Cinema às 8

A queda do pistoleiro em “A Torre Negra”

Esse é o máximo que mostram do Mundo Médio

Escrita por mais de 30 anos, com oito livros e múltiplas HQs sobre seu universo, a saga da “Torre Negra” é a obra mais ambiciosa de Stephen King, como define o próprio autor. Abordando temas como ficção científica, cultura pop, faroeste e até mesmo a vida pessoal do próprio King, os livros, por mais que não sejam as melhores obras do estadunidense, ainda são aventuras recheadas de personagens complexos e situações memoráveis.

Todos os adjetivos acima não se aplicam para a adaptação cinematográfica homônima, que chega hoje aos cinemas brasileiros. Adiada por anos, com o projeto mudando de estúdio e diretores, incluindo Ron Howard, o produto final finalmente foi entregue a Nikolaj Arcel, responsável pela versão sueca de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”. Na trama, o garoto nova iorquino Jake Chambers (Tom Taylor) descobre um novo universo, onde o Homem de Preto (Matthew McConaughey) está tentando destruir a Torre Negra, objeto que segura todos os universos, ou algo do tipo.

Ao entrar no Mundo Médio, Jake encontra Roland Deschain (Idris Elba), o último membro do clã dos pistoleiros, uma ordem que jurou proteger a Torre com as próprias vidas. Focado em dar o máximo de profundidade ao personagem, Elba constrói um Roland competente, dentro do texto pobre que recebeu para trabalhar. Genérica, a história não sai do lugar comum em momento algum, trazendo elementos soltos dos livros e que acabam por não se unir de forma coerente.

Como todo blockbuster genérico, as cenas de ação são obrigatórias, mas aqui seria melhor tê-las deixado de lado. Tudo é feito com tanto desleixo que os momentos se tornam entediantes. Até mesmo as habilidades incríveis de Roland com as pistolas não conseguem cativar, estando no mesmo nível das cenas de ação de “Esquadrão Suicida” (2016). O ritmo do filme também não ajuda, com tudo acontecendo rápido demais, sem dar ao público a chance de se importar com qualquer personagem. As mortes ocorrem por todos os lados, mas bocejos são as únicas reações possíveis. 

Por mais batida que seja a história, ao menos ela consegue ter começo, meio e fim coesos. Não há em “A Torre Negra” a ambição latente de construir múltiplos filmes, com este primeiro (e possivelmente último) longa se encerrando de forma redonda. A opção por trazer tramas do primeiro, quinto, sexto e sétimo livros da saga original acaba por criar uma bagunça narrativa, onde conceitos são jogados o tempo inteiro, com nenhum deles funcionando de forma apropriada. A escolha de Matthew McConaughey para o papel do vilão não poderia ter sido mais equivocada, com o ator estando sempre no automático, sem trazer personalidade alguma ao personagem.

Como não ter medo de um Matthew McConaughey com uma bola de fogo na mão?

Em suma, “A Torre Negra” falha como adaptação, como sequência (dos livros) e como qualquer outra coisa. É o tipo de filme que pode ser visto sem compromisso, até porque ele próprio não se compromete em contar uma história interessante. Um filme que esqueceu o resto de seu pai.

Cotação: nota 3/8

Ficha técnica: “A Torre Negra” (EUA, 2017). De Nikolaj Arcel. Com Idris Elba, Tom Taylor e Matthew McConaughey. 95 min.

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