Cinema às 8

“Me Chame Pelo Seu Nome”: espelho do outro

“A natureza tem formas astutas de encontrar nosso ponto mais fraco”. Na forma bonita de dizer que o amor só é amor porque desperta todas as nossas fragilidades, Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino, é uma história de um laço, uma conexão profunda que nem todo mundo vivencia. Elio (Timothée Chalamet) é um jovem prodígio ítalo-americano, que passa os entediantes verões no norte da Itália com os pais, entre livros, banhos de rios e eventuais festas. Só que nessa estação, o sr. Perlman (Michael Stuhlbarg), pai de Elio, recebe em casa Oliver (Armie Hammer), um deus grego em forma de estudante. E esse é um desses momentos que muda tudo.

Banho de sol: Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer)

Me Chame Pelo Seu Nome é um filme sobre um primeiro amor. E também sobre amadurecer. É sobre a construção de uma relação e sobre descobrir, assim, quem você é. “Me chame pelo seu nome que eu lhe chamo pelo meu”. Nos amantes, aprendemos sobre nós mesmos – o bom e o ruim, a dor e o gozo, nossa alegria e nossa tristeza. Lento, o longa de Luca Guadagnino constrói esse relacionamento primeiro nas diferenças e depois nas semelhanças, até um ponto onde os papéis, inicialmente quase opostos, se confundem.

À primeira vista, Elio parece tímido, inseguro, usando a arrogância para esconder as próprias fragilidades. Já Oliver parece ter um carisma natural, inteligente, extremamente bonito, e fisicamente ativo – todas características que trazem em si um ar de segurança. Só que, com a intimidade, um desperta o ponto fraco do outro. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme de descoberta de um sentimento inédito para Elio. E gosto de pensar que também para Oliver. E quem já viveu um primeiro amor sabe qual a carga disso. Some-se ainda o medo de um romance homossexual e o contexto de uma Itália em 1983, quando a homossexualidade ainda era tabu, e os medos transparecem ainda mais.

Elio cumprimenta um deus grego

Esteticamente, a característica que se impõe no filme é a sensualidade. Não num contexto puramente sexual, como o corpo e sorriso de Oliver indicam. Há uma naturalidade nos gestos. Corpos masculinos opostos (os músculos do homem mais velho, a esqueleto esguio de Elio) sem camisa passeiam suados em um verão europeu. Oliver é apolíneo, perfeito, uma estátua grega como as estudadas pelo senhor Perlman. Elio já tem uma sensualidade mais real. Somos todos nós, deitados em uma cama em uma noite de sono e excitação após conhecer um homem como Armie Hammer. Inteligente, falando inglês, francês e italiano, tocando piano e violão, e se impondo mesmo diante do tal do deus grego, Elio surge com uma força impressionante, principalmente a partir do momento em que aceita a própria fragilidade. Como desafia a mãe, ele precisa escolher entre “falar e morrer”. E escolhe.

Mesmo com o ótimo elenco, o filme é quase todo de Timothée Chamalet, a descoberta do filme. Papel complexo, que esconde os medos por trás da arrogância, Elio é uma oportunidade imensa para o jovem ator mostra o próprio alcance dramático. Há certo humor, leveza, no primeiro ato, e um peso crescente de sexualidade, medo e dor até o terceiro ato e Timothée é verossímil, palpável a cada momento. A direção respeitosa de Luca Guadagnino ajuda, diferenciando o sensual do sexual e respeitando a intimidade do casal. É frustrante para um filme tão mergulhado em desejo, mas é justo.

A sensualidade é força-motriz do longa

Diante das dores e evoluções dos personagens, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme sempre muito familiar. O que Elio e Oliver vivem parece sempre autêntico e próximo, por mais único que pareça ser. E nisso, Timothée é peça-chave. Baseado no romance homônimo de André Aciman (que faz uma ponta no filme), o filme traz diálogos recheados de subtexto, uma delícia à parte que ajuda a contrabalançar a lentidão da construção de um romance que surge de supetão. Me Chame Pelo Seu Nome é um drama gay, que não impõe a homossexualidade aos personagens. É sobre um amor que constrói uma ponte entre duas pessoas. É sobre ser espelho de quem se ama e se adaptar ao que o outro merece.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 8/8.

Ficha técnica
Me Chame Pelo Seu Nome
(Call Me By Your Name, 2017, ITA/FRA/BRA/EUA), de Luca Guadagnino. Drama. 132 minutos. 14 anos. Com Timothée Chalamet e Armie Hammer.

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