Há um provérbio árabe que diz: Busque as pessoas e depois escolha o caminho. O caminho jamais será secundário, pois é ele o condutor da jornada. No entanto, ele não se faz a si mesmo, nem é uma trilha isolada.

Pedro Bezerra de Araújo

[Sol ao Luar / Pedro Bezerra de Araújo. – Fortaleza: RDS, 2025, p. 204.]

Cada vez que encomendo um livro, aguardo sempre com muita expectativa a alegria daquele momento em que o porteiro do condomínio interfona informando que chegou uma encomenda. Entretanto, quando isso acontece sem que eu nada houvesse encomendado, a alegria é redobrada, pois tem o sabor de uma surpresa. Foi o que me aconteceu terça-feira passada, quando recebi um pacote cujo conteúdo e remetente eu ignorava.

Ao abri-lo, deparei-me com um alentado volume de 359 páginas. Confesso que o título me intrigou um pouco. Estaria estampada naquela capa uma contradição? Ou se trataria, antes, de um paradoxo? Ou algo mais que o autor pretendera propor como enigma a ser desvelado somente ao longo da leitura? Não importa em qual dessas alternativas se enquadre, o fato é que, quanto a mim, aquele título já cumprira uma importante função, qual seja, a de aguçar a minha curiosidade, despertando-me o interesse pela leitura.

Mais um aspecto curioso. Acima do título, estavam grafados os nomes dos dois autores da publicação. Tratei logo de procurar os respectivos dados biográficos. Estranhamente, só havia informações a respeito de um deles, estando ausentes quaisquer informações, por mínimas que fossem, sobre o outro. Mais um fator a aguçar a minha curiosidade.

Motivado por essas curiosidades iniciais, lancei-me no mesmo dia à leitura. Não tardei a descobrir que aquele livro se oferecia a mim, na condição de leitor, como a metáfora de uma grande jornada a ser encetada por dois companheiros de viagem.

Por algum motivo pareceu-me que a figura que aparecia como um dos autores da obra, cuja biografia, no entanto, permanecia oculta, me convidava a segui-lo. E foi assim que, conduzido pela enigmática figura de Pierre Nadie, embarquei numa jornada movido pela sedutora promessa de, em algum lugar e ocasião para mim ainda não revelados, desfrutar da curiosa experiência de contemplar o Sol ao Luar.

Ao longo da jornada, informou-me Pierre Nadie, percorreríamos muitas trilhas. Fez questão de precisar o número: noventa e três, além de cinco trilhas conclusivas. Vez por outra nos depararíamos com algumas veredas, mas, disse-me, não precisava me preocupar com isso. Na verdade, tais veredas, ao invés de desvios, cumpriam a função de balizas, delimitando um pouco as trilhas percorridas. Completou, à guisa de explicação:  “Quais trilhas, o caminho do amor é entrelaçado de veredas, que fortalecem e oxigenam o relacionamento e a amizade” (p. 187).

Com tanto chão para percorrer, vislumbrei de imediato a possibilidade de que uma excitante aventura estivesse começando para mim por meio daquele inusitado encontro. Pierre Nadie, ali desempenhando o papel de guia de viagem para mim, pôs a mão no meu ombro e mostrou-me, pouco à frente de onde nos encontrávamos, uma pequena ponte sobre um regato, indo dar numa trilha cuja entrada era guarnecida por cinco palmeiras. O lugar me fez lembrar um pouco o Balneário Veneza, da cidade de Caxias, no Maranhão. Ao cruzarmos a ponte, meu companheiro me informou que estávamos acessando a Entrada Alfa. “Estamos entrando no mundo do outro e o outro entrando no nosso mundo”, disse-me, um tanto enigmaticamente, completando, a seguir, com uma sentença que me soou como uma injunção: “O ‘eu’ é o administrador dessa jornada. Oxalá, não seja apenas o figurante!” (p.63; p.173). Sem que o percebesse de imediato, eu começava, ali, a receber as primeiras pistas que, aos poucos, me fariam desvendar o termo daquele périplo. Mais adiante, nos depararíamos, ainda, com duas outras entradas: Entrada Beta e Entrada Gama.

Enquanto seguíamos, cada um absorto em seus pensamentos e ruminações, deixamos a trilha e seguimos por uma vereda que confluía para um aprazível campo onde medravam bambus tão altos que pareciam tocar o céu, o que levou meu companheiro a observar que “O bambu, diferente de uma árvore rígida, curva-se ao vendaval e tempestades para não se quebrar, retornando a sua posição original, após o ‘sufoco’” (p. 111).

