Plínio Bortolotti

Polícia: “Estado paralelo”

Meu artigo publicado na edição de hoje (17/10/2013)  do O POVO.

Estado paralelo
Plínio Bortolotti

Aos poucos o véu vai se levantando, deixando a descoberto o que aconteceu com o pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde o dia 14 de julho, quando foi detido por policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Tudo indica que ele foi torturado e morto por policiais da UPP.

O roteiro do que aconteceu com ele é bem conhecido, e pode ser descrito assim: a polícia detém um suspeito; o preso é levado à delegacia, onde é torturado; se, por algum “acidente de trabalho”, a vítima morre, seu corpo “desaparece”; policiais ameaçam família e amigos para que estes se calem – e tudo fica por isso mesmo.

Tais métodos de “combate ao crime” costumam ser o escandalosamente comuns nas fileiras de uma polícia que age com pouquíssimo controle das instituições democráticas. O caso do pedreiro seria mais um número jogado na rubrica da impunidade – a exemplo das mortes registradas nos famosos “auto de resistência” – se o desaparecimento dele não tivesse ocorrido no mês de julho, no rastro das manifestações que abalaram o Brasil.

A propósito, uma amostra menos selvagem desse método de a polícia agir vem sendo experimentado por manifestantes de classe média nos atos que ocorrem pelo país. São casos menos graves, comparados com tortura e morte, porém revoltantes, mostrando a face de uma polícia militarizada, que trata o civil como um ser inferior.

Em uma passeata no Rio, por exemplo, um PM, na garupa de uma moto, chama uma manifestante de “gostosa”, ela reage verbalmente, o policial volta, agrupa-se com meia dúzia de valentes homens da lei, torce o braço da moça e a leva detida. Mobilizam-se vários homens, viaturas e motos para prender a perigosa manifestante (http://goo.gl/45owAu). Esses caras são os “black blocs” oficiais: a máscara consiste em retirar a tarjeta de identificação da farda.

O fato é que, de perto, fica a impressão que ninguém manda na polícia, o verdadeiro estado paralelo no Brasil.

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