Discografia

Arnaldo Antunes e a arte do encontro

O poeta Vinicius de Moraes costumava dizer que “a vida é a arte do encontro”. Mas, com licença o Poetinha, o mesmo pode ser dito da música. Que o diga Arnaldo Antunes, um dos nomes mais plurais da música brasileira que sempre se junta com quem possa lhe tirar da zona conforto. Se não, vejamos. Apresentado nos anos 80 ao lado dos Titãs, o paulistano mistura punk, rock e poesia concreta ao lado dos outros sete músicos da banda. Depois, seguindo carreira solo, deu início a uma parceria frutífera com o guitarrista Edgard Scandurra e deu vazão àquelas canções mais experimentalistas que não cabiam no estilo da antiga banda. Em seguida, encontrou Marisa Monte e Carlinhos Brown nos Tribalistas e se aproximou mais da MPB. Recentemente, redescobriu a Jovem Guarda com a ajuda de Fernando Catatau.
 
Hoje, com 19 anos de carreira solo, o parceiro mais constante de Arnaldo em palco, estúdio e composição continua sendo Scandurra. Para celebrar essa alquimia, em 2009 eles começaram um projeto somente de voz, guitarras e bateria eletrônica que renderia o primeiro disco creditado à dupla. Mas um convite do Black2Black acabou rendendo mais uma aliança musical no currículo do compositor. A ideia do festival é que eles tocassem com o músico Toumani Diabaté, natural de Bamako, Mali. Vencedor de dois prêmios Grammy, em 2010 e 2011, na categoria melhor álbum de Traditional World Music, o africano é um mestre na kora, espécie de harpa com 21 cordas.
 
Apesar do trio ter feito só um ensaio para o festival, a sintonia foi perfeita e Toumani acabou convidando a dupla para gravar seu disco em Mali. Era o que faltava para que ele também entrasse para o novo projeto. Com o carimbo MTV Especial, A curva da cintura foi lançado em CD e DVD (com documentário de Dora Jobim sobre as gravações do disco e sobre os hábitos malienses) e mostra o melhor do que cada um dos três tem para oferecer. São 18 faixas, gravadas em São Paulo e Mali, curiosamente divididas entre 14 do trio e quatro bônus instrumentais, sem Arnaldo. Nessas últimas, que poderiam estar misturadas entre as outras 14, Edgard e Toumani duelam majestosamente com seus instrumentos, obrigando o ouvinte a apurar bem os ouvidos para compreender aquele emaranhado de cordas.
 
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Das primeiras, 11 são composições de Arnaldo e Edgard. É o caso de Muito Além, lançada pelo Ira! no projeto Acústico MTV (2004), e Cê sabe como é, que mistura poesia punk de Arnaldo (“Meu bem larga esse namorado/ Cê não não vê que ta errado/ Ele não te dá valor”) com uma melodia doce, tipo valsa de 15 anos. Certo de que agregar experiências é que faz bem, Que me continua poderia bem estar no disco dos Tribalistas ou no de qualquer sacerdote da MPB, como Caetano Veloso. Já Meu cabelo, é uma versão engraçada de Arnaldo para Elisa, de Serge Gainsbourg e Michel Colombier, bem costurada pela kora de Toumani. Assim como Grão de chãos, balada etérea filosófica composta pelo trio titânico Antunes, Paulo Miklos e Liminha.
 
Contando ainda com outros músicos africanos, como Sidiki Diabaté, filho de Toumani, A curva da cintura é um disco de pop bem feito com produção bem amarrada de Gustavo Lenza (Lucas Santanna, Curumim). Mesmo que tenha recém chegado nas lojas, seu sucessor, o Acústico MTV Arnaldo Antunes, já está pronto e logo vai estar disponível em CD, DVD, Blu-ray e na TV. No projeto ainda inédito, os encontros continuam, agora com Nina Becker, Moreno Veloso e Guizado. Em cada nova parceria, um novo mundo se abre para Arnaldo Antunes. É como ele mesmo canta em Kaira, faixa que encerra sua participação em A Curva da Cintura: “a música muda você, você muda mais alguém. Alguém muda outro alguém, que muda você também”.