Plínio Bortolotti

Sutil perversidadade de Veronica Stigger

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Na próxima quinta-feira (29/7/2010) estará em Fortaleza a escritora gaúcha Veronica Stigger. Ele vai lançar seu mais recente livro “Os Anões”, em uma atividade promovida pelo O POVO e a Livraria Cultura, onde ela vai autografar o livro, a partir das 18h.

Segue apresentação da escritora e entrevista com ela, preparadas, a meu pedido, pela editora das Edições Demócrio Rocha Regina Ribeiro.

Sutil perversidade

Regina Ribeiro

O POVO e a Livraria Cultura convidam a escritora Veronica Stigger para bate-papo e lançamento do seu novo livro “Os Anões”, dia 29 (quinta-feira), às 18 horas, na Livraria Cultura

Os personagens criados por Veronica Stigger trazem em si um quê de perverso, surgem em espaços comuns e inusitados, comandam corpos mutilados, comprimem-se em orifícios, disputam desesperos. A linguagem pincela cenários múltiplos de uma literatura que não tem pouso certo e que extrai da diversidade os inúmeros jeitos de contar uma história.

Livro negro

“Os Anões” (Cosac Naify), terceiro livro de Veronica, que será lançado em Fortaleza, na Livraria Cultural, dia 29, vem negro, 60 páginas em papel cartonado. Lembra um pequeno livro feito para crianças. Pura impressão. A autora mantém vivo o retrato da violência banal que permeia as relações, marca das metrópoles, e que interliga seus livros “O trágico e outras comédias” (7 Letras) e “Gran cabaret demenzial” (Cosac Naify) e o recém publicado “Os Anões”.

Linchamento na padaria

Assim, um casal de anões é linchado no interior de uma padaria. Os restos de carne esmagada a chutes e pontapés e a substância aquosa que escorre do crânio dos anões viram simples lixo que precisam ser recolhidos rapidamente. Um niilismo latente encontra brechas na falsa simplicidade do cotidiano e na sua comunicação fragmentada. Suicídios em massa viram espetáculo. Como numa pintura, Veronica monta pequeninos quadros tirados de anúncios de jornal, da publicidade, dos documentos oficiais, das notícias-clichês. A linguagem trafega livre assumindo a forma que melhor convém às ideias. O resultado é uma clivagem literária que surpreende (e assombra) o leitor.

Autógrafos

Em Fortaleza, a escritora que também é crítica de arte, fala sobre sua produção literária em bate-bate e autografa o livro. A seguir o início da conversa:

Regina Ribeiro – A sua literatura faz uma conexão com várias linguagens: poesia, teatro, roteiro de cinema. Como você escolhe a linguagem para cada narrativa?

Veronica Stigger – O gênero ou a forma com que irei trabalhar numa dada narrativa ou poema, peça teatral, roteiro cinematográfico, depoimento, anúncio classificado etc. não é escolhido a priori, mas determinado pela história que quero contar. Trocando em miúdos: primeiro tenho uma ideia, depois penso qual será a melhor forma de realizar essa ideia; em outras palavras, qual a melhor forma de contar uma determinada história: será um narrador em primeira pessoa ou em terceira pessoa? a partir de que ponto de vista será montada a narrativa? quem serão os personagens? como serão os personagens? e assim por diante. E no decorrer deste processo o qual, para mim, é o mais demorado é que chego à forma que acredito melhor se encaixar àquela ideia.

Regina Ribeiro – O que é literatura para você?

Veronica Stigger – Borges, Kafka, Bolaño.

Regina Ribeiro – Você notou alguma semelhança entre o seu conto “Os Anões” e a história macabra de Eliza Samudio?

Veronica Stigger – O que aproxima o conto e a história da Eliza Samudio é uma violência desmedida e desnecessária. Mas, se fosse aproximar o conto “Os anões” de um fato recente do noticiário, eu o aproximaria do episódio da Geisy Arruda na Uniban. Em ambos, temos como estopim da violência desmedida e desnecessária, um espírito de linchamento, não esqueçamos que o linchamento é uma triste tradição brasileira. Em ambos, esse espí­rito de linchamento está, de certo modo, associado a um princí­pio fascista: aquele que é diferente dos demais, justamente por ser diferente, acaba massacrado. Os estudantes da universidade se acharam no direito de perseguir e ofender a menina só porque ela vestia uma roupa colorida e curta, assim como a narradora e os demais personagens do conto Os Anões se sentiram autorizados a partir para cima do casal de anões por serem estes bem estranhos. Mas, voltando ao caso da Eliza Samudio, eu diria que este tem mais a ver com o conto Quand avez-vous le plus souffert?, no qual uma mãe mata a própria filha; no fundo de toda essa história, não só da Eliza mas também do Bruno e dos outros personagens envolvidos, parece haver um processo semelhante. Vivemos numa sociedade que mata suas crianças, mesmo quando elas, por sorte ou teimosia, parecem sobreviver.

[A foto, peguei na internet, espero que seja de “divulgação”.]

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