainda pequeno e não oferece uma base de seguidores.

Esse clima de camaradagem já foi muito presente na blogsfera pelos idos de 2010, quando boa parte dos blogs eram ativos, feitos por pessoas físicas sem intenções comerciais. A internet virou um território muito comercial, e os algoritmos a cada ano ficaram cada vez menos interessados em coisas que não sejam roubar seus dados e te viciar, por isso investem em superficialidade e em ações rápidas, como as visuais e audiovisuais, em detrimento de ações que exigem um pouco mais de atenção e dedicação como a escrita.

Essa técnica da troca também pode te viciar em uma superficialidade, fazendo com que você curta, comente e compartilhe coisas que você não leu.

Uma terceira via é se tornar parte ou fundar comunidades interativas, que são menores, reúne pessoas por questões afetivas ou de interesses comuns, como os grupos, ou as extintas comunidades do Orkut. De uma maneira não tão delimitada, você pode simplesmente selecionar um número possível de outras pessoas interessadas no conteúdo que você produz e que você verdadeiramente consiga dar conta de interagir de modo mais sincero e profundo.

Essa estratégia pode gerar mais laços afetivos, leituras, mesmo não sendo uma garantia de grande quantidade de interações. Entretanto forma uma base que você pode ir aos poucos expandindo, o que vai te custar um bom tempo, pois na internet, assim como na vida, não existe mágica, tudo é trabalho, dedicação.

A internet ainda é machista, racista, elitista, se você for uma pessoa esteticamente dentro do padrão, se você for de classe média, classe média alta, você vai partir em vantagem, por questões educacionais, quem tem acesso aos recursos tem acesso ao letramento digital, tem acesso aos dispositivos mais eficientes. Contudo, na internet também há espaço para inteligência, criatividade e para o talento, assim como para a aleatoriedade, que faz como que algumas pessoas, por acaso, alcancem seus quinze minutos de fama.

Em um mundo sem isolamento social, e sem pandemia, eu recomendo você a misturar estratégias offline e online, frequentando os lugares e os espaços relativos ao tipo de conteúdo que você produz, fazendo parte de projetos e atividades que gerem grupos e estabeleçam laços afetivos, quem nos ama, quem nos admira, nos divulga gratuitamente, pois fazemos o mesmo, uma reciprocidade desinteressada que é saudável e desejada. Em nosso contexto de pandemia, participar de oficinas, de encontros, de saraus, principalmente os que são feitos em videoconferência, que possibilita mais interação entre as pessoas, talvez seja um bom substitutivo por enquanto.

Eu observo que na era tiktok, infestada por adolescentes que são cada vez mais estimulados a serem superficiais, as pessoas que conseguem fugir dessa superficialidade, estão cada vez mais desejosas de conteúdos de qualidade, então a aposta que eu faria, tendo 15 anos dentro da internet, é que você invista em você mesmo, melhore sua escrita, seu conteúdo, a qualidade do que você diz, em alguns anos a qualidade vai conseguir se sobressair diante o saturamento da superficialidade. Mas essa também é uma aposta arriscada, talvez a tolice vença, afinal, a mercado está do lado da tolice, mas você acha que realmente compensa?

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Talles Azigon
Poeta, editor, criador da Livro Livre Curió – Biblioteca Comunitária. Foi o organizador do livro Ruma, poemas de Saraus. Autor de quatro livros, entre eles o projeto Saral. @tallesazigon

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