Jacopo de Varazze
[de Varazze, Jacopo, Arcebispo de Gênova, ca., 1229-1298. Legenda áurea: vidas de santos. Tradução do latim, apresentação, notas e seleção iconográfica Hilário Franco Júnior. – São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 365.]
A Hagiologia é um dos capítulos mais fascinantes da história do Cristianismo. Na narrativa da vida dos santos, muitas vezes fica difícil separar o mito dos fatos. Se essa premissa é válida para a maioria das biografias dos santos, ela se aplica tanto mais à Legenda Áurea, a clássica e monumental obra de Jocopo de Varazze. Essa constatação, entretanto, em nada diminui para mim o valor e a beleza da narrativa. Aliás, a Legenda Áurea é uma das minhas leituras prediletas. Frequentemente tenho retornado às suas páginas, desde que a adquiri há quase dez anos, em julho de 2003.
Pois bem, esse inevitável apelo ao mito é o que se observa ao ler o relato que o autor faz da vida de São Jorge. Esse é, seguramente, um dos santos mais controvertidos da Igreja Católica. De acordo com a tradição, Jorge teria sido tribuno, nascido na Capadócia, região da Ásia Menor, situada a oeste da Armênia. O próprio Jacoppo de Varazze fala da celeuma em torno da origem do Santo:
Sua legenda foi considerada apócrifa pelo concílio de Niceia devido às discrepâncias entre os relatos. O calendário de BEDA diz que ele foi martirizado na cidade persa de Diáspolis, outrora chamda Lida, e situada perto de Jope. Outras versões dizem que ele sofreu o martírio sob os imperadores Diocleciano e Maximiano. Outro autor afirma que foi na época do imperardor persa Diocleciano e na presença de oitenta reis. Outros, ainda, pretendem que foi sob o governador Daciano, no tempo de Diocleciano e Maximiano (p. 365).
Conta o autor que São Jorge foi certa vez a Silena, cidade da província da Líbia. Ali havia um grande lago onde se escondia um pestífero e enorme dragão, que só com o fedor do seu hálito matava muita gente. Para calmar sua fúria, começaram por oferecer-lhe diariamente duas ovelhas. Quando essas escassearam, passaram a oferecer uma ovelha e um rapaz ou uma moça, escolhidos por sorteio.
Chega um momento em que não mais havia moças ou rapazes para oferecer em sacrifício. Como restasse apenas a filha do rei, este, sem alternativa, teve que oferecê-la para ser sacrificada pelo dragão. É aí que aparece Jorge, o cavaleiro que, munido de uma espada e do sinal da cruz, mata a fera para poupar a vida da moça. Conta Varazze que, como recompensa, o rei ofereceu a Jorge grande quantia de dinheiro. Este, porém, recusou, pedindo que o dinheiro fosse doado aos pobres.
Acho fascinante o mito de São Jorge. A epopeia do cavaleiro que, em nome de Cristo, mata o dragão para resgatar uma moça, é cheia de significados simbólicos. O apelo do mito é tão forte que acabou por se impor no imaginário cristão, tornando-se fonte de
O fato é que, talvez, em última instância, seja este um dos grandes anseios humanos: domar as feras que habitam nossa caverna interior, que, numa perspectiva simbólica, estão condensadas, no mito de São Jorge, na figura ameaçadora e pestilenta do dragão. Nesse 23 de abril, em que se reverencia a memória do santo, só nos resta exclamar:
Salve, São Jorge! Ajude-nos a domar nossos dragões, para que possamos, senão eliminá-los – o que talvez nem seja exatamente o mais recomendável -, pelo menos aprender a conviver pacificamente com eles.
