Plínio Bortolotti

“Eu não sou ditador”, palavra dos governadores

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Meu artigo publicado na edição de hoje (1º/8/2013) do O POVO.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla (clique para ampliar)

“Eu não sou ditador”
Plínio Bortolotti

Parece cada vez mais claro que os políticos pouco entenderam das manifestações populares que varreram o país no mês de junho, cujo efeito ainda se sentirá por longo tempo.

Em diferença de poucos dias, dois governadores deram a conhecer ao distinto público que não são ditadores. “Não tenho vocação para ditador”, disse o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB); foi seguido pelo seu homólogo do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB): “Não sou ditador”. Os dois chefes de Executivo procuram negar a rima das ruas: “Ô, ô, ô (ponha o nome do governador ou prefeito) é ditador”.

A imagem da qual eles procuram se afastar é do ditador típico: o sujeito que dispõe de poderes absolutos, à revelia de qualquer controle. Por óbvio, não é isso que os manifestantes têm em mente, a maioria deles nem viveu sob a ditadura, felizmente.

A queixa é contra a velha prática, rapidamente incorporada por jovens governantes, de acharem que eleição é um cheque pré-datado, cujo resgate só ocorre de quatro em quatro anos. Nesse ínterim, estariam livres para fazer o que quisessem, sem prestar contas a ninguém: seja para construir um aquário, erguer um viaduto, demolir um museu de índios ou deslocar pessoas.

Tudo sem nenhum tipo de diálogo. O poder transforma-se assim em um circuito fechado, no qual só entram poucos amigos, submissos à vontade do rei, que não tem o poder do ditador clássicos, mais ainda tem muita força, pois é “dono da caneta”, vizinha da arrogância típica dos “escolhidos”, não somente pelo voto, mas também pela providência.

Esse tempo está passando, mas como sempre acontece nas grandes mudanças, o poder é o último a ouvir o barulho da ficha caindo.

PS. O imposto sobre herança no Brasil vai até 8%, dependendo do estado e do valor herdado. No artigo da semana passada, escrevi que variaria entre 2,5% e 6%; fui corrigido pelo leitor Haroldo Perdigão, auditor fiscal da Secretaria da Fazenda do Ceará, a quem agradeço.

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2 Comentários

  • reuber vieira disse:

    muito bem colocado! O Cid é ditador!

  • Inês Vieira disse:

    . Parabéns pela coragem!, especialmente, porque está em falta o sentido público na política, ,no jornalismo, enfim O seu artigo vem ao encontro de uma indignação e impotência que o cidadão comum sente sem no entanto, poder , individualmente, exercer o enfrentamento a essa crise de representação política em que ele se vê imerso.´´É muito desigual a correlação de forças entre o poder de um cidadão se manifestar em face do aparato de uma polícia truculenta e de grupos, que se desenvolveram no contexto de autoritarismo político e agem, muitas vezes, de modo a negar o direito fundamental de todos a vivenciaram uma convivência.pautada no diálogo. em que os limites de exercer suas queixas respeite o lugar de outras ppessoas de irem e virem,,exp´ressarem opiniiões´próprias.Filhos do autoritarismo de forma equivocada, acabam tantaas vezes, se voltando contra o próprio patrimônio público. Enfim nada fácil exercer demandas por diireeitoos num contexto em que instituições cidadãs são omissas, invertem valores.

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