Cinema às 8

“Trolls”: quando o irritante conto de fadas agrada

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Poppy e Tronco

Poppy e Tronco

Por mais que nem de perto acerte sempre, a DreamWorks segue como um dos mais importantes e respeitados estúdios de animação. Responsáveis pelos ótimos “Shrek” (os dois primeiros de uns 15) e “Como Treinar Seu Dragão” (1 e 2), a produtora acerta em especial quando investe na fantasia e nos contos de fada. “Trolls”, Mike Mitchell e Walt Dohrn, se justapõe exatamente nesse encontro. A história, baseada naqueles irritantes bonecos do cabelo colorido — que eram febre nos anos 1980 –, junta o mundo fantástico de seres irreais, com uma subtrama emprestada do clássico “A Gata Borralheira” (ou “Cinderela”).

A noção central do longa de animação é justamente o já citado aspecto, digamos, irritante dos brinquedos. Com um prólogo muito bem fundamentado, os Trolls são definidos como felicidade pura. Sua antítese são os Bergens, cuja única felicidade conhecida surge após comer um dos Trolls. Depois de escapar de um “trollstício”, o feriado de deglutição dos pequenos seres felizes, os heróis encontram um canto de paz, distante de seus nêmeses.

Nesse local distante, a princesa Poppy se dedica às especialidades de sua espécie: cantar, abraçar e fazer colagens. Só quem não a acompanha é o monocromático Tronco, que constantemente avisa seus convivas da ameaça dos Bergens. Um dia, o risco se confirma e cabe à (óbvia) improvável dupla resgatar alguns dos pequenos Trolls raptados.

Assim sendo, o roteiro, de Jonathan Aibel e Glenn Berger, se fundamenta nessa dualidade entre felicidade e tristeza. Algo que “Divertida Mente”, da Pixar, já fez com mais propriedade, mas de uma forma bem mais acessível. Se no melancólico filme da concorrente, a tristeza impõe sua complexidade, “Trolls” é mais direto, com o lado feliz encontrando a “luz”. Outra base do roteiro é a direção musical, de Justin Timberlake. É ela responsável por algumas das melhores sequências do longa, como quando Poppy tenta animar Tronco ao cantar “The Sound of Silence”, de Simon & Garfunkel. As “participações especiais” de canções como “Hello”, de Adele, “Can’t Stop the Feeling”, do próprio Timberlake ou “True Colors”, famosa na voz de Cindy Lauper.

Açúcar, tempero e tudo que há de irritante

Açúcar, tempero e tudo que há de irritante

A proficiência musical, no entanto, cria um paradoxo linguístico no filme. A obra é uma animação musical pensada para crianças. Até aí, tudo bem. Esse tipo de obra chega ao Brasil, em geral, só com versões dubladas — o que é legítimo. O problema é que as músicas famosas se encaixando na trama do filme são um dos principais ganchos cômicos de “Trolls”. Daí, a ótima tradução da letra das canções acaba não fazendo jus ao sentido buscado. Já as possíveis cópias legendadas excluem grande parte do público infantil. E ainda há outro paradoxo. Duas das canções (“Can’t Stop the Feeling” e “The Sound of Silence”) são apresentadas com áudio original e sem legendas. Só quem as conhece bem ou é fluente em inglês entende bem o momento.

Para além dessa pedra no caminho, o filme é recheado de méritos. Por se enfocar num público infantil, os buracos no roteiro não incomodam, enquanto a familiaridade das histórias é bem agradável. O melhor ponto é a história de amor do príncipe Bergen, Gristle, com sua empregada, Bridget. Cheio de paralelos com a história da Gata Borralheira, a subplot chega a ser emocionante em seu ápice altruísta. Aliás, esses valores familiares são muito bem apresentados para o público.

Trolls

Nos anos 1980, essas coisas assustadoras eram os Trolls

Nos anos 1980, essas coisas assustadoras eram os Trolls

Outro acerto é na direção de arte, mergulhada no conceito do, digamos, “fofinho”. É algo como games da Nintendo, como “Yoshi’s Wooly World” ou “Kirby’s Epic Yarn”, com estética de novelo de lã. Só que em “Trolls”, a opção é por imensas colagens (ou scrapbooks). Acaba que o impacto visual se torna maior do que um nível de detalhismo minucioso — e que não funcionaria nos personagens principais, já conhecidos como toscos bonecos de plástico.

Extremamente adocicado, mas encontrando um equilíbrio entre melancolia e euforia, “Trolls” é, desde já, uma das melhores animações da Dreamworks. Pode não ser um “Como Treinar seu Dragão” (2010), mas é bem melhor que qualquer “Madagascar”, “O Espanta Tubarões” (2004) ou “Bee Movie: A História de uma Abelha” (2007).

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Estreia hoje nos cinemas de Fortaleza.

Ficha técnica
Trolls (EUA, 2016), de Mike Mitchell, Walt Dohrn. Animação/ Musical. 92 minutos.

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