Discografia

Amelinha hoje canta muito mais

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Uma das vozes mais marcantes da música cearense, já tinha tempo que o público perguntava pela Amelinha. Há décadas morando em Niterói (RJ), nunca faltou quem a cobrasse por uma volta aos palcos. O que boa parte das pessoas não sabiam é que ela nunca abandonou seu ofício de cantora. Acontece que Amélia Cláudia Garcia Colares, 61, faz parte de um grande grupo de artistas que vai ficando longe da mídia por não querer se adequar às regras míopes do mercado fonográfico.

No entanto, como é sabido, o mundo dá voltas. No caso de Amelinha, seu mundo deu algumas piruetas no ano passado. Depois de muito procurá-la, o DJ Zé Pedro enfim conseguiu formalizar um convite para que ela gravasse um disco pela sua gravadora, a Joia Moderna. “Talvez esse seja o disco mais importante da JM”, comentou o DJ que já tinha o carinho da cantora (ainda não revelado) por conta do remix do hit Frevo Mulher.

E assim que nasceu Janelas do Brasil, disco que sai 10 anos depois do revisionista e insosso Pessoal do Ceará (dividido com Belchior e Ednardo). Gravado durante “três noites mágicas”, o novo trabalho agrega 12 canções interpretadas em tom confessional e intimista por Amelinha. Ao seu lado, apenas o músico paulista Dino Barioni, responsável por arranjos, violões e guitarras. Tudo sem excessos. “Foi como se eu estivesse cantando na sala com amigos. Quando o Fagner, o Ednardo ou o Rodger me mostravam músicas, era sempre no violão”, lembra a cantora durante uma longa conversa por telefone.

Antes de receber a proposta, recebida com grande entusiasmo, Amelinha já vinha, desde 2008, com uma turnê de voz e violão chamada Janelas do Brasil. Zé Pedro e o produtor Thiago Marques Luiz lhe apresentaram uma seleção de repertório e lhe sugeriram o acompanhamento de Dino, a quem ela ainda não conhecia. “Escolhemos as músicas em fevereiro, mas só vi o Dino uma vez na casa do Zé Pedro, para tirar os tons, na primeira semana de julho”, conta. Nesse meio tempo, ela foi ouvindo as canções e entendendo o que cada uma tinha para dizer. Mas sem perder muito tempo “para não gastar a emoção”.

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O resultado desse encontro foi um disco repleto de verdade e sutilezas. Janelas do Brasil começa revelando que a voz de Amelinha continua em forma. Mesmo longe de todo o aparato instrumental ou das vozes dobradas de antigos sucessos, como Foi Deus que fez você ou Frevo mulher, ela mantém o brilho do seu instrumento. “A voz lhe trata como você tratá-la”, sublinha a cantora que não gosta de dar palhinhas ou cantar informalmente. Cuidadosa, é como entoa na canção de Amaro Penna, que fecha o disco: “Pra seguir um violeiro, é preciso ser canção (…), cantar feito oração”.

Buscando abrir janelas próximas e distantes, o repertório passeia por canções ligadas à história da cearense e abre espaço para novidades. Da raiz, ela tira amigos de tantos anos, com quem ainda mantém um bom papo sempre que se encontram. São eles Fagner (Asa Partida), Ednardo (Terral) e Belchior (Galos, noite e quintais). Da paraibana Cátia de França, compositora do antigo sucesso Coito das Araras, ela refaz a solar Ponta do Seixas. Já a buliçosa Quando fugias de mim, vem de Alceu Valença e Emmanoel Cavalcanti. Entre as surpresas, o desejo antigo de gravar Zeca Baleiro (O silêncio) e uma interpretação madura de Marcelo Jeneci (Felicidade).

No início da carreira de cantora, um dos primeiros compositores de fora do Ceará a prestar atenção em Amelinha foi Vinicius de Moraes, com quem ela chegou a trabalhar numa temporada em Punta Del Leste. Em homenagem ao amigo, ela canta uma delicada parceria do Poetinha com Marília Medalha, Algum lugar. “Teve uma vez que ele foi lá em casa e eu resolvi cozinhar alguma coisa para nós. Imagina, eu cozinhando pro Vinicius? Acabei queimando tudo. E ele só dizia assim: “Bichinha, se incomode não. Eu vou lhe ensinar a receita de um franguinho”, lembra Amelinha entre risadas.

Mais emocionada ainda ela fica ao comentar sobre a boa recepção que seu novo disco vem recebendo. Tanto que agora Amelinha já pensa em abrir novas janelas, quem sabe para o som dos mineiros (“na minha casa tem uma janela lateral, como diz o Beto Guedes”). Certa de estar atravessando um bom momento, ela nem pensa no tempo que passou longe dos discos e nas propostas nada atraentes que recebeu. “A minha missão não terminou. É pra isso que eu vim, pra cantar, pra ter essa troca com o público”.