Discografia

Elis Regina – Amigo é coisa pra se guardar

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Mais que uma grande voz, Elis Regina soube aproveitar seu corpo e seu talento pra dar vida à própria carreira. No Beco das Garrafas ela fez fama ao protagonizar espetáculos que misturavam várias linguagens à sua música. Boa parte desses espetáculos trazia a assinatura da dupla Miele & Bôscoli. O primeiro nome da dupla era do paulistano Luis Carlos Miele, ex-locutor das rádios Tupi, Excelsior e Nacional que chegou ao Rio de Janeiro em 1959. O segundo nome é do carioca Ronaldo Bôscoli, mais conhecido como Veneno. Carioca malandro e bon vivant, ele foi um dos responsáveis pela explosão da Bossa Nova através de uma reportagem escrita para a revista Manchete.

Mais que produtor e cantora, Miele e Elis foram bons amigos. E cúmplices em grandes espetáculos musicais que dividiram no Beco, nos palcos e na TV. Sem precisar insistir muito, Miele relembra várias histórias que passou ao lado da estrela, entre brigas e comédias. “Eu tenho os cartões dela ainda hoje, que já até perderam a tinta. Coisas como ‘Miele, eu te adoro’”, lembra ele emocionado. Em uma rápida conversa por telefone, ele conta sobre o tempo que trabalhou com a cantora e, como um bom amigo, foge de temas mais polêmicos. “Ela foi a paixão musical da minha vida. Como costumo dizer, a única artista com cujo talento eu nunca me acostumei”.

O Povo – Como foi seu primeiro contato com a Elis?

Miele – Foi no Beco das Garrafas (reduto boêmio de Copacabana). Ela fez um primeiro show, produzido pelo Renato Machado, com o grupo do (músico) Dom Salvador e textos lidos pela Íris Lettieri, a grande voz dos aeroportos do Brasil.

OP – E como foi o primeiro o primeiro show que vocês produziram?

Miele – O primeiro show foi no Little Club. Tinha a participação da bailarina Marli Tavares, do pandeirista Gaguinho e do grupo Bossa Três, que tinha Luis Carlos Vinhas (piano). Durante essa sequencia de shows, a Elis fez um sucesso extraordinário e passou do beco. Por isso, ela teve que faltar por conta de outros compromissos de trabalho. Ela já vinha se apresentando em outros cantos, mas não ia perder aquele serviço no Beco. A carreira dela tava começando. Então ela dizia que tava doente. Como a gente não tinha cartazes, fazia propaganda dos shows no muro do beco. Uma vez, o Ronaldo (Bôscoli) ficou com raiva por conta das faltas dela, foi lá, e pediu um pouco de piche pruns caras que tavam consertando o asfalto. Pegou o piche e passou por cima do nome dela.

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OP – Foi aí que começou a briga dela com o Bôscoli.

Miele – Foi. Um pouco antes, ele chegou pra ela e reclamou: “ta achando que é a Barbara Streisand?”. (E ela) “To”. Isso piorou tudo e ela tava escalada para uns shows da (empresa de química que também patrocinava grandes shows) Rhodia. Como ela tava faltando no Beco, o Bôscoli chamou a Nara Leão. “Aqueles joelhos que cantam”, como dizia a Elis.

OP – E aí começou a intriga com a Nara. E quando vocês voltaram a trabalhar juntos?

Miele – O Manoel Carlos era diretor do Fino da Bossa, mas ia deixar programa. Então o Luizinho Eça sugeriu a dupla Miele e Bôscoli (pra produzir o programa), mas a Elis disse: “nem morta. Se eles vierem pra cá ou vou pra Tupi”. O Paulo Machado (fundador da rede Record) insistiu e ela disse que aceitava. “Mas só falo com o Miele, com o Ronaldo nem pensar”, disse ela. Ele respondeu: “é bom mesmo. Se ela falar comigo, eu caso com ela”. Mas foi como disse o Carlos Imperial: “quando eles se casaram, Deus castigou os dois”.

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OP – Ela tinha fama de exigente e passional nas relações pessoais e profissionais. Muitos dizem que ela metia medo nas pessoas. Você sentiu isso?

Miele – Eu tinha muita sorte porque ela me usava pra mostrar que era muito acessível quando tratada com educação e elegância. Teve uma vez que eu pedi pra ela mergulhar no mar na Costa Brava (Rio de Janeiro). E ela dizia: “mas eu não sei nadar”. Eu respondia: “Mas o (Roberto) Menescal é campeão mundial de pesca submarina. Se você afundar ele vai lhe buscar”. Ela entrou na água, afundou e ele foi lá buscar. Comigo, ela nunca teve problema nenhum. Mas, quando ela se separou do Bôscoli, eu fui junto.

OP – Quer dizer que por conta da separação dela, vocês se afastaram?

