Cinema às 8

“Yonlu” – O mergulho na dor

Por mais que comece a existir uma abertura para falar sobre suicídio em nosso cotidiano, ainda é um assunto delicado e denso. Em Yonlu, vemos que a linguagem do audiovisual pode traduzir tamanho vazio da alma, o transformando em imagem e sensação visual.

 

Para contar a breve trajetória do poeta brasileiro Yonlu, nascido Vinícius Gageiro Marques, a direção de Hique Montanari provavelmente teria dois caminhos: narrar os acontecimentos de maneira factual, mantendo certo distanciamento do ocorrido, ou mergulhar inteiramente no universo da melancolia do artista. Ao escolher a segunda opção, Montanari nos entrega um filme onírico, mas não menos sombrio, de atmosfera agridoce, ora embalado pelas composições musicais de Yonlu, ora pelas vozes tenebrosas de internautas online falando sobre maneiras de cometer  suicídio.

 

O músico Thalles Cabral vive Yonlu

 

A atuação de Thalles Cabral como Yonlu chega até confundir realidade com a atmosfera do filme, por transmitir uma naturalidade e espontaneidade por vezes até assustadora.

 

Tal atmosfera intimista contribui para que vejamos uma pequena parte da alma atribulada de Yonlu. Tentamos ver o mundo com seus olhos, sua música, sentimos na pele o seu isolamento e letargia do ambiente exterior, como se de fato fôssemos mesmo “de outro planeta”. A centralidade do personagem é sentida em toda a projeção. Para isso, a direção escolheu planos que traduzem esse sentimento de encarceramento, tanto no ambiente de sua casa, como da escola e do consultório.

 

O encarceramento é um dos sentimentos do filme

 

É pertinente também que a fala de seu terapeuta, interpretado pelo autor e ator Nélson Diniz, como uma inserção da realidade entre as cenas de Yonlu em composição. Sendo um dos primeiros casos conhecidos de suicídio transmitido online na época, há o questionamento sobre o uso da internet por pessoas que estão emocionalmente fragilizadas demais e são levadas a cometer o ato extremo do suicídio por outros usuários sem rosto online.

 

Por apresentar tantos comportamentos e pensamentos bastante comuns à pessoa com depressão, há uma série de gatilhos espalhados pelos momentos do filme, com representações simbólicas visuais fortes para os mais atentos. Porém, em determinados momentos o filme peca por algumas ausências de harmonias entre elas. Isso pode dificultar a leitura de quem o absorve.

 

O filme não é necessariamente dirigido à adolescentes, apesar de ter um apelo maior a esse público. Seu maior pecado, talvez, seja suscitar a discussão sobre tal tema e não trazer ao menos um pequeno aviso sobre como buscar ajuda para prevenir casos como esse. Sua motivação fica assim meio esparsa.

 

Yonlu não é um filme para venerações ou romantizações sobre o suicídio. É um mergulho profundo para a reflexão sobre a dor e a beleza da arte, que comove mesmo sendo cheia de sofrimento e, portanto, merece ser tratada com respeito.

 

Cotação: nota 7/8

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