Discografia

Sem perder a ternura

Bem distante do calor praiano de Copacabana, parte da turma da Bossa Nova começou a agregar o componente político em suas composições. Entre os representantes dessa veia mais crítica estava João Lufti, conhecido publicamente como Sérgio Ricardo, que este ano completou seus 80 anos (mais precisamente no último 18 de junho). Se mostrando feliz com a nova idade, ele continua com os olhos atentos para o que acontece no mundo e ainda disposto a protestos, como o que fez no palco da TV Record no antológico Festival de 1967, quando quebrou seu violão e jogou os pedaços para uma plateia que vaiava furiosamente.

Músico, cineasta, escritor, agitador, a obra de Sérgio Ricardo já preencheu muitos espaços da história cultural brasileira. Parte dessa história está voltando às lojas através de cinco relançamentos que comemoram suas oito décadas de vida – A noite do espantalho, Arrebentação, Estória de João-Joana, Do lago à cachoeira e Piri, Fred, Cássio Franklin e Paulinho de Camafeu Com Sérgio Ricardo. Embora conhecido por não gostar de entrevistas, não foi preciso muito esforço para que ele atendesse ao pedido do DISCOGRAFIA para uma boa conversa (por email) sobre música, trabalho, idade e política. Esse último aspecto, inclusive, percorre todos os outros ao longo das suas palavras. Vamos a elas.

DISCOGRAFIA – Pra começar, gostaria de saber como está o Sérgio Ricardo, pessoa e compositor. O que representa pra você esses 80 anos?

Sérgio Ricardo – Chego aos oitenta feliz e agradecido pelo que recebi da vida, do amor das pessoas, do carinho daqueles que admiraram meu trabalho e que abriram a cortina de meu palco, onde pude representar com toda sinceridade a peça modesta do meu legado. Triste, por outro lado, por não ter alcançado a fórmula mágica para a solução dos problemas do povo que amo, em cuja fonte fui beber tudo que sou e que sei. Não por querer me arvorar a salvador, mas por não ter conseguido com meus pares usar a arma poderosa da arte, única possível para vencer a guerra da mediocridade que avassala o planeta, para que pudéssemos retribuir a generosidade dos oprimidos pela dádiva contida no seu sofrimento.

DISCOGRAFIA – Como parte das comemorações por esta data, cinco discos seus estão voltando às lojas. O que você achou desses relançamentos?

SR – Fico feliz com a coincidência deste momento em que se rompem os arquivos da ditadura, para que enfim meu trabalho e de meus companheiros impedidos pela censura daquela época de serem divulgados, seja revelado, não só como justiça à nossa contribuição, como pela constatação de sua atualidade em relação às agruras pelas quais ainda estamos passando. O tom aparentemente profético de nossas canções não se deve ao talento de nossa criatividade, se não pela mesmice cada vez mais deteriorante da realidade que nos cerca. Se seus temas são hoje mais contundentes do que naquele momento, é porque os problemas abordados se agravaram. Fico feliz por não ter dito asneira e triste pela constatação de sua correspondência com a realidade atual.

DISCOGRAFIA – Uma boa parte da sua obra permanece inédita em CD. Esses que foram escolhidos representam bem a sua história?

SR – Parte dela, sim. Mas ainda há coisas a serem resgatadas. Este resgate vem revelar, modéstia a parte, a importância do meu e o trabalho de meus contemporâneos. O verdadeiro engajamento da música popular nascido antes do festival da Record (1967), onde, por força do alcance da penetração em rede da comunicação televisiva, atribuiu-se aos jovens compositores que se revelavam nas competições festivalescas o papel de arautos da contestação, quando na verdade eram seguidores do movimento nascido e propagado pelos meios que tínhamos à mão como circuitos universitários, musicais políticos em trilhas de peças e filmes do cinema novo e infinitos shows para levantar fundos para presos políticos, etc. E mesmo anteriormente à ditadura, integrados na luta desde o início do engajamento da cultura no movimento político no começo dos anos sessenta. Ha vários ícones esquecidos nessa história, dignos de resgate, com trabalhos importantes que fizeram a cabeça da geração posterior amparada pela mídia, a qual se atribui incorretamente o mérito dos únicos amordaçados.

