Discografia

Rolling Stones entre segredos e comparações

Venho aqui colocar um assunto em dia. Pode parecer bem fora do tempo, mas vou me valer do discurso de que “não há tempo certo quando o assunto vale a pena”. O que acontece: quero falar aqui sobre dois livros lançados no primeiro semestre mas que merecem todo o destaque possível, ambos sobre o mesmo assunto, os Rolling Stones. O primeiro chama-se According to The Rolling Stones. Assinado pelo próprio quarteto, o livro, que já impressiona pela beleza como objeto, é um longo relato repleto de fotos incríveis. Claro, partindo do princípio que, também este ano, a banda colocou nas lojas uma belíssima caixinha com os compactos lançados ao longo da carreira, é impossível não fazer uma comparação com o grandioso projeto Anthology, que reuniu os três Beatles até então vivos – Paul, Ringo e George (1943 – 2001) – para colocarem os assuntos em dia e abrir cofres e gavetas para lançar a raspa do tacho das gravações da banda. Mas, sem problemas por que se tem um assunto que nunca foi tabu foram as constantes comparações entre as duas maiores bandas inglesas de rock dos anos 60/70. Baseado em entrevistas feitas pelo jornalista Philip Dodd, According to The Rolling Stones foi lançado no mercado americano em 2003 e pouco tempo depois ganhou versão em espanhol. Só este ano a Cosac Naify lançou o livro em português. O esforço é compensador e o resultado é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. Mas, não se engane, nem tudo está. Ainda preocupados em guardar alguma imagem, os músicos jogam pra baixo do tapete algumas histórias cabeludas, como o rolo sexo-amoroso entre Keith, Mick, Brian Jones e Anita Pallenberg. Ex-membros vivinhos da silva, como Bill Wyman, baixista original dos Stones, e o guitarrista Mick Taylor não tem vez neste longo relato sobre a própria história. Pra compensar, pessoas que conviveram de perto com os mitos, como a cantora Sheryl Crow e o produtor Marshall Chess, dão seu parecer. O texto segue o mesmo modelo do trabalho dos Beatles, curtos textinhos aspeados entrelaçando as entrevistas. No fim das contas, a ausência dos ex-membros faz o fã tirar alguns pontos do trabalho final. Ainda assim, só de olhar para o livro, se percebe que trata de um produto indispensável para os fãs de rock e, pricipalmente, dos maus meninos ingleses.

O segundo livro não é menos luxuoso, mas o conteúdo é beeeeeeem diferente. The Beatles vs The Rolling Stones (Ed. Globo) vem com o subtítulo sensacionalista “a grande rivalidade do rock’n’roll” e não deixa dúvidas sobre seu conteúdo. Pra contextualizar, surgidas praticamente na mesma época (a diferença é de um ano a mais pros Beatles) e no mesmo país, as duas bandas são e continuarão sendo as duas maiores referências de rock na história. Por isso mesmo, nunca faltou quem viesse com teorias sobre quem é maior do que quem. Resultado dessa disputa? Claro que não existe, mas, pelo menos, rendeu muita discussão entre roqueiros. O livro, escrito por Jim Derogatis e Greg Kot, nem quer resolver esta pendenga, mas tenta criar argumentos para que o leitor tire suas conclusões. O método é simples: eles analisam cada ponto em separado. Os vocalistas Mick e John, os guitarristas George e Keith, os discos clássicos Exile on main st. e Álbum Branco e o visual de cada grupo são alguns temas discutidos. Pra completar, tem ainda listas de livros e melhores momentos, e uma infinidade de fotos maravilhosas. No fim das contas, as imagens em perspectiva estampada na capa, onde Beatles e Stones se confundem, talvez seja a melhor metáfora para resolver essa justa de mais de 40 anos. Frutos de uma mesma época, os dois grupos somam juntos o maior tesouro da música pop internacional. E, se juntarmos os dois livros, vamos saber mais sobre uma época em rock era coisa de gente grande.