Miele – Eu tenho os cartões dela ainda hoje, que já até perderam a tinta. Coisas como “Miele, eu te adoro”. Eu fiquei separado dela cinco anos. Uma vez ela ligou pra mim e disse: “Ei, viadinho, num vai no meu show, não?”. E eu respondi que, sem ela falar comigo, eu nem tinha pensado em ir. Na verdade, nem atendi o telefone pensando que era sacanagem. Aí ela disse pra secretária: “Fala pra ele que eu quero falar com o Carneiro”, era um código da gente. “Você não vai o Saudades do Brasil? Vai lá que tem uma mesa pra você”. Eu fui e ela dedicou Canção da América pra mim. E eu completamente em lágrimas. Já tava chegando no final, eu embriagado de lágrimas e whisky, e uma pessoa veio avisar: “a Elis quer você no camarim antes do final do show”. Quando ela interrompeu pro bis, veio pro camarim e perguntou: “Ta tudo certo entre nós?”. Eu disse que sim e ela voltou pro palco.

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OP – Vejo que você guarda muitas boas lembranças dela.

Miele – Tem uma coisa bonita que nunca tinha contado. Ela tava no Teatro da Praia (Rio de Janeiro) e a Katyna Ranieri, uma estrela da música italiana, foi assistir. No fim do show, a Katyna foi ao camarim e ficou elogiando, “você é extraordinária”. Mas a Elis, quando era elogiada, ficava vesga. Pra sair do sem jeito, a Elis viu que a cantora tava usando um colar muito bonito, que aparentava ser muito caro, e falou “que beleza de colar”. A Katyna respondeu na hora “te regalo” e deu o colar pra ela. Outra vez, ela foi pra Alemanha e os alemães pegaram um monte de negrinhos pra fazer o clipe de Upa Neguinho. Uma hora o produtor disse: “que pena que você não poder cantar em alemão”. Ela respondeu: “Por que não? Escreve a pronuncia pra mim”. Ele escreveu e ela ficou cantando lendo a pronúncia.

OP – Você trabalhou com boa parte da nata da música brasileira. Em relação à Elis, o que era fácil e o que era difícil no trabalho com ela?

Miele – O trabalho era mais que fácil. Você dava uma ideia e ela saía ampliando. Ela teve uma fase se declarando contra o Caetano Veloso. Depois passou e disse: “vou cantar o gênio da minha geração” e escolheu cantar Irene. Eu sugeri que ficaria melhor se você fosse “enlouquecendo” até que chegasse o fim do ato. Depois fui pra plateia pra, teoricamente, dirigí-la. “Você não vai ficar olhando pra mim não, né? Vai ao cinema”. Eu aceitei a ordem dela e fui. Quando voltei, tava melhor do que eu esperava. Tem uma coisa engraçada. Os turistas da música, muitos deles achavam que eu só queria usar a Elis pra experimentar. Nem entro nessa discussão. Muito do que ela fez no palco – humor, dançar, sapateado – era sugestão nossa, mas que ela se divertia, se divertia.

OP – Muitos dos seus trabalhos com a Elis foram durante sua parceria com o Ronaldo Bôscoli, ex-desafeto que acabou se tornando marido dela. Como era a relação dos dois? Eles sabiam separar o profissional e o pessoal?

Miele – Eu procurava não estar com eles com eles no quarto. Eles eram explosivos mesmo. Não era bom ficar por perto. Uma vez eu passei por ela na piscina e a empurrei. Ela caiu toda desequilibrada. Eu pensei (em tom apreensivo): tem três opções. Ela achar graça, me mandar pra puta que pariu ou nenhuma das opções. Deu a terceira, ela saiu nadando. Ela foi a paixão musical da minha vida. Como costumo dizer, a única artista com cujo talento eu nunca me acostumei. E já vou dizendo, acho a Maria Rita é cara da mãe.

OP – Uma das características dos shows produzidos pela dupla Miele e Bôscoli era de tirar os artistas do conforto. Alguma vez a Elis se negou a fazer algo que vocês pediram?

Miele – Não. Era só eu pedir que ela fazia.

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OP – Você também produziu muitos trabalhos dela pra TV. Como eram os bastidores dessas gravações? Ela era boa de TV?

Miele – Pra ela, aquilo era instintivo. Olhe, as pessoas com que eu trabalhei, vou citar três: Roberto Carlos, Elis e Simonal. Nenhum deles estudou nada. Pra mim, isso que é a explosão do talento. No palco, não tem escapatória. Nem adianta estudar, se não tiver as ferramentas.

OP – Passados 30 anos, Elis Regina continua sendo uma referência para o público e para novos artistas. O que a diferenciava das demais cantoras da época?

Miele – Eu dirigi numa época quatro cantoras brasileiras em shows diferentes. Nesse período, um jornalista do Globo  me perguntou: quem são as cinco maiores cantoras do Brasil? Eu respondi: a Elis. Foi uma merda com as outras, mas era isso.