Plínio Bortolotti

Revolta da cultura

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Com o título acima e a respectiva ilustração, recebi do artista plástico Hélio Rôla mais uma Rolanet, sempre corrosivas:

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«…dias atrás produtores culturais, artistas, intelectuais e várias outras pessoas se declararam incomodados com o trabalho que a Semam vem realizando para trazer um pouco de silêncio à essa cidade na qual o desvairio empresarial do turismo sócio-corrosivo e predador do ambiente e em nome da cultura, como dizem, tomou de conta dela e a mergulhou num diluvio acústico abusivo e fora da lei …

O desagrado dos atingidos e o apoio de alguns é compreensível mas há muito mais a se considerar nessa questão, ainda mais quando não há dúvida de que O silêncio é um bem comum e o barulho, não… …Claro que ninguém, indivíduo ou empresa, se conforma em ser admoestado pela lei, mesmo que não tenha razão… Na minha experiência de vida, vivendo longos anos sob violência sonora na praia de Iracema e alhures, jamais vi sequer um dono de bar ou de casa de Show, teatro, micaretas e etc… admitir que seu negócio cultural violentava e degradava o viver da vizinhança e não seguia a lei…

Enfim, na ocasião, na Biblioteca Pública, a Semam deu exemplos claros e irrefutáveis e os nominou dizendo que não fez interferências anti-som sem antes avisar os estabelecimentos que ora se sentem prejudicados… Outra coisa: a história nos conta que muitos dos que poderiam dizer e fazer algo para amenizar a barbárie de Iracema ficaram calados e até aderiram de corpo-e -alma à agressão socioambiental enquanto seguia e se aprofundava o plano sinistro e obstinado do turismo em desmanchar de maneira radical e sem apelação a vida residencial da praia de Iracema…Tudo isso se deu sob um danoso clima de indigência cívica que, por omissão interessada(?) de autoridades e despreparo técnico das administrações, tudo legitimou e qualquer desmando em nome da cultura e do turismo virou “tradição” e “patrimônio da humanidade”… Aí está a praia de Iracema hoje como peixe-fora-d’agua que não nos deixa mentir …Nem mesmo o Estoril, a alma mater da boemia cult, resistiu ao tranco bronco da cultura dura e caiu morta nos braços do forró-lambada que logo aterrou a piscininha…

Será que existe alguma maneira de fazermos nossa arte/cultura sem transformá-la em um flagelo socioambiental? Será que Existe?

Coisa recente, vejam só em que tempos vivemos: lastimável e descabida foi a intervenção do atual Vice-Prefeito de Fortaleza, meu Deus! desautorizando e obstruindo as ações da Semam, uma Secretaria da própria Prefeitura durante uma missão para fazer valer as normas dirigidas ao controle da poluição sonora na cidade de Fortaleza. Desta feita o som além da conta procedia de uma festa no Iate Club…alguém da vizinhança, um munícipe que paga seus impostos se sentiu incomodado e se manifestou, fez queixa, fez BO e deu nessa confusão que aí está em andamento. Agora veremos o que o Ministério Público Estadual vai fazer.

Senhor Aurélio Brito, apoio integralmente as ações da Semam para civilizar essa selva de SOOOMMMM que é a nossa cidade…O barulho é subdesenvolvimento, é lixo! Não nos apercebemos disso ainda, esse é o nosso problema…estaria aí a nossa segunda natureza, A mente paredão?

Pra terminar, um “poema” feito na praia de Iracema no início dos anos 1990 época em que a Semace mediu 90 decibéis ( Guinnes Book of Records..?) numa segunda-feira “daquelas” na rua dos Carirís na entrada da ponte dos Ingleses…

Cultura quebra-mar

ou

Cultura ma non troppo

Cultura? Claro que quero!

Só não quero é ela

além da conta e sem jeito

atravessando parede

estourando ouvidos

descendo goela abaixo

ou de olhos adentro

nem se espalhando corpo afora

sem que eu

nada mais possa fazer

senão arte

pra me livrar dela

Saudações da pARTE do Hélio Rôla

1 comentário

  • Felipe Lima disse:

    A degradação do meio ambiente torna viável muitas atividades econômicas que seriam extremamente caras – para os proprietários e, por consequência, para os clientes.

    Uma casa de show que invista em condicionamento acústico apropriado, de forma a manter silêncio absoluto em seu exterior e o som ensurdecedor em seu inteior, teria que investir muito, muito dinheiro para isso. Isso elevaria o custo do ingresso de forma que inviabilizaria o negócio. Ora, vê-se, portanto, que o negócio seria, por essência, inviável. Mas ao não despender de tanto dinheiro, o negócio se torna possível e lucrativo, ignorando esse aspecto, com o auxílio da omissão do Poder Público.

    Da mesma forma, um vendedor autônomo de côco teria de dar um destino ao resíduo céptico de sua atividade, o que oneraria seu negócio e não permitiria que ele vendesse uma iguaria a apenas R$ 1,00. Ao poluir o meio ambiente, ele viabiliza seu negócio e maximiza seu lucro. E, pelo côco, nós entregamos um real e nossas calçadas. Que tal?

    Só se paga o preço do outdoor porque são muitos. Se fossem poucos, seriam mais caros. Nem os anunciantes pagariam e nem as empresas de publicidade conseguiriam sustentar esse produto. Então, o desrespeito à lei garante a sustentabilidade desse negócio também.

    Poluir – visual, físico, sonoro – é um bom negócio, no aspecto financeiro.

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