Cinema às 8

“The Discovery” não desenvolve todo seu potencial

Integrante das aquisições da Netflix durante o Festival de Sundance deste ano, “The Discovery” parte de uma premissa interessante: após a descoberta da existência de vida após a morte pelo cientista Thomas Harbor (Robert Redford), uma onda de suicídios começa a varrer o mundo, com mais de cinco milhões de pessoas tirando a própria vida. O objetivo é o de terem a chance de uma existência melhor em outro lugar. Afinal de contas, que melhor oportunidade de corrigir os erros que dar um reboot total na própria vida?

Filho do cientista, Will (Jason Segel, o Marshall do seriado “How I Met Your Mother”) decide voltar a sua cidade natal, anos após a perda da mãe. Durante a viagem, acaba se deparando com jovem Isla (Rooney Mara), uma alma atormentada que o ajudará a conhecer um pouco mais sobre si mesmo.

Claramente uma obra de baixo orçamento, a despeito do elenco de peso, “The Discovery” se beneficia disso para se focar no desenvolvimento de seus personagens e na trama. Fugindo de cair nas armadilhas futuristas e cheias de efeitos de muitas obras de ficção científica, o filme de Charlie McDowell começa bem, ao construir seu universo sem pressa, deixando o espectador se surpreender a cada descoberta de Will sobre o que se tornou seu pai e sua grande pesquisa.

No âmbito das reflexões que o filme gera, é impossível não perceber a ironia do roteiro ao mostrar que, apesar de representar a descoberta de vida, para se alcançar essa realidade é preciso se esvair a vida que o indivíduo já possui. É uma pena que, por mais que fuja de uma armadilha, o filme recai no clichê de criar um grande romance entre seus protagonistas, algo que não apenas soa cansado como acaba por prejudicar o próprio aspecto científico do longa em seu terceiro ato.

Interpretando Will sempre com um olhar cansado e ombros baixos, Jason Segel cria um personagem crível, em que se percebe as dores pelas quais já passou na vida. Mas fica o sentimento de que o ator, junto ao roteiro, poderia ter desenvolvido aspectos mais interessantes para o protagonista, pois já atuara de forma semelhante em “O Fim da Turnê”. Já Rooney Mara dá aqui a performance mais apática de sua carreira, não fazendo jus ao ótimos trabalhos desempenhados anteriormente.

Aos poucos, o roteiro falha em manter o interesse gerado nos primeiros momentos do filme. As revelações, reviravoltas e momentos de suposto impacto de “The Discovery” não possuem força suficiente para cativar o espectador e diferenciar esta obra de outras semelhantes, mas muito superiores, como “Ex Machina” e “Coerência”. Quem sabe os próximos lançamentos agendados de Sundance pela Netflix se destaquem, como o ótimo “Já Não Me Sinto em Casa Neste Mundo”.

Cotação: nota 4/8

Ficha técnica:
The Discovery (EUA, 2017). De Charlie McDowell. Com Jason Segel, Rooney Mara e Robert Redford. 110 min.

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