Cinema às 8

O Som ao Redor: Antes da era de “Aquarius”

O Som ao Redor (2012)

O Som ao Redor (2012)

Entre os lançamentos de “O Som ao Redor” e “Aquarius”, passaram-se pouco mais de três anos. Foi tempo suficiente para mudanças relevantes na carreira do cineasta Kleber Mendonça Filho e também no Brasil. No início de 2013, o diretor lançava comercialmente seu primeiro longa de ficção, que seria visto por cerca de 97 mil espectadores em casa, depois de receber elogios da crítica mundial ao longo do ano anterior. Dilma Rousseff era presidenta do País.

Em 2016: uma seleção para a competição do mais prestigiado festival de cinema, uma situação política complicada, um protesto para o mundo ver. Há menos de um mês em cartaz e depois de muita controvérsia, “Aquarius” já levou quase 300 mil pessoas aos cinemas. Dilma Rousseff sofreu um impeachment. Nesse contexto, a reestreia do primeiro longa de ficção de Kleber Mendonça Filho, no Cinema do Dragão – Fundação, proporciona (e, por que não, propõe) ao espectador a oportunidade de conhecer e comparar a obra do cineasta.

Como filmes irmãos, os dois longas dividem muitas semelhanças – ambos são estudos afiados sobre a estrutura social brasileira e as relações nela presentes, sobre a Recife de Kleber, sobre especulação imobiliária… –, mas não deixam de carregar diferenças pontuais e decisivas. “Aquarius” conta a história da luta entre Clara, última moradora de um edifício antigo de Recife, e uma construtora que pretende comprar o prédio para erguer uma torre no terreno. Enquanto este é um filme de personagem e centra-se num estrato privilegiado (as riquezas da protagonista e do engenheiro antagonista, afinal, não devem ser lá muito diferentes), “O Som ao Redor” passeia por entre figuras mais ou menos abastadas que ocupam uma mesma vizinhança de um bairro classe média de Recife.

Aquarius (2016)

Aquarius (2016)

No longa de 2013, visitamos o apartamento duplex do rico senhor de engenho que domina os imóveis da rua, mas conhecemos a realidade mais simples de uma família que esbanja ao adquirir uma televisão de 40 polegadas. Participamos de uma reunião de condomínio estranhíssima, na qual a maioria dos condôminos se recusa a dar ao porteiro dorminhoco os direitos trabalhistas consequentes de uma possível demissão, e também de conversas informais entre os recém-chegados seguranças particulares da rua. São microcosmos que se esbarram vez ou outra, não necessariamente, e que ainda replicam, em si e entre si, a lógica “casa-grande e senzala”.

Com menos cara de repetição preguiçosa e mais próximas à ideia de “marca registrada”, as semelhanças temáticas – e também estéticas, como os característicos zooms e movimentos de câmera –, aliadas à preocupação em injetar em cada trabalho uma personalidade própria, comprovam a autoralidade presente na carreira de Kleber Mendonça Filho. O próximo passo do diretor já tem nome: Bacurau, um thriller futurista centrado em uma estranha comunidade do interior de Pernambuco. O que a pós-era de Aquarius reserva ao cineasta – e ao País –, o tempo dirá.

Texto de João Gabriel Tréz (joaoabreu@opovo.com.br), especial para O POVO. Originalmente publicado no caderno Vida&Arte, do O POVO.


Fichas técnicas
O Som ao Redor (BRA, 2012). Drama. De Kleber Mendonça Filho. Com Irandhir Santos e Maeve Jinkins.

Aquarius (BRA, 2012). Drama. De Kleber Mendonça Filho. Com Sonia Braga, Irandhir Santos e Maeve Jinkins.

O Som ao Redor
Disponível na Netflix
Em cartaz no Cinema do Dragão – Fundação.

Aquarius
Em cartaz no Cinema do Dragão – Fundação e no UCI Kinoplex Iguatemi.

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