DISCOGRAFIA – Apesar de ter seu nome sempre ligado à Bossa Nova, sua obra é bastante plural e tem uma forte influência dos violeiros e cantadores nordestinos. Em que momento você percebeu que a estética do “amor, sorriso e flor” não eram mais suficientes para sua música?

SR – Já no meu primeiro disco, no qual a música Zelão se destacava como variante no estilo usual daquele movimento, cuja diferença estava no conteúdo e não na forma. Sua sofisticação musical condizia com o propósito da BN, mas a letra abordava a vertente da linguagem que viria desbravar a picada que me levaria de volta à temática do oprimido, como já havia feito com a canção Buquê de Izabel, gravada por Maysa (1936 – 1977), em seu disco anterior à Bossa Nova, abordando o sentimento de uma solteirona. Mas Zelão não só se tornou meu maior sucesso como me abriu o horizonte para a denúncia social, tornando-se a primeira canção com o sentido contestatório que viria nortear a vertente adotada por vários colegas na integração de um movimento que se iniciava no País. Como a reforma agrária era um dos temas mais contundentes, parti, com a ajuda de Glauber Rocha, que me presenteou com fitas de cantadores, e mais minha admiração pelo nordeste, a incorporar aquela rica e variada cultura nascida do povo, na sua forma mais pura. Logo absorvida, pois meu arabismo atávico e minhas vivências da infância entre camponeses, levaram-me a uma identificação tal que passei a compor naquele estilo, usando meus conhecimentos musicais para criar as variações mais inusitadas e pessoais, sem perder o fio da meada.

DISCOGRAFIA – Seu trabalho foi sempre ligado às questões políticas e sociais. O que você pensa da política brasileira atual? Ainda vale a pena colocar os problemas brasileiros nas letras de música?

SR – Curioso. Deparo-me de repente com o fato de que não fiz meu trabalho social pela conveniência em engajamentos, mas por um impulso natural de meu sentimento voltado por minha constatação filosófica e sincera, empurrando minha criatividade a integrar-se à transformação da vida ao meu redor. Não consigo me ver distanciado e alheio aos males que afetam a mim e a meu semelhante, mesmo quando canto o amor. Procuro dar ao meu trabalho a dignidade de me distanciar o máximo possível de externar, ainda que sub-repticiamente, um sentimento encomendado por qualquer tipo de oportunismo. Se vale ou não a pena esta ou aquela postura diante desse ou daquele momento, não faz a minha cabeça. Sou escravo de minha inspiração e faço o que ela determina sem limitações. Se externamente meu trabalho coincidir com determinados chamamentos, me engajo. Do contrário encaro o ostracismo, como tenho feito em todos estes anos, sem o menor problema.

DISCOGRAFIA – Você morou, durante uma época, em um barraco na favela. Que lembranças mais marcantes você tem desse período?

SR – A maior de todas foi experimentar na própria pele a necessidade e a alegria de participar de uma luta pela união de uma comunidade carente, e com ela vencer, em plena ditadura, uma guerra travada sem derramamento de sangue. Vitória alcançada com a aliança de setores da sociedade, solidarizando-se com os favelados, fazendo-se impor pela lei e pela implacável importância de uma população indignada opondo-se corajosamente contra os desmandos da ditadura, dando um basta contundente a conquistar a primeira vitória do povo contra o sistema vigente.

DISCOGRAFIA – Além da música, o cinema sempre ocupou uma parte importante da sua vida. Como você avalia hoje a sua produção cinematográfica?

SR – É a mesma avaliação que faço de minhas canções. Ao fazer meu primeiro filme, Menino da Calça Branca (1961), deparei-me coincidentemente com o nascimento do Cinema Novo, com o mesmo conteúdo social e político dos demais filmes que se faziam na época. Meus outros filmes seguiram a mesma linha e assim como meus últimos relançamentos musicais, serão também relançados talvez ainda no final do ano. Não foram negociados em exibições normais, com a desejada competência, por culpa de minha dualidade profissional desviar-me a concentração, embora todos tenham sido convidados a participar de vários festivais internacionais. O cinema é minha forma preferida de trabalhar, pois ele unifica o meu universo criativo. Poesia, música, pintura, representação, dramaturgia, montagem, etc. Pena que seja tão caro e tão esporádico.

DISCOGRAFIA – Você acha que recebeu o reconhecimento devido como músico e cineasta?

SR – Seria uma contradição ter recebido o reconhecimento do sistema contra o qual virei a boca escancarada de meus canhões. Ser devidamente tocado no rádio, ou em constantes aparições na TV, sem capitular ante os jabás do espírito… O reconhecimento veio, felizmente, dos meus colegas e amigos, e da parcela do meu público que consegue, a duras penas, um acesso ao meu trabalho.

DISCOGRAFIA – Entre esses relançamentos está A noite do espantalho, uma trilha de forte acento nordestino. Queria que você falasse sobre esse disco, esse filme e as parcerias com Geraldo Azevedo e Alceu Valença.

SR – O disco é a reprodução da trilha sonora do filme e é dos mais solicitados. Geraldo e Alceu me caíram do céu como presente exatamente no momento em que procurava os atores do filme. A figura e o talento de Alceu se encaixaram como uma luva no personagem do Espantalho, que ganhou, com sua performance uma grandeza tamanha, que tive de reduzir sua aparição para não abocanhar o filme. Geraldinho, encarregado de me ajudar na direção musical, vindo a dar maior autenticidade na linguagem musical, ainda emprestou seu talento para representar com muita sensibilidade o papel mais humano do cordel. De resto, todo o elenco de atores e técnicos convidados encaixaram-se de tal forma em seus papéis, ajudando-me a transpor para a tela a linguagem dos cantadores, sua poética e sua magia, tendo como pano de fundo o cenário de Fazenda Nova, generosamente concedido por Plínio Pacheco que associando-se ao projeto, me cedeu sua infra de atores, guarda-roupa, figurinos e cenário além de um pulso forte como diretor de produção.

DISCOGRAFIA – Uma presença forte na sua vida foi a do Glauber Rocha, para quem você compôs duas importantes trilhas. A meu ver, principalmente em Deus e o Diabo na terra do sol, é como se trilha e filme fossem uma coisa só. Como essas músicas eram compostas? De que forma o próprio Glauber contribuía para as músicas?

SR – O mérito musical é também fruto da genialidade de Glauber. Além de ter-me fornecido o poema para eu musicar, interferiu na forma como deveria ser cantada e composta a música, enchendo-me de exemplos colhidos pelo sertão. Só fiz executar sua regência criando minhas melodias e formas de acompanhamento ao violão, além de arrancar de minha voz um arremedo dos cantadores.

DISCOGRAFIA – Uma das passagens mais curiosas e lembradas da sua vida foi o Festival de 1967, revivido em documentário recente. Certamente havia um jeito muito passional da plateia avaliar suas preferidas, principalmente renegando aquilo que não era claramente uma crítica social. O que pensa quando vê aquelas imagens hoje?

SR – Mais claramente do que a crítica social abordada por Beto Bom de Bola, não me consta ter ouvido naquele festival. Eu denunciava a exploração dos cartolas sobre o jogador de futebol daquela época, que sem nenhum pudor atiravam os craques no abandono após sugarem seus melhores momentos, baseado na história de Garrincha. Indignado com a temática, a direção da Record, de propriedade de um dos maiores cartolas de São Paulo (Paulo Machado de Carvalho), boicotou a apresentação da música, manipulando o som das vaias com microfones no centro da plateia e retirando o som do retorno no palco impedindo-me de ouvir o acompanhamento da canção, cujo resultado é do conhecimento de todos. Ainda bem que uma inspiração levou-me aquela reação, tornando o gesto numa denúncia contra a manipulação descarada que a mídia exerce sobre a cultura desse País.

