Plínio Bortolotti

Trapalhadas no Enem

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Arte de Hélio Rôla (clique para ampliar)

Para o artigo de amanhã no O POVO estava me preparando para escrever sobre o Enem, a cujas provas mais de três milhões de jovens foram submetidos no fim de semana. Mas, li o artigo de Elio Gaspari, publicado na edição de hoje (10/11/2010) e, creio, ele disse o essencial.

Vou apenas alinhavar alguns diálogos que travei ontem, no Twitter, principalmente com Guilherme Sampaio (@VerGuilherme), vereador do PT, cuja profissão é educador, e com Felipe Araújo (felipe77araujo), gerente do projetos para a Copa do Mundo (pela Prefeitura de Fortaleza).

Isso sem falar na deliberação definitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que o Enem foi “um sucesso” – o que não merece nem comentários -, prefiro considerar a declaração do presidente como mero chute de quem ainda, talvez, não tenha tomado o pulso da situação para verificar a sua gravidade.

Pois bem, um dos principais argumentos que surge daqueles que dizem que os problemas do Enem foram insignificantes é dizer que “apenas” 0,6% dos estudantes foram prejudicados pela duplicidade de questões e a numeração errada das páginas da  “prova amarela”. Aqui, eles se esquecem que também houve confusão em outro tanto de provas, pois o cabeçalho do cartão resposta diferia daquele que estava nas folhas da prova.

Mas, ora, se fosse apenas um estudante, o negócio já seria grave.

Além do mais, os que dizem que os problemas são de menor monta se esquecem que todos, eu disse todos, os estudantes – e não só aqueles diretamente atingidos – vivem a vida em um permanente suspense, entre as decisões judiciais e as “explicações” do ministro da Educação, Fernando Haddad e do presidente do Inep (ou inepto, com e sem trocadilho), Joaquim José Soares Neto. O presidente do Inep parece meio perdido; o minstro da Educação se apresenta mais liso que um peixe ensaboado.

Outro argumento que surge é a grandiosidade do evento, que mobiliza milhões de jovens em todo o Brasil. Aqui vale aquela máxima: quem não tem competência não se estabelece. Se não há como fazer a prova nesses moldes, que não se faça – enquanto todos os problemas não forem mapeados.

A propósito

Quando foi lançada a ideia do Enem eu estava entre os que defenderam a nova modalidade. Ainda acho que, com aperfeiçoamentos – por exemplo: mais de uma prova por ano – o sistema é bem melhor e mais justo do que o antigo vestibular. Mas, se continuar assim, os seguidos erros vão colocar a perder uma boa iniciativa.

Recomendo também a leitura de Que nota é esta?, na qual o educador Mateus Prado explica a Teoria da Resposta ao Item (TRI), explicação que o MEC está dando para garantir que somente os estudantes da “prova amarela” errada fizerem novo exame, o nível de dificuldade será igual das outras provas.

Veja, a seguir, o artigo de Elio Gaspari.

Os educatecas do Enem levaram bomba
ELIO GASPARI
Pulbicado na Folha de S.Paulo e no O POVO – 10/11/2010

O PRESIDENTE do Inep, Joaquim José Soares Neto, titular da lambança ocorrida com a prova do Enem, deveria ter pedido demissão no sábado, desculpando-se aos 3 milhões de jovens cuja vida atrapalhou. Não tendo-o feito, o ministro da Educação, Fernando Haddad, deveria tê-lo demitido na segunda-feira. Não tendo-o feito, Haddad deveria ter pedido demissão ontem.

Os educatecas do Inep e Haddad mostraram que um raio cai duas vezes no mesmo lugar. No ano passado, uma sucessão de prepotências e inépcias transformaram o projeto do Enem como substituto do vestibular num dos maiores fracassos do governo Lula. O ministro culpou a lei das licitações. Livrou-se dela e foi de Waterloo para Stalingrado.

O educateca pernóstico é o sujeito que inventa um teste de “linguagem, códigos e suas tecnologias” para designar aquilo que se chamava prova de português. É um chato, mas não faz mal a ninguém. Maligno é o educateca com alma de bedel. O doutor Soares Neto, por exemplo.

O Inep proibiu que os estudantes levassem lápis para a prova. Com isso tirou o direito da garotada de rabiscar cálculos e anotações à margem da prova. Na hora de aporrinhar, o educateca pode tudo. Na hora de fazer o seu serviço, pode nada.

O dia do Enem é uma jornada de tensão na vida de milhões de jovens e de suas famílias. A nota do teste habilita os estudantes para as bolsas do ProUni e em muitos casos determina-lhes o futuro. Nessa hora, em vez de o poder público aparecer com uma face benevolente, vem com os dentes de fora.

Em 2009 furtaram-se as provas; em 2010, inverteram-se os gabaritos e distribuíram-se exames com questões repetidas ou inexistentes. Segundo o MEC, a responsabilidade é da gráfica. Segundo a gráfica, a lambança atingiu apenas 0,33% dos 10 milhões de cadernos. Conclusão: 100% da culpa é das vítimas.

Descobertos os erros, não ocorreu aos doutores tirar dos portais do Inep e do MEC uma autoglorificação do doutor Soares José Neto Joaquim: “O primeiro dia de provas do Enem transcorreu em normalidade”. Segundo ele, a lambança “de forma alguma prejudica a credibilidade do Enem”. Empulhação.

No dia seguinte, ameaçaram chamar a Polícia Federal para xeretar tuiteiros. (A propósito, inversões são um estorvo. O nome do educateca é Joaquim José Soares Neto.)

O ministro Fernando Haddad foi de Waterloo para Stalingrado porque acreditou nas próprias promessas. Quis fazer uma coisa, fez outra, deu errado em 2009 e voltou a dar errado em 2010. Quando o Enem/ Vestibular foi lançado, a garotada poderia fazer a prova duas vezes por ano, talvez três. Desistiram, preservando a máquina de moer carne, obrigando o jovem a jogar seu futuro num só fim de semana.

Haddad e o Inep sabem que um similar americano do Enem, o SAT, é oferecido à garotada em sete ocasiões ao longo do ano. O teste é feito on-line e as questões são praticamente individuais, complicando-se conforme o desempenho do estudante. Os educatecas não gostam desse exame, porque os obrigaria a trabalhar muito mais, expandindo seu acervo de questões e obrigando-os a conviver com uma cultura de provas eletrônicas, abandonando o método medieval do papel e caneta (lápis é proibido).

Burocrata gosta é de assinar contrato, de preferência sem licitação. Deu no que deu.

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