Prosseguimos palmilhando outras tantas trilhas e veredas, cujas peculiaridades ofereciam a oportunidade para que Pierre tecesse metáforas sempre passíveis de serem transpostas para a própria vida, como, por exemplo, quando tomamos uma trilha íngreme e pedregosa, e ele logo admoestou: “Não importa tanto a aspereza do terreno, quanto a determinação do querer e o querer da determinação. Terrenos são tratáveis e quereres, respeitáveis” (p. 149). Manter o passo, pois, demanda fé, confiança e muita esperança. “Fé, que não seja subserviência, confiança que não seja insana esperança, amor que não seja autofagia”, nunca esquecendo que “A esperança confia no acontecer, sai à porfia, tenta, ousa, muda, recomeça e jamais desiste” (p. 255;p. 148).

Quando, ao entrarmos por uma vereda, o terreno se fez seco e desértico, Pierre Nadie aproveitou para falar do complexo tema da amizade, segredando-me que, na vida, vez por outra “Um deserto vem e põe-nos à prova”. Por isso, “Antes de chegar aos oásis do relacionamento e da amizade, nada melhor a fazer do que passear pelos nossos desertos e fruir, sofregamente, de nossos oásis”, completando, a seguir: “O deserto ajuda-nos a burilar-nos e lapidar, sem a ingênua e tirânica preocupação de mudar o outro para ‘poder amá-lo’” (p.223; p. 224).

Creio que tenha sido a essa altura da jornada que comecei a vislumbrar a chave do enigma. Sob o pretexto de uma viagem, Pierre Nadie me proporcionava a oportunidade de vivenciar uma grande jornada metafórica cujo destino era chegar ao âmago de mim mesmo. Eis a explicação para a necessidade de percorrer tantas e tão diversificadas trilhas e veredas. “Tais conhecenças da caminhada, aos poucos, delineiam nossa vivência, engendram atitudes e definem o ‘status’ de como nos vamos relacionar, tanto nas relações macroestruturais, quanto nas micro conjunturais, amizades e intimidades”.

Agora se tornava claro porque, no início da jornada, meu companheiro me falara de entrar no mundo do outro, de amizade e, também, do eu. Talvez quisesse me indicar que a caminhada da vida se faz e acontece na intersubjetividade, na relação, em suma, na amizade e no amor. Em que pese tais considerações, “O caminho do encontro nasce no jardim, impávido, pelos campos interiores e dá-se na confluência deles”, possibilitand0-nos  “…retomar as rédeas de si e ressignificar o que está incomodando e azucrinando a vida” (p. 182; p. 233).

Já quase ao termo da jornada, chegamos a um lindo bosque no centro do qual vislumbramos uma enorme árvore a cujo tronco recostava-se um homem de braços abertos como a posar para uma fotografia. Pierre Nadie, apontando-o, disse-me que tudo que experimentáramos ao longo da jornada se devia àquele homem. Foi da cabeça dele que saiu Sol ao Luar, livro de reflexões filosóficas sobre a vida e a arte de bem viver, publicação que tem a peculiaridade de ser dividida em entradas, trilhas e veredas, ao invés de capítulos. Seu nome, disse-me, é Pedro Bezerra de Araújo. Esse homem que você vê aí recostado a essa árvore tem uma rica história, sobre a qual lhe darei apenas algumas informações, pois fosse dizer tudo o que ele fez na vida, passaríamos aqui um dia inteiro.

De família cearense, nascido em Caxias-Maranhão, Pedro Bezerra de Araújo é ex-seminarista capuchinho, educador, professor aposentado da UECE e UFC, com especialização em Medicina comunitária e situações de catástrofes, Mestrado, todos em Paris. Tem formação em Medicina, Psicologia, Matemática, Pedagogia, Filosofia, Teologia, Saúde Comunitária, Relações Humanas Intra e Interpessoais, Empreendedorismo. É membro da Academia de Ciências Sociais do Ceará-ACSC, da Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, da Academia Brasileira de Hagiologia (vice-presidente), da Academia Independente de Letras, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e Arcádia Alencarina, dentre outras. Como escritor, publicou 38 livros, dentre os quais Sol ao Luar, fonte de inspiração para este texto.

Como último ato daquele singular encontro, Pierre Nadie apertou-me a mão, deu-me um caloroso abraço, e me olhando nos olhos, disse que eu nunca esquecesse que “Nossa jornada é única, não tem ensaio e prescinde de retorno” (p. 355). E sumiu na última trilha que partia daquele bosque.

“Mas afinal, Vasco”, poderá indagar algum leitor ou leitora deste texto, “você informou alguns dados biográficos do Pedro Bezerra de Araújo. Mas, e quanto ao outro autor, Pierre Nadie, que foi para você o “companheiro desta epopeia humana”? (p.33) Quanto a isso, respondo apenas que, para descobri-lo, cada um terá que ler Sol ao Luar, pois não vou roubar ao leitor o prazer e a aventura de solucionar por si mesmo este enigma. Ou pergunte diretamente ao Pedro, o que poderá fazê-lo pelo e-mail: paieutica@gmail.com.