DISCOGRAFIA – Esse episódio gerou muita discussão e ainda hoje é um marco na nossa história. De que forma aquela noite do Festival marcou sua carreira?

SR – O tiro saiu pela culatra. Aquele gesto provocou uma reversão de expectativa e tornou-se um ato isolado de rebeldia contra as deformações culturais exercidas pelos meios de comunicação a serviço do sistema, que a cada ano que passa corrói as entranhas da evolução natural da espécie, reduzindo-nos a seus escravos. Aquele gesto sintetiza o conteúdo de minha obra e justifica minha coerência e minha rebeldia contra este sistema podre a inverter valores, transformando a humanidade em famintos, em número assustadoramente crescente a cada ano que passa. Fechar os olhos para esta realidade é assinar um atestado de conivência, que felizmente nunca esteve em meus planos.

DISCOGRAFIA – Com a criação da Sombras, nos anos 70, você atuou diretamente na luta pelos direitos autorais. Como você vê essa discussão hoje? Acha que ela está indo por um caminho positivo para os artistas?

SR – A CPI do direito autoral já apontou seus ladrões e agora se espera por sua condenação. Enquanto a justiça não o fizer, teremos todos os criadores que aguardar o seu veredito para saber se enfiamos o rabo entre as pernas ou se discutimos a forma de rearrumar a casa. Há um rio de dinheiro desviado do suor de nossos criadores para o bolso de oportunistas, cuja cara de pau, ostenta uma gargalhada de orelha a orelha, pela inércia da justiça e dos órgãos oficiais no sentido de erradicar de vez o descaramento deste setor. Enquanto o artista brasileiro não se convencer de que tem que lutar por seus direitos, mais na miséria vai ficando. A pergunta fundamental é COMO ACORDÁ-LOS!!!

DISCOGRAFIA – Quais são seus planos atuais para cinema, disco, literatura, etc.

SR – A vida me deu de presente um leque de opções. Não tenho planos definitivos. Agarro-me ao que me for dado fazer com entrega tal que pareço só saber fazer aquilo. Minha agenda é flutuante e no momento acompanho a carreira de minha peça Bandeira de Retalhos representada pelos atores do Nós do Morro, enquanto aguardo a aprovação de dois filmes que pretendo realizar, um no morro, outro no campo, a feitura de concertos de “Estória de João Joana”, feito em parceria com Drummond de Andrade, a publicação de meu livro de poemas, “Canção Calada”, ainda sem editor, um novo disco com minhas canções inéditas (em preparação) … E assim vou por no meu delírio criativo, justificando com alegria o meu tempo gasto mais com a criação do que com seus resultados, numa neura incontrolável.

DISCOGRAFIA – Como foi essa experiência de ter escrito um livro infantil (O Elefante adormecido, 1989)?

SR – Foi linda enquanto desenhava a nanquim as ilustrações e compunha os versos de um cordel, navegando no sonho de um “Elefante Adormecido”. Um livro mais para adolescentes do que para crianças. Faz tanto tempo, que já nem me lembro que fim o levou.

DISCOGRAFIA – Em meio a uma produção tão rica – cinema, literatura, música, TV – quais são as atuais prioridades do Sérgio Ricardo?

SR – Aguardar aquelas já expostas, e ao sabor do vento, lançar-me ao vôo que o espaço me permitir, e pousar no galho que suportar o peso de minha contemplação dessa paisagem que me alimenta o sonho de ver seus habitantes finalmente em paz. Utopia da qual não abro mão.