Discografia

A segunda estreia de Paula Tesser

PAULA TESSER 4 crédito Nicolas Gondim (2500x1667)Começando pelas apresentações, Paula Tesser é francesa, filha de brasileiros e radicada no Ceará há muitos anos. Entre Europa e Brasil, ela prestou bons serviços à música como artista e socióloga (o doutorado na Sorbonne foi sobre o Mangue Beat). Seu primeiro disco, Retrato do Vento, veio em 2004, somente com canções do ex-marido Valdo Aderaldo. O toque bossa nova das composições destaca a voz perfeitamente límpida da cantora, que também faz uso do charme francês em sua interpretação.

Depois de Retrato do Vento, Paula Tesser se dedicou à carreira acadêmica e às duas filhas. Na música, fez shows – onde se destaca o ótimo tributo a Rita Lee e o trio carnavalesco As Gata pira, dividido com Natasha Faria e Soledad Brandão – e participou de discos e coletâneas internacionais. Mas nada de trabalho inédito. Esse jejum foi quebrado no início deste ano, com o independente Valha. Daquela cantora de dez anos atrás, preservou-se o translúcido da voz, o calor das interpretações e o charme. Fora isso, é tudo novo no novo disco de Paula Tesser.

capa PAULA TESSERProduzido pelo “cidadão instigado” Dustan Gallas, Valha conecta Paula Tesser à recente produção MPB/pop indie brasileira, com todos os seus vícios e virtudes. Não por acaso, o disco foi gravado em São Paulo, onde se encontra boa parte dessa produção, e traz à memória os trabalhos de Tulipa Ruiz e Bárbara Eugênia, tanto na sonoridade quanto nas intenções. Mas há personalidade e uma dose bem calculada de experimentação nas 11 faixas de Valha, que foram bem climatizadas com camadas de teclado, baixo e bateria. Para quebrar o clima modernoso, um quarteto de cordas se insere dando um ar clássico.

A temática que domina Valha é amor sensual, quente, e nada piegas. Embora não seja compositora, Paula Tesser traz o repertório para si e imprime sua personalidade forte nas interpretações. É o caso de Bolero negro, composição inédita de Dustan que recebeu versos inspirados de Fausto Nilo (“Sinto as curvas da tua paisagem entre minhas mãos”). O produtor também assina a delicada Monamu e a new brega Você tem medo de gostar de mim, cuja segunda parte merecia mais voz para sublinhar a dramaticidade.

O cantor e compositor Oscar Arruda comparece de forma discreta nos vocais de Quase pronto, fruto da própria lavra. A canção destoa positivamente no disco pelo tom ensolarado, assim como Gente esquisita, de Valdo Aderaldo e Celso Gutfreind, que evoca a urgência urbana de Um americano em Paris, peça de George Gershwin. Já Luz interior, de Arthur Braganti (do Letuce) é o ponto baixo, apesar da vontade de parecer performática.

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Como quem queria vasculhar a história musical cearense, Valha traz alguns achados, como a teatral Cobra, canção soturna de Stélio Valle e Allano Freitas registrada no álbum Maraponga (1978), de Ricardo Bezerra. Há também Pé de espinho (Rogério/ Stone/ Luiz Carlos Pinóquio), pescada do Massafeira (1980). Ou ainda, Tudo blue, de Fausto Nilo e Pepeu Gomes, lançada por Baby Consuelo em 1978. Já a porção francesa de Paula Tesser aparece mais evidente em Démons et merveilles, de Mauriuce Thiriet e Jacques Prévert, cujos teclados vintage dão um ar melancólico reforçado pelos agudos precisos da cantora.

No entanto, nenhuma canção deve chamar mais atenção do que Pode me torturar. A música da rainha do forró Eliane (com José Lima) faz parte de um movimento corriqueiro na música brasileira moderna de resgatar canções antes tidas como brega. Novos arranjos buscam “redimir” estas canções, como já fez Caetano Veloso e Otto, por exemplo. Neste caso, mais uma vez, o resultado é ótimo e deve tocar e todas as próximas festas descoladas da Cidade. Se esse é um dos vícios na nova MPB indie que recai sobre Valha, as virtudes sonoras também são muitas e mostram que Paula Tesser fez bem em voltar a cantar do jeito que